sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Kopimism, a nova Religião sueca

Anda por aí um burburinho mediático sobre a nova Religião (e falo em termos de reconhecimento legal) sueca, o Kopimism, cujo objecto de culto central é a partilha de ficheiros online. A imprensa trata esta Religião num tom jocoso ou de desprezo; a BBC News, por exemplo, usa aspas na palavra "religião" e "igreja" no seu título.
Dado o processo histórico de criação de muitas outras religiões, não entendo a razão pela qual esta há de receber mais ou menos aspas que as outras.


Rick Santorum

Os americanos adoram insultos, acusações obscenas e declarações odiosas, e muitos fazem carreira a dizer enormidades. A televisão americana é um esgoto e os comentadores são todos, sem excepção, personagens repugnantes, que ganham muitos milhões de dólares por ano a incitar os americanos ao ódio com distorções e mentiras.

Como são multimilionários, todos os jornalistas e comentadores são de direita e fazem campanha pelo partido republicano. Mas como vivem nas cidades, trabalham pouco e passam a vida em festas, têm todos amigos homossexuais e odeiam e desprezam a homofobia histérica dos republicanos do campo.

Acontece que Rick Santorum, um dos talibans do partido republicano que fez carreira com declarações incendiárias contra "os homossexuais" está agora em segundo lugar na campanha deles e aparece na televisão a toda a hora.

Há uns anos, em 2003, na sequência de declarações insultuosas feitas pelo senhor Santorum contra "os homossexuais" um comentador da telefonia fez uma campanha a pedir para a América criar um neologismo com a palavra santorum. Ganhou esta: "The frothy mixture of lube and fecal matter that is sometimes the by-product of anal sex". Na internet é a primeira coisa que aparece quando se escreve "santorum".

Com Santorum no centro das atenções, os jornalistas TODOS (menos os da FOX) passaram a semana a inventar as expressões mais divertidas para aludirem ao "Google problem" de Santorum. Ninguém fala dele sem meter as palavras "back" ou "bottom" e hoje num mapa político os condados que votaram nele vinham pintados de castanho: "brown for Santorum", dizia o jornalista com um sorrisinho mal escondido.

Pode ser pouco profissional, mas é muito divertido.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O que é que eu posso fazer pelo meu país?



Esta entrevista de Alexandre Soares dos Santos é um festival de grandes lições de moralismo que se resume nesta frase:
"...temos que olhar para nós e perguntar o que é que eu posso fazer pelo meu país".

Mas há outras muito boas:
- "Há toda uma maneira de estar na sociedade que tem que mudar", sem dúvida diria eu;
- Soares dos Santos queixa-se que "o Estado tem que pagar tudo, não se pode tocar no serviço nacional de saúde". Foi com este sistema tão perverso e universal que a taxa de mortalidade infantil em 30 anos passou do terceiro-mundismo para um valor melhor que os EUA, onde vigora a filosofia de Soares dos Santos;
- Propõe "reguladores [da iniciativa privada] não nomeados por partidos políticos (...) um sistema [de regulação] com gente, imparcial, competente e conhecedora". Ora um sistema de reguladores não nomeados pelos eleitos e conhecedores, que tal os regulados regularem-se a si próprios? Ou numa versão imparcial, pagos pelos regulados, assim tipo a relação imparcial entre a Arthur Andersen e a ENRON;
- "O país tem que ser mais eficiente, tem que trabalhar mais horas". Errado! Para o país ser mais eficiente tem que trabalhar melhor por unidade horária. Tsk, tsk, isto dá chumbo na escola secundária.
Aqui para aderir ao movimento Boicote ao Pingo Doce.

PS- As "entrevistas" de José Gomes Ferreira têm muito que se lhe diga, lá iremos um destes dias.

Revista de blogues (5/1/2012)

  • «Vai para aí um alarido de monta à volta de Soares dos Santos, accionista maioritário do Pingo Doce, por ter sediado a propriedade das suas acções na Holanda. É uma decisão de boa gestão de um grupo económico, já que a legislação comunitária o permite. Aliás, 17 empresas do PSI-20 já anteriormente tinham tomado tal decisão sem que tamanho burburinho se levantasse. A dimensão da indignação (o que revela muitas indignações submersas à espera de factos e ocasiões que as tragam à superfície) tem a ver mais com Soares do Santos, do que com a decisão que tomou. O accionista principal do Pingo Doce passou, pelo menos, o último ano de vida do anterior governo, em repetidas aparições televisivas, a assumir uma postura política oposicionista, mais do que empresarial, pretendendo representar o «interesse nacional», exigindo sacrifícios a todos a torto e a direito, e a pedir que se metesse os madraços na ordem. Ao fugir desta maneira, revelou o seu carácter e a sua indisponibilidade para fazer os sacrifícios que os outros – os trabalhadores dependentes – têm de fazer. Perdeu a face – esta é a principal origem da justa indignação que por aí explodiu. Foi o «julgamento» de alguém que andou a assumir-se publicamente mais como político, do que como empresário.
    Como os cidadãos, em democracia, podem reagir colectiva ou isoladamente, cá por mim, Pingo Doce NUNCA MAIS|» (Tomás Vasques)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Novos bárbaros

Os cidadãos esperam da República que lhes garanta o ensino, a saúde, o acesso à cultura e o apoio na pobreza ou na velhice. Tudo dispendioso, mas não luxuoso: são esses serviços públicos que nos separam da barbárie social.

Não precisam os cidadãos que o Estado registe as suas conversas telefónicas, as escute, os vigie na rua, os fiche ou os torture. Todavia, existem serviços do governo, o SIS e o SIED, dedicados a essas práticas bárbaras e inquisitoriais. Seria uma piada de mau gosto qualificá-los de «serviços públicos».

A semana passada, um candidato ao respectivo Conselho de Fiscalização declarou aos deputados, caso único, «aceitar» a violação da Constituição (concretamente do artigo que garante o sigilo da correspondência). Os deputados, que estranhamente se esqueceram de lhe perguntar se aceitaria que o escutassem a ele, à família e aos amigos (ou aos próprios deputados), elegeram-no. Por maioria de dois terços, mas com a curiosa oposição de muitos deputados da maioria PSD-PS-CDS.

Ao cortar há dias alguma gordura desses