sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Futuro aberto no Egipto

Apesar de vários sinais, ninguém tinha previsto que o povo egípcio ia conseguir provocar a queda do regime corrupto, violento e cleptocrata de Hosni Mubarak em 18 dias. 18 dias. O povo egípcio está de parabéns. Demonstrou uma dignidade e coragem moral surpreendentes.
No entanto, na Europa e nos Estados Unidos, em vez de celebrarmos a coragem dum povo, preocupamo-nos com o perigo islâmico no Egipto e no resto do Médio-Oriente. O subtexto destas análises – feitas na maior parte das vezes por pessoas que não conhecem a região e que de uma maneira geral não acreditam em mudança - é a de que a liberdade e a democracia não são valores que os « fanáticos do Médio Oriente » possam compreender.
Esta é a propaganda diária que sai de Tel Aviv, e foi com esta mesma propaganda que Mubarak obteve até agora todos os anos dois mil milhões de dólares do contribuinte norte-americano.
Nesta altura é saudável lembrar as previsões de Washington e do seu Richelieu na altura do 25 de Abril em Portugal. Henry Kissinger, conselheiro de Nixon, estava convencido que Portugal ia tornar-se num estado cliente de Moscovo com quotas pagas ao Pacto de Varsóvia. Quanto ao Dr. Mário Soares e às suas aspirações democráticas, ora que as arrumasse, pois ele era « o Kerensky da revolução portuguesa », disse na altura o Cardeal Richelieu de Washington.
Hoje ninguém sabe o que vai acontecer ao Egipto. Construir uma democracia requer tempo, muitos recursos, paciência e sorte, muita sorte. O cenário de um Egipto controlado pela Irmandade Muçulmana é o delírio vendido por Tel Aviv (que tem muitas razões para estar preocupado; Mubarak era o seu único aliado na região) e pelos think-tanks neo-conservadores de Washington. Os especialistas que conhecem bem o Egipto dizem que esse cenário é altamente improvável: a Irmandade conta com apenas 15% de apoio do eleitorado e teve um papel muito discreto nos protestos. A população egípcia é diversa, jovem e bastante secularizada. Além disso, como dizia ontem Timothy Garton Ash, « O Cairo de 2011 não é Teerão em 1979. O Cairo de 2011 é o Cairo de 2011 ». Os supostos paralelos da história não servem para nada, pois a história não se repete. Cada revolução é única.
O futuro do Egipto está aberto. Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã ou nas semanas que se seguem. Os pessimistas prevêem a instauração de regimes islamistas na região. Esse é um cenário possível. Mas outro cenário provável é a de um golpe militar com um regime de generais « à la turque ». E igualmente possível é o de criação de estruturas políticas multipartidárias eleitas democraticamente e sustentadas pelo estado de direito.
Confesso a minha ignorância sobre o Egipto, mas acho que nesta altura o seu futuro está aberto. Penso também que em noites como as de hoje devemos dar o tal salto no escuro e partilhar das aspirações dos homens e mulheres comuns do Egipto que nos últimos 18 dias perderam o medo e se atreveram a sonhar com uma vida melhor.