domingo, 19 de julho de 2026

Falta de mão-de-obra

Em Portugal (e em todo o lado) é "politicamente suicida" afirmar que "os salários são excessivos", ou que "o desemprego é demasiado baixo". E por uma razão fácil de entender: as pessoas que podem rever-se nesse diagnóstico (quem tem rendimentos vindos de activos superiores aos rendimentos vindos do seu trabalho presente ou passado via pensão de reforma) são uma proporção muito baixa da população.
Pelo contrário, a esmagadora maioria da população sente que "os salários são baixos" e que "seria desejável que o desemprego baixasse".  


É então curioso que não seja "politicamente suicida" afirmar que existe "falta de mão-de-obra", uma afirmação extremamente próxima das acima mencionadas. Falta de mão-de-obra significa baixo desemprego, pelo menos no sector em questão, e um contributo para que o desemprego nos demais seja inferior ao que seria de outra forma. Falta de mão-de-obra num determinado sector terá como consequência expectável a subida dos salários nesse mesmo sector, o que por sua vez contribui para a subida salarial generalizada. E falta de mão-de-obra em geral significa menos desemprego em geral e salários crescentes em geral. 

Eu creio que quem fala em falta de mão-de-obra presume que quem considera os salários excessivos e o desemprego muito baixo entende as implicações da afirmação, e que a generalidade da população não, e que essa "obscuridade selectiva" da frase é que não a torna politicamente suicida.