sexta-feira, 22 de julho de 2005

Este blogue fica suspenso...

...com a publicação deste artigo. Até ao final de Agosto, já será muito se conseguir ir colocando um artigo por semana, pois duvido que tenha disponibilidade para tanto.
Em jeito de balanço...
Desde o início, em Março, este blogue teve o seu melhor momento (refiro-me ao gozo pessoal do autor), na polémica sobre a lei francesa contra os símbolos religiosos ostentatórios, mantida em Junho com o Rui Fernandes do Leileteia (o que é feito desse blogue e do seu autor?). A outra polémica de nota, esta logo em Março, foi com o Vital Moreira, sobre a ausência da laicidade no Tratado Constitucional europeu.
Como evito restringir-me a ecoar as «actualidades» portugas (para isso existem os jornais e dezenas de outros blogues), e nem sempre há imaginação, tenho aqui transcrito, desavergonhada e abundantemente, artigos inteiros de laicistas militantes que admiro, como Henri Peña-Ruiz, Salman Rushdie, Ayaan Hirsi Ali, Polly Toynbee, Christopher Hitchens, Richard Dawkins ou Taslima Nasreen. As Revistas de imprensa (que não sei se aproveitam a alguém...) têm constituído outra «rubrica» frequente.
De resto, até agora os temas habituais foram: a laicidade, o «não» ao Tratado constitucional europeu, defesas da APF e da despenalização da IG, o combate aos fascismos lusitano e islâmico, e política de esquerda em geral, com algumas concessões aos meus impulsos mais rigoristas em dois artigos que a muita boa gente devem parecer extravagantes: «Soundbytes ou sound bites?» e «O politicamente correcto nunca existiu».
De qualquer modo, o Esquerda Republicana não terminará aqui, apesar de o número de leitores regulares (que deverá andar entre as duas e as três dezenas) ser pouco entusiasmante.
Entretanto, aconselho a leitura do Diário Ateísta (que não vai de férias).

Disparar a matar

A polícia britânica, com a sua civilidade lendária (na luta contra o IRA chegou a fabricar provas para deter suspeitos) abateu, com cinco tiros, um indivíduo asiático numa estação de metro de Londres.
Comentário: a degradação das relações entre a polícia e as pessoas de «minorias étnicas» (o que inclui qualquer cara mais escura do que o inglês «de cepa», e portanto os portugueses) está a agravar-se. Espera-se para ver qual foi o crime deste jovem: ou era bombista, ou carteirista, ou simplesmente destravado. Nos dois últimos casos, teremos crime policial. No primeiro, um dilema ético muito difícil. Em qualquer dos casos, a notícia não é boa.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Mais atentados em Londres, hoje

Registaram-se cerca de quatro explosões em Londres há cerca de duas horas (três em estações de metro e uma num autocarro). Ainda não é claro se haverá vítimas mortais, mas as bombas seriam mais artesanais do que há duas semanas (uma seria uma bomba de pregos e os detonadores terão explodido sem detonar as bombas). Um dos bombistas poderá ter sido capturado.
The Guardian Newsblog (Actualizações permanentes)
Nota: este blogue não é exclusivamente sobre terrorismo nem pretende cobrir todos os acontecimentos quotidianos.

sexta-feira, 15 de julho de 2005

O que fazer?

O que fazer face ao terrorismo islâmico?

A resposta à pergunta necessita de um esforço prévio de compreensão dos objectivos dos jihadistas, um exercício que constitui, para estalinistas de direita como Pacheco Pereira, nem mais nem menos do que uma «traição» (sic!). Mas quem não compreende aquilo que combate arrisca-se a errar o alvo...

Xavier Arzalluz (o líder histórico do Partido Nacionalista Basco) dizia, a propósito do terrorismo da ETA, que «uns abanam as àrvores e outros recolhem os frutos». Referi anteriormente que a Al-Qaida não se assumia como o braço armado de uma organização civil com a qual se pudesse negociar. Isto é só parte da verdade, pois a Al-Qaida partilha os seus objectivos e ideologia, genericamente, com a Irmandade Muçulmana, uma organização pela qual passaram muitos dos seus militantes. Portanto, teoricamente a Irmandade poderia fornecer interlocutores civis para uma negociação.

A primeira reivindicação dos terroristas poderia ser satisfeita: a retirada das tropas «ocidentais» do Iraque e restantes países muçulmanos. Evidentemente, tal não acontecerá, quer porque pareceria uma cedência ao terrorismo (e tanto a guerra do Afeganistão como a do Iraque foram feitas na presunção, errada, de que o terrorismo é derrotável através de guerras convencionais), quer porque há interesses petrolíferos a preservar e os regimes implantados no Iraque e no Afeganistão dificilmente sobreviverão sem apoio militar exterior. A prazo, a estratégia de confronto estado-unidense continuará a alimentar a Al-Qaida.

