quarta-feira, 27 de abril de 2011

Porque pretendo votar BE

Infelizmente tenho de reconhecer que aquilo que me leva a votar BE não são os méritos deste partido.

Concordo com a proposta de um imposto sobre as grandes fortunas, essa grande bandeira do BE; concordo com o fim dos benefícios fiscais nos moldes que o BE propõe; concordo com a insistência em renegociar a dívida antes da vinda do FMI; concordo com a vontade de pôr a banca a pagar IRCs efectivos superiores a 5%; e cada vez mais creio que foram certeiras e bem justas as críticas que os partidos à esquerda do PS fizeram às PPPs quando estas foram negociadas e aceites.

Mas se tenho bastante a aplaudir, não é menos verdade que tenho muito a criticar neste partido - e a indisponibilidade para alianças ou compromissos com outros partidos de esquerda, partilhada pelos mesmos, é uma das principais razões de crítica.


No entanto, parto para estas eleições com algumas convicções, e estas justificam o meu voto no BE:

a) Uma maioria de direita no parlamento seria, nas actuais condições políticas e económicas, uma catástrofe para o nosso país. Neste momento, os partidos de direita teriam as condições políticas perfeitas para privatizar tudo o que desejassem, vendendo o nosso património colectivo ao desbarato, fazendo enriquecer meia dúzia enquanto o país ficaria menos próspero e mais desigual.
Os partidos de direita poderiam fazer cortes cegos e ineficazes nas prestações sociais, e culpar «as políticas de esquerda do PS» pelos resultados catastróficos. E por muito absurdo que tal discurso pareça à esquerda, a verdade é que ele teria o seu poder persuasivo para os que estão menos informados.

a1) Por essa razão, não pretendo votar em nenhum partido sem assento parlamentar, salvo na convicção de que este esteja muito próximo de conseguir eleger um deputado. Se souber que é este o caso, posso reconsiderar a minha posição, para votar num pequeno partido de esquerda - como por exemplo o Partido Humanista.


b) Os partidos do arco do poder, PS, PSD, e CDS, independentemente da sua ideologia, têm sucessivamente usado o exercício do poder para favorecer interesses privados no prejuízo do interesse público.
Actualmente parece-me que a maior aversão popular ao PS não é devida à ideologia deste partido, com a qual, pelo contrário, existe uma grande grande afinidade.

É devida à sensação, justificada, de que, apesar da grave crise financeira que o país atravessa, há um significativo desperdício de dinheiro em mordomias várias para aqueles que, bem relacionados com o poder político, ocupam postos mais em virtude destas relações do que da competência demonstrada na acção; de que a corrupção é abundante e passa impune; de que os actores políticos têm gerido o bem público tendo em vista o interesse próprio e não o interesse do país.

A este nível o PS não foi superior ao PSD. E teria de o ser, porque um eleitor que queira usar o seu voto para lutar contra esta situação não pode deixar impune a cumplicidade tácita dos partidos do arco do poder quanto à forma como certos elementos menos honestos o exercem, e dele se aproveitam.

O PS poderia mostrar-se um partido diferente se, simbolicamente, tivesse feito cair Sócrates, enquanto responsável político, assim que as escutas relativas ao caso TVI foram divulgadas. Se, simbolicamente, tivesse existido uma punição digna a Ricardo Rodrigues, em vez de uma solidariedade acrítica.
Ou se, substancialmente, tivesse avançado com o «pacote Cravinho» original. Ou já tivessem sido implementadas, ao longo destes 6 anos em que o PS esteve no poder, as medidas propostas na moção sectorial «Mais Transparência, Menos Corrupção».

Mas o PS não foi um partido diferente. Mostrou, tal como o PSD e o CDS-PP, os piores vícios no exercício do poder, e merece ser punido nas urnas.


c) Apesar das enormes diferenças de estilo, BE e PCP (+PEV) foram partidos muito próximos na acção. Votaram de forma igual em praticamente todos diplomas apresentados na Assembleia da República.
No entanto, no momento em que se impunha uma aliança de Esquerda que permitisse sonhar a disputa do poder e mudar o debate político em Portugal, ou pelo menos conseguir mais deputados por forma a impedir que a direita consiga a maioria do parlamento, foi a inflexibilidade do PCP que feriu de morte esta possível aliança.
E se as posições do PCP de tolerância e amizade face a partidos associados a regimes ditatoriais já me transtornam um pouco, este desfecho dissipou as poucas dúvidas que houvesse.

Por exclusão de partes, voto BE.


d) Aquilo que não quero ver nestas eleições é uma batalha fraticida entre as esquerdas. Neste texto teci duras (e merecidas, a meu ver) críticas ao PS, mas esse é um partido no qual já votei, e não descarto voltar a votar. Apesar das críticas feitas também não descarto, no futuro, votar na CDU.

Mas nestas eleições é importante mostrar os perigos de um parlamento com maioria de direita. É importante mostrar que a crise de 2008, que acabou por nos arrasar agora, é consequência directa das políticas que têm vindo a ser propostas pela direita, e aceites (a contra-gosto?) pela esquerda moderada. É fundamental mostrar onde levam tais políticas e denunciar - desmistificar - a propaganda que os interesses económicos gostam de ver defendida no espaço público.

Não vou votar no PS, nem na CDU. Mas, nestas eleições, os meus inimigos políticos estão do outro lado, do lado direito: são o PSD e o CDS-PP.