terça-feira, 5 de março de 2013

Lutar os ricos em vez de lutar a pobreza

O que será que move tanta gente que gasta mais energia em criticar os salários altos, a queixar-se dos futebolistas e a festejar o referendo na Suíça sobre os limites aos salários*, do que a lutar contra o pobreza.
Não me escandaliza que alguém ganhe um milhão de euros ao mês, escandaliza-me sim que haja famílias inteiras que não recebam sequer o salário mínimo, que o RSI seja tão baixo, que haja serviços sociais fundamentais que ainda não estejam disponíveis para todos.
E não. Um não é o reverso da medalha do outro. Acho que até aí, todos sabem um pouco de economia.

*muitos que celebram o resultado na Suíça, assumem que está em causa um limite aos salários impostos legalmente (e alguma imprensa deu a entender isso). Está apenas em causa o poder dos acionistas em termos de controlo de salários dos gestores. Quanto a isso, não poderia concordar mais.

17 comentários :

  1. Se considerares que lidas com recursos finitos então sim, um é o reverso da medalha do outro. Escrevi sobre isso em

    http://esquerda-republicana.blogspot.pt/2010/08/se-os-recursos-fossem-ilimitados-nao.html

    Portanto é possível que eu não saiba nada de economia, como aliás admito no texto que acabei de publicar. Nem há grande problema nisso porque a economia, ao contrário da lei da gravidade, é uma construção social.

    Essa história de que o socialismo visa distribuir igualmente a pobreza vem pelo menos do Churchill. E daí?

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    1. 1. Imagina que Lisboa é bombardeada. Há um custo económico óbvio. Onde foram parar os benefícios equivalentes, o outro lado da moeda?

      2. Há uma aldeia cujos solos só dão para frutas e vegetais. Do outro lado do rio, há uma aldeia cujos solos só dão para cereais. Constrói-se uma ponte, e as duas aldeias passam a trocar os produtos, com óbvios benefícios para ambas. Onde estão os custos equivalentes, o outro lado da moeda?


      E não percebi a referência à palermice do churchill, mas provavelmente nem era para ser entendida.

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    2. Epá, não percebo, a sério, o que as comparações têm a ver com o que dizes.

      Se a ideia é fazeres-me ver que existem sempre custos ou benefícios equivalentes, não foi isso que eu disse.

      (Já agora, pegando no teu exemplo 2 e numa nossa discussão antiga: eu julgava que eras o gajo totalmente contra as pontes...)

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    3. Tu afirmaste que o que um perde, é o que o outro ganha. Em economês, que a economia é um "jogo de soma zero".

      Eu dei-te um exemplo de um enorme custo, onde eu não vejo grandes benefícios. E um exemplo de um enorme benefício, onde não vejo grande custo. E por isso pergunto-te: manténs a tua ideia das perdas serem iguais aos ganhos?

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    4. Miguel, os salários dos administradores (da Suíça ou de outro país) são um jogo de soma zero, ou não? O que ganham os administradores perdem os trabalhadores. Mantenho essa ideia pelo menos relativamente aos salários dentro de uma dada empresa.

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    5. Se fosse a única empresa no mundo, seria um jogo de soma zero (e mesmo aí.. não é bem).
      Ou se olhasses para o último dia do mês, num mês isolado (em que ninguém entra ou sai da empresa, em que a empresa não altera a estratégia), seria um jogo de soma zero.
      No mundo real, não é.

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    6. Miguel, quando estão envolvidos recursos naturais toda a economia relacionada com a sua exploração deveria ser um jogo de soma zero (esta é uma opinião ideológica minha, discutível certamente). Não tem nada a ver com o que está em causa neste post.

      Mesmo assim, os salários de uma empresa são pagos no último dia do mês (pode ser essa a nossa definição de último dia - simplifiquemos, ok?). Uma empresa pode criar riqueza, e aí a soma não tem, e desejavelmente não deve, ser nula. Mas quando é para decidir as remunerações no último dia do mês estás a repartir um bolo. Parece-me evidente que a soma é nula - é um recurso finito. O objetivo desta medida é que não haja uma grande desigualdade entre os salários dos administradores e dos empregados -o capital e o trabalho. Talvez pudesse ser implementada de outra maneira, mas na prática o objetivo é esse. E parece-me correto.

