quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aprender com os erros

Não sei se fui claro. Há quem só conceba dois extremos na política externa: ou o total cinismo, com afáveis relações diplomáticas e económicas com todas as ditaduras (Líbia, Angola, Arábia Saudita, Coreia do Norte, Afeganistão dos talibã, etc); ou a ética humanitária, com cortes de relações, se necessário unilaterais, com os regimes mais execrandos, no limite os que ainda apliquem a pena de morte. Ora, entre os dois extremos há muito espaço de manobra. Se era dificilmente evitável que Portugal mantivesse, à semelhança de outras democracias europeias, laços económicos com a Líbia, país relativamente próximo e detentor de matérias primas apetecíveis, já não havia necessidade de celebrar o 41º (!) aniversário da ditadura, e de tirar fotografias amistosas na tenda do senhor Kadhafi. Há a real politik, e há o esticar-se muito mais do que o necessário. Mas, embora daí se devam tirar lições para o futuro, tudo isso está feito.

Pior, muito pior, é no meio da presente crise o senhor Sócrates manter-se calado sobre o massacre que está a acontecer na Líbia, enquanto os estadistas europeus emendam erros pretéritos e isolam internacionalmente o regime que controla Tripoli e arredores. Cameron admite que se cometeram erros, Merkel e Sarkozy apelam a sanções, e a política externa portuguesa aparece liderada pelo eterno Amado, que dispara contra a «ligeireza e os clichés» de quem fala em «Direitos Humanos e democracia», e nos transforma, de facto, no último bastião europeu do kadafismo. Neste momento, já nem se trata de privilegiar os interesses sobre os valores, já é pura estupidez: o mundo árabe está a mudar rapidamente, e só mesmo um certo indivíduo chamado Luís Amado é que ainda não o entendeu.