Seriam possíveis outras abordagens. Nomeadamente, isolar diplomaticamente os regimes teocráticos (Arábia Saudita, Estados do Golfo) e ajudar aqueles em que se registam progressos na direcção da democracia e da laicidade (aceitando a Turquia na UE e acenando a Marrocos com um estatuto de parceria, por exemplo). A dependência do petróleo impede que se efective a primeira parte desta estratégia, o que torna uma prioridade geopolítica encontrar alternativas energéticas ao petróleo.

Finalmente, o campo de acção onde se poderá avançar sem grandes constrangimentos é, obviamente, interno. É necessário induzir a criação de um islão reformado nos países europeus. Para o fazer, devem deixar-se de lado os fantasmas do «choque das civilizações» (a ideia, culturalista, de que os princípios democráticos e laicistas são «ocidentais» e intransmissíveis) e os complexos do multiculturalismo diferencialista (que afirma o mesmo, e que portanto justifica a diferença de direitos e o separatismo étnico nas cidades europeias). Estando os outros campos de acção bloqueados, a integração dos imigrantes, como cidadãos individuais que podem alterar o modo como vivem a sua religião ou mesmo abandoná-la, torna-se o processo mais eficaz de demonstrar que os muçulmanos podem viver em democracia.

Fascismo contra fascismo e limitações às liberdades

Um efeito secundário dos atentados de Londres perpetrados por fascistas islâmicos foi propiciar uma onda de ataques racistas contra imigrantes (nem sempre muçulmanos), e um crescendo da actividade dos fascistas britânicos. No espaço de uma semana, já se contaram vários ataques a mesquitas, incêndios criminosos em casas particulares e um assassinato.
O British National Party (BNP), um partido fascista, concorrerá amanhã a uma eleição autárquica em Barking (nordeste de Londres), local onde nas eleições legislativas de Maio teve 17% dos votos. O BNP produziu um panfleto com uma fotografia do autocarro que foi destruído por uma bomba e com a frase «Talvez agora seja altura de começar a dar ouvidos ao BNP».
Entretanto, continuam os ataques racistas contra portugueses na Irlanda do Norte.
Existem ingénuos que idolatram a Inglaterra como se fosse um modelo de liberdade e democracia. Estas notícias e a intenção de Tony Blair de registar todas as chamadas telefónicas e mensagens de correio electrónico no espaço da UE, assim como a lei britânica recentemente aprovada que criminaliza a blasfémia, deveriam fazê-los reflectir.

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Sayid Qutb: a teorização do fascismo islâmico

Sayid Qutb é o teórico principal do fascismo islâmico contemporâneo. Nasceu no Egipto em 1906, foi professor e crítico literário no início da sua carreira e fez um mestrado no Colorado entre 1948 e 1950. Chocado tanto com a liberdade sexual como com a segregação racial que observara nos EUA, aderiu à Irmandade Muçulmana (que fora fundada em 1922 por Hasan Al-Bana) após regressar ao Egipto. Posteriormente, foi preso em 1954 por envolvimento numa tentativa de assassinar Nasser, e enforcado em 1966. Entretanto, escrevera na prisão as obras mais influentes nas correntes jihadistas actuais: Milestones e In the Shade of the Quran.
Transcrevo de seguida alguns excertos sgnificativos de Milestones.
  • «It is therefore necessary that Islam's theoretical foundation-belief-materialize in the form of an organized and active group from the very beginning. It is necessary that this group separate itself from the jahili society, becoming independent and distinct from the active and organized jahili society whose aim is to block Islam. The center of this new group should be a new leadership, the leadership which first came in the person of the Prophet-peace be on him- himself, and after him was delegated to those who strove for bringing people back to God's sovereignty, His authority and His laws. A person who bears witness that there is no deity except God and that Muhammad is God's Messenger should cut off his relationship of loyalty from the jahili society, which he has forsaken, and from jahili leadership, whether it be in the guise of priests, magicians or astrologers, or in the form of political, social or economic leadership, as was the case of the Quraish in the time of the Prophet-peace be on him. He will have to give his complete loyalty to the new Islamic movement and to the Muslim leadership.
  • Islam, then, is the only Divine way of life which brings out the noblest human characteristics, developing and using them for the construction of human society. Islam has remained unique in this respect to this day. Those who deviate from this system and want some other system, whether it be based on nationalism, color and race, class struggle, or similar corrupt theories, are truly enemies of mankind!
  • Islam provides a legal basis for the relationship of the Muslim community with other groups, as is clear from the quotation from Zad al-Mitad. This legal formulation is based on the principle that Islam - that is, submission to God-is a universal Message which the whole of mankind should accept or make peace with. No political system or material power should put hindrances in the way of preaching Islam. It should leave every individual free to accept or reject it, and if someone wants to accept it, it should not prevent him or fight against him. If someone does this, then it is the duty of Islam to fight him until either he is killed or until he declares his submission.»

