quinta-feira, 20 de outubro de 2005

A diferença não é sociológica

Argumenta-se muitas vezes que a Espanha é um país mais «aberto», mais secularizado, etc e tal, e que é essa a razão para que o PSOE se possa empenhar num processo (embora moderado...) de laicização do Estado, enquanto o PS português exibe, ostensivamente, um «medinho» da ICAR decepcionante.
Será isto verdade? Será Portugal sociologicamente mais conservador do que a Espanha?
Vejamos, para começar, as percentagens de casamentos exclusivamente civis em cada um dos países ibéricos nos anos mais recentes.
(País\Ano) 1999 2000 2001 2002 2003
Portugal 34% 33% 37% 37% 40%
Espanha 24% 24% 27% 29% 33%
E mais, em 2003 houve 15 divórcios por cada 100 em Espanha, e em Portugal 42 por cada 100.
E mais ainda, em 2003 23% das crianças espanholas nasceram de mães solteiras, e no mesmo ano 27% das crianças portuguesas nasceram de mães solteiras.
Pegue-se por onde se pegar, a verdade é que Portugal está à frente da Espanha no processo de secularização sociológica. Porque será que não há um avanço correspondente na laicização política?
Alguém me faz o favor de explicar isto à direcção do PS? Ou, no mínimo, à Comissão Política de Manuel Alegre? (Ou até ao PCP e ao BE?)
(Se alguém estiver nessa disposição, até posso fornecer gráficos...)

3 comentários :

tchernignobyl disse...

com efeito é inexplicável.
em termos simplistas dir-se-ia que a esquerda espanhola assume as suas posições políticas com maior clareza.
em portugal fazêmo-la mais pela calada.
a influencia da esquerda em portugal é muito fictícia.
muitas pessoas identificam-se com o ps por ser um partido relativaente inócuo, bons sentimentos democráticos q.b., em grande parte o garante do conformismo e do status quo (será provavelmente essa a razão pela qual muitos eleitores do ps "ameaçam" votar no Cavaco..).
Ou então não é nada disto, estamos pura e simplesmente presos das homilias do professor marcelo e as suas teorias do "centro".
hipóteses, pouco mais do que isso...

Ricardo Alves disse...

tchernignobyl,
eu também fico perplexo quando faço comparações destas.
A hipótese que avanças, de as pessoas apenas votarem no PS por ser inócuo, garante de que tudo continuará na mesma, etc, não será válida para Espanha porquê? Quem te garante que o PSOE não é também visto como o partido do status quo?
Eu acho que a diferença está nas pessoas que constituem cada um desses partidos: as que estão no PS são mais conservadoras do que as que estão no PSOE, e têm uma imagem distorcida da realidade portuguesa...

tchernignobyl disse...

olá ricardo desculpa só agora ter reparado no teu post.
a razão mais imediata para eu avançar com a "teoria" do PS inócuo, é, em primeiro lugar os dirigentes que são escolhidos.
não é por acaso que em espanha o zapatero, com uma vitória relativamente apertada, vai para a frente com o seu programa doa a quem doer e em portugal uma vastissima maioria de esquerda ainda não resolveu o problema do aborto por exemplo, e pelo andar da carruagem nunca mais vai resolver.
Ora o que seria de esperar? que o eleitorado mostrasse tendência para a radicalização, reforçando eventualmente as posições da CDU e do BE. A CDU ainda pode ir atirando alguns foguetes com o relativo sucesso das autárquicas, mas... o que se passa quanto às presidenciais? Aparentemente uma fatia importante de votantes do ps, da cdu e do be, consideram a hipótese de votar no cavaco. E porquê? Porque virou tudo à direita? a meu ver, não exactamente... trata-se da miragem do "homem providencial" que por si só vai endireitar isto tudo. Este espírito é revelador de um conformismo entranhado até aos ossos da sociedade portuguesa.
Muito mais haveria ou haverá a dizer para fundamentar e ilustrar melhor esta ideia mas aqui fica o resumo.