domingo, 29 de agosto de 2010

César e "o progresso" ou a história de um "meme"

Em Fevereiro ou Março passados o Prof. Dr. César das Neves, lente da Universidade Católica, escreveu (?!) um artigo no Diário de Notícias sobre um livro que ele classificou como "polémico", alegadamente escrito por um prof. Andrew Oitke, "catedrático de antropologia em Harvard" e intitulado "Mental Obesity". Segundo o Prof. César das Neves este livro "revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral".

O texto de César das Neves já não está online, mas reverberou pela internet, como se pode ver aqui, aqui, ou aqui, por exemplo.

O artigo é uma crítica patética e infantil a um mundo supostamente "atafulhado" de informação: "a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada." Segundo César das Neves "Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo."

Em Julho o Blog Diário de um Sociólogo levantou a questão de o livro ser impossível de encontrar.

Ontem um amigo mandou-me o artigo e eu verifiquei, com uma simples busca no Google que não existe nenhum prof. Andrew Oitke no departamento de antropologia de Harvard e não consegui encontrar este livro em nenhum dos catálogos de livros online, incluindo o WorldCat. Nem encontrei nenhum artigo com este autor nas bases de dados de artigos nas "Humanidades", nem nas Ciências Socias".

Não sei se o livro e o autor existem ou não, mas parece-me que um livro que "revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral" devia aparecer nas bases de dados universitárias. Não creio que o Dr. César das Neves tenha inventado o famoso "catedrático de Harvard": numa busca rápida pela internet encontrei duas referências a este misterioso livro, sempre em segunda mão, aqui e aqui, a última datada de 2007.

Julgo que não vale a pena perder aqui muito tempo com a possibilidade de o livro ter sido inventado. A ironia, básica mas divertida, do autor de um artigo sobre falta de rigor citar um livro que não existe perde-se no universo de "estereótipos, juízos apressados, ensinamentos tacanhos e condenações precipitadas" publicados regularmente por César das Neves. O que importa aqui é esta ideia de que a informação é uma coisa má ou, pior, de que uma sociedade com menos informação faria melhores juízos ou teria ideias mais precisas.

Até há poucos anos, nunca soube se os idiotas que acham que o mundo está decadente são mais irritantes do que os idiotas que acham que tudo o que é novo é bom (lembram-se de Fukuyama?). O Fernando Pessoa escreveu aliás um texto delicioso sobre este assunto (O Provincianismo Português). Mas quando leio um texto tão completamente idiota como este, a criticar o progresso no mundo da informação, e depois o vejo repetido entre Portugal e o Brasil dúzias de vezes, por pacóvios sem qualquer sentido crítico, exactamente por causa do progresso no mundo da informação, vejo-me obrigado a concluir que os "campónios" de Fernando Pessoa são muito mais perigosos que os "provincianos". Esta forma de reaccionarismo absurdo levou a Igreja Católica instituir o Index e a decretar que a anestesia epidural era um pecado porque as mulheres deveriam sofrer dores de parto para expiarem o pecado da Eva.

O texto de César das Neves é mais que idiota: é criminosamente estúpido porque argumenta que é melhor um mundo em que os algarvios da serra nunca tinham visto o mar, do que um mundo em que "todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto".

Esta atitude perante o devir histórico é a mesma dos que decretaram que a música de Arnold Shoenberg era decadente, que o jazz era uma música de degenerados, e dos que condenaram a arte do século XX por inteiro, indo ao ponto de mandarem picar os frescos de Almada Negreiros.

Hoje Portugal está muito longe desse mundo, em grande parte graças à liberdade e ao ao progresso no mundo da informação, e Almada não teria de escrever no seu Manifesto: "…uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, morra! Pim!".

A mesma liberdade de circulação de informação que permitiu que o seu texto se difundisse pelo mundo lusófono faz com que César das Neves não represente senão uma pequena e triste franja da sociedade.