      Já agora, o que pensas da existência do salário mínimo? É que a lógica desta medida parece-me ser a mesma do salário mínimo, mas invertida. A tua lógica também invertida (supondo uma situação de crise e não de abundância) e aplicada contra o salário mínimo. É isso que defendes?

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    7. A lógica da defesa do salário mínimo não é nada a mesma lógica de obstar a um salário máximo.

      No primeiro caso estamos a falar de impor um "cartel" na mão de obra pouco qualificada (ou de alguma forma demasiado abundante). Os interesses da mão de obra são defendidos à custa dos interesses dos empregadores. Não é um jogo de soma nula porque o dinheiro que os empregadores perdem é MAIOR do que o dinheiro que os empregados ganham com essa limitação. Mas, como os empregadores têm muito e tais empregados têm pouco, é fácil argumentar que a utilidade que os empregados ganham é bem maior que a utilidade que os empregadores perdem (também na questão da utilidade, não é um jogo de soma nula).

      Limitar os salários altos seria um cartel mas do lado oposto, do lado do... empregador.
      A menos que o empregador seja o estado, é complicado dizer que os empregadores devem ser defendidos da mão de obra supostamente muito qualificada da qual querem usufruir. Pela lógica que leva à defesa do salário mínimo, impedir salários elevados seria querer proteger a burguesia...


      Posto isto, acredito que existe algo de pernicioso em muitos destes salários demasiados elevados. Nesse caso temos o efeito "todos se levantam". Num espectáculo musical num parque, se todos estiverem sentados no chão, todos vêm razoavelmente o palco. Se os da segunda fila se levantam para verem ainda melhor, os da terceira têm de se levantar e por aí fora. No fim, toda a gente está de pé, e os benefícios em termos de visionamento são marginais. O mesmo acontece com as empresas que querem contratar "o melhor gestor" (na sua perspectiva): têm de oferecer mais que as outras. Se todas pagarem 10x mais aos gestores de topo do que aquilo que pagam ao empregado médio, a sua gestão não é pior do que se todas pagarem 400x mais. Mas a primeira que comece a pagar mais faz com que as outras também paguem mais e por aí fora. Antes os sindicatos tinham força e havia uma noção de "pudor" que evitava tais discrepâncias sem grande benefício social. Há medida que os sindicatos perderam força, tal "pudor" desapareceu, e cada vez as negociações foram mais desiguais.
      Aqui o ideal seria que as limitações não surgissem por força da lei, mas sim da capacidade negocial dos sindicatos, que também permitiria salários melhores para os seus membros. Mas a lei pode não ser uma má resposta, dependendo de como põe em causa as liberdades individuais.

      Até porque esta classe de "super-gestores" também está a usar os seus recursos para subverter a Democracia - nos EUA isso pode ser observado com maior clareza. Está aqui uma verdadeira ameaça.

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    8. «A lógica da defesa do salário mínimo não é nada a mesma lógica de obstar a um salário máximo.»

      Pois não, João Vasco. O que eu digo é que a lógica de obstar a um salário máximo é a mesma lógica de obstar a um salário mínimo.

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    9. Filipe, mas já percebeste que a economia não é uma soma zero?

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    10. Eu nunca disse que "a economia" era uma soma zero: estava a referir-me ao fundo disponível para pagar salários.

      Se queres continuares as perguntas: e o salário mínimo?

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  2. Já agora: presumo portanto que apoies os "reformados indignados" do Filipe Pinhal?

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    1. Não.. nem estou a ver a ligação.
      Aí estamos a falar do orçamento do estado que é um recurso finito. O que não vai para uns, vai para outros.

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  3. Miguel, partes do princípio de que o dinheiro dos «ricos» não tira nada aos pobres. Não será ingenuidade?

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    1. Ricardo,
      ao limitar o salário do banqueiro, esse dinheiro aparece imediatamente na carteira duma mãe solteira desempregada?
      Por falar em ingenuidade...

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    2. Não aparece imediatamente, mas pode ser reinvestido.

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    3. Miguel, eu não estou a falar em "mães solteiras desempregadas"! Quem falou nisso? Estou a falar nos trabalhadores, nos operários, nos proletários (já ouviste falar?) em contraponto aos patrões e "gestores". Podem ser casados e sem filhos.

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