domingo, 24 de abril de 2011

Revista de imprensa (24/4/2011)

  • «Nunca fui de frequentar comícios ou manifestações. Pela mão dos meus pais fui à manifestação do Primeiro de Maio, logo depois da Revolução, e a dois comícios da AD, no tempo de Sá Carneiro. À da Fonte Luminosa não me levaram, foram os dois porque tinha de ser, de ditaduras estavam eles fartos.

    Já espigadote, muito entusiasmado com a campanha à Presidência de Freitas do Amaral, andei, feito tonto, em caravanas e comícios.


    No entanto, a partir dos meus vinte e poucos anos comecei a ir todos os anos à manifestação comemorativa do 25 de Abril na Avenida da Liberdade.

    (...)
    A cada ano havia menos gente a partilhar os meus valores fundamentais, mesmo estando em campos ideológicos distintos. Todos os anos, na manifestação, se notava um maior sectarismo, cada vez era mais claro que aquilo se tinha transformado numa acção pública de saudade do período negro do PREC, em que uma minoria destruiu o nosso sector produtivo e quase conseguiu impor uma nova ditadura.

    Eram as minhas próprias razões, as minhas memórias, que me arrastavam para a Avenida todos os anos até que, cobardemente, desisti, e deixei aqueles que não mereciam a tomar conta da minha, da nossa, manifestação.
    (...)

    Amanhã, gostava de regressar à Avenida da Liberdade. De levar os meus filhos e com eles me sentir próximo de gente - estarão poucos ou nenhum - que ainda se lembra dos verdadeiros valores de Abril. Sobretudo da tal sensação de tudo ser possível, de sermos capazes, do futuro ser nosso. Não me lembro doutra ocasião, em trinta e sete anos, em que fosse tão necessário relembrarmos o que sentimos no dia 25 de Abril de 1974.

    Hoje é dia 24 de Abril, amanhã é 25. É tempo de acordar.
    » (Pedro Marques Lopes)