terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O PCP e o Mali

Não há qualquer necessidade de tomar posição sobre todas as guerras do mundo, nem mesmo para um partido político. Começa portanto por ser estranha esta obsessão do PCP de tomar posição até sobre a guerra no Mali. Ou melhor: sobre a «intervenção militar estrangeira no Mali». Porque, curiosamente, o PCP nada diz nos seus comunicados sobre o islamismo, o seu papel na opressão dos malianos, em particular das mulheres e dos que não querem seguir a sua interpretação estrita do Islão. Não: o que interessa aos comunistas portugueses é que a França interveio no Mali; que o tenha feito contra um grupo islamofascista é irrelevante.

Alguma esquerda radical (não exclusivamente o PCP) afunda-se nesta total desorientação geoestratégica desde o final da guerra fria. Há mais de 20 anos que continuam a opor-se «pavlovianamente» a tudo o que se opunham antes (à OTAN, aos EUA...) e usando uma linguagem datada em que os protagonistas são sempre as «potências imperialistas», motivadas por desejos de «domínio neocolonial» e pelo interesse em «controlar e explorar os abundantes recursos naturais». O islamismo é sempre um mero «pretexto» e até um «resultado concreto da estratégia imperialista de instigação de conflitos sectários, religiosos e étnicos» (sic).

E no entanto, o actual movimento islamista internacional «resulta» mais da Arábia Saudita e das petromonarquias do Golfo do que dos EUA e da Europa. Tem uma ideologia própria, muitíssimo mais reaccionária e prejudicial aos indivíduos do norte do Mali do que a democracia de tipo europeu. O PCP, aparentemente, não quer saber disso.