O ponto central do pensamento de Qutb é que o único regime político legítimo é o Califado. Todos os outros regimes baseiam-se em leis feitas pelos homens e são, portanto, imperfeitos, injustos e ilegítimos. Teorizou sobre a necessidade de formar células militantes que ajudassem a restaurar o califado. Lendo as linhas acima, nota-se que o apelo à formação dessas unidades se aproxima, pelo ascetismo, de algumas «seitas». O termo Jahiliyyah referia-se originalmente ao estado de ignorância anterior ao Islão, mas Qutb aplicava-o às sociedades muçulmanas suas contemporâneas, o que significa que as considerava tão pervertidas que nem deveriam ser consideradas islâmicas.

Um dos irmãos de Sayd Qutb, Mohamad Qutb, foi professor de Estudos Islâmicos na Arábia Saudita, onde teve como aluno Al-Zawahiri, o braço direito de Bin Laden.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

O bombismo suicida

Segundo as últimas notícias, os atentados de Londres foram cometidos por quatro bombistas suicidas, todos eles súbditos britânicos de origem paquistanesa com idades entre os 18 e os 30 anos. Aparentemente, nenhum tivera qualquer actividade extremista anteriormente.
Muitas pessoas, na direita religiosa e na esquerda multiculturalista, resistem a aceitar que a religião islâmica possa criar o enquadramento ideológico para o terrorismo e a motivação psicológica para o suicídio bombista.
Efectivamente, é verdade que a escolha da táctica (bombismo suicida) e dos alvos (países democráticos com tropas em «territórios ocupados») é partilhada quer por grupos islamistas (Al-Qaida, Jihad Islâmica) quer por grupos marxistas-leninistas (PKK do Curdistão, os Tigres Tamil do Sri Lanka). Em ambos os casos, o objectivo imediato será (divergindo agora do que afirmei anteriormente) impressionar as opiniões públicas dos países democráticos para que pressionem pela retirada das suas tropas. Esta linha de argumentação é desenvolvida por Robert Pape numa entrevista.
No entanto, afirmar que o factor religioso é pouco relevante, como faz Joana Amaral Dias num artigo do blogue Bichos Carpinteiros, é desvalorizar quer os objectivos finais quer as motivações individuais. Na entrevista de Robert Pape referida, pode também ler-se:
«Not every foreign occupation has produced suicide terrorism. Why do some and not others? Here is where religion matters, but not quite in the way most people think. In virtually every instance where an occupation has produced a suicide-terrorist campaign, there has been a religious difference between the occupier and the occupied community. That is true not only in places such as Lebanon and in Iraq today but also in Sri Lanka, where it is the Sinhala Buddhists who are having a dispute with the Hindu Tamils.
When there is a religious difference between the occupier and the occupied, that enables terrorist leaders to demonize the occupier in especially vicious ways. Now, that still requires the occupier to be there. Absent the presence of foreign troops, Osama bin Laden could make his arguments but there wouldn’t be much reality behind them
.»

O arrastão nunca existiu

Dediquei já vários artigos neste blogue à inventona do arrastão. O Diário de Notícias de ontem trouxe um dossiê sobre o assunto. «O estranho caso do arrastão que morreu na praia» e «A memória futura do arrastão» são artigos que reflectem sobre as condições em que a imagem de primeira hora (a dos «500 marginais organizados») se intalou na opinião pública, e como mesmo o desmentido que a PSP fez nos dias seguintes não teve o mesmo destaque na comunicação social. Efectivamente, os media haviam cedido ao sensacionalismo, e o desmentido, sendo um anti-climax, não era mediaticamente aliciante. Eu acrescento outro factor importante na mistificação: a inventona confirmava preconceitos racistas de muita gente.
A polémica que tem causado o facto de Diana Andringa ter feito um documentário jornalístico e ser simultaneamente candidata do BE à Câmara Municipal da Amadora deveria ser de importância menor. O dossiê do DN inclui uma entrevista de Diana Andringa e outro artigo sobre as condições em que o documentário foi divulgado. A tentativa de descredibilizar o documentário porque o BE fez uma ligação para o documentário é ridícula. Entretanto, continuo à espera que algum canal de televisão, de preferência público, o transmita. Diana Andringa esteve bem como jornalista e cidadã.
Adenda: o blogue O céu sobre Lisboa transcreve excertos da entrevista do comandante da PSP.