Encontrei no Glória Fácil uma entrevista da Esther Mucznick absolutamente incrível. A entrevista é muito boa, mas as oscilações de Mucznick entre assumir o judaísmo como religião, «racializá-lo» ou subsumi-lo no vínculo político a Israel, tornam a entrevista algo alucinante. A esse respeito, uma passagem eloquente (entre muitas...) é esta:
- «(...) ser judia é essa complexidade de relações, não se define só pela religião. Se fizesse um inquérito encontraria quem lhe dissesse que é ateu e judeu... NM- E um judeu católico, é concebível? EM- Não, porque opta por outra religião. NM- Ser ateu também é uma opção religiosa. EM- É completamente diferente. Optar pelo ateísmo não é optar por outra religião. Do ponto de vista da lei judaica, é judeu quem é filho de mãe judia...»
Portanto, quem for judeu e quiser passar a ser ateu tem que fingir primeiro que se converte a uma religião qualquer. Mesmo assim, talvez o continuem a considerar judeu por uma questão de «linhagem». Para complicar ainda mais, como há judeus etíopes e até, ao que consta, chineses e butaneses, a linhagem não é genotipicamente uniforme: é-se judeu por causa da opção espiritual da avózinha, e não se pode escolher abandoná-la. É uma opção espiritual transmitida geneticamente que dá direito a ser cidadão de um Estado do Médio Oriente. Mas o mais incrível é isto:
- «É um Estado laico no sentido em que não há uma religião oficial, cada um escolhe a religião que bem entende.»
A afirmação é incoerente quer com a declaração de independência («Israel é um Estado judeu») quer com as palavras da própria Mucznick:
- «Ao abrigo da Lei do Retorno, de 1952, todo o judeu — entendido como filho de mãe judia — pode adquirir a nacionalidade israelita. E houve vários padres católicos, filhos de mãe judia, que requereram a nacionalidade ao abrigo dessa lei. Aí os tribunais israelitas acrescentaram a condição de não conversão a outra religião.»
Portanto, no conceito de laicidade de Esther Mucznick inclui-se um Estado que decide a nacionalidade por critérios de religião. E onde o Estado não reconhece casamento civil. Se eu tivesse alma, ela estaria parva.