quinta-feira, 19 de julho de 2012

O elefante é um mosquito


Ponto prévio: estou na oposição a este governo desde o primeiro minuto, mas não concordo com tudo o que é dito e feito para que a presente situação política termine o mais depressa possível. Penso mesmo que as declarações de Januário Ferreira são tão excessivas que se viram contra a própria oposição (por exemplo, falar em «gangues» e acusar o governo de «profundamente corrupto», sem provas e sem sequer fundamentar com suspeitas concretas, é de tal modo populista e irresponsável que deveria envergonhar alguns que normalmente não aplaudem conversa de taxista).

Ponto principal: não entendo a importância que se dá ao homem. Compreendo que quem é católico ou, não o sendo, reconheça especial autoridade «moral» à ICAR, o ouça, se regozije ou escandalize. Os outros,  espanta-me que dêem tanta relevância a quem apenas cabe o papel, na judiciosa distribuição de serviço da ICAR portuguesa, de ser o bispo que fala «para a esquerda». E que exagera nessa função ao ponto de se comportar como um inimputável.

Ponto de ordem: se lhe tirassem a farda e a designação de bispo, seria ignorado e retirado do palco mediático. Tem, evidentemente e como todos os cidadãos, direito à liberdade de expressão e opinião: os sacerdotes também são cidadãos da República. Mas, cá na minha, continuo a achar que se a ICAR (ou outra comunidade religiosa) existe por razões de ordem «espiritual», usar o poder (fáctico) adquirido nesse âmbito para pressões políticas é sempre um abuso e, portanto, pouco ético. E algumas das suas declarações das últimas semanas seriam ilegais se pronunciadas em período eleitoral, como provavelmente o foram declarações de padres e bispos que tentaram condicionar o voto nos referendos sobre a IVG, ou quando se suspeitava que o próximo parlamento votaria o casamento entre homossexuais.

Ponto final: o jogo de espelhos que Januário Ferreira proporciona, com a «esquerda» a defender um bispo e a «direita» a mandá-lo calar, deve diverti-lo muito. A mim também. Mas quero deixar escrito que seria coerente que aqueles que não tratam por «Dom» o António Marcelino ou o José Policarpo não o fizessem com o Januário Ferreira. É que é ridículo...
Sim, já sei que vou apanhar pedradas dos dois lados...