terça-feira, 5 de março de 2013

A Economia, a Matemática e o Camilo Lourenço


Outro tema que muito deu que falar foi a célebre crónica de Camilo Lourenço sobre a “pouca importância dos historiadores para a economia”. Não vou estar aqui a defender à letra Lourenço, que considero que não passa de um aprendiz de Medina Carreira. Agora há um aspeto, sem dúvida relacionado com o que diz, e para o qual eu há muito venho alertando: a ignorância matemática em Portugal é socialmente aceitável, a um nível que considero (eu e muita gente) intolerável. Se temos um excesso de licenciados em humanidades, tal facto deve-se a uma opção tomada por muitos jovens no final do 9º ano: não estudar mais Matemática, custe o que custar. O que há a fazer para contrariar esta tendência, há muito o defendo, é generalizar o ensino obrigatório da Matemática até ao 12º ano, quaisquer que sejam as opções dos alunos. Pessoas com formação em humanidades como a Shyznogud repetem frequentemente que só esta formação garante um “espírito crítico”. Mas pode ter espírito crítico quem não for capaz de desenvolver um raciocínio abstrato? Eu tenho sérias reservas sobre o espírito crítico de alguém que não seja capaz de calcular uma derivada.

Notem que eu falo em “Matemática”: nunca falo em “importância para a economia”. Reconheço a importância de conhecimentos de Economia (eu mesmo sou o primeiro a lamentar não ter mais). Direi mais: fazem falta boas formações quer em Economia quer em Matemática para poder contrapor a propaganda liberal que inunda o comentário televisivo e a maior parte da opinião jornalística, e que se aproveita justamente da deficiente formação matemática da generalidade do público.

No entanto, até pela área em que trabalho (a Física fundamental) sou o último a defender critérios economicistas e de vistas curtas para decidirem uma formação. A História – lá está, sempre a História! – demonstra que a boa ciência acaba sempre por ter aplicações práticas “boas para a economia”. Se dependêssemos dos Camilos e dos Medinas desta vida, não haveria ciência nem História nenhumas! Dito isto – e voltando ao princípio – o país seria muito mais desenvolvido se houvesse uma melhor formação científica, principalmente em Matemática.

5 comentários :

  1. Completamente de acordo! Eu, que fui para Humanidades por achar que era a minha vocação, lamento ter deixado a Matemática pelo caminho. Já na altura senti que me ia fazer falta.

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  2. Essa necessidade devia estender-se ao Ensino Superior. Acho lamentável que os cursos científicos e técnicos não tenham sequer uma migalha de Humanidades...

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  3. Está por demonstrar - ou pelo menos eu não conheço nenhum estudo credível que o demonstre - que Portugal tem excesso de licenciados em humanidades, ou em que área for. Apesar dos notáveis progressos dos últimos 40 anos, Portugal tem falta de licenciados em todas as áreas.

    Por outro lado, o culto da tecnologia que actualmente se vive, tem tido como consequência o facto das faculdades com cursos de humanidades estarem cada vez mais às moscas. O "ir para letras para fugir à matemática" é um fenómeno do passado, muito anos 90, quando ser ensino ainda era uma saida profissional aliciante para os licenciados em letras e a sociedade da informação ainda não tinha transformado toda a gente em aspirante a empreendedor da área das tecnologias, a la Mark Zuckerberg.

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    1. Um excelente comentário a um excelente artigo.
      Assim dá gosto ler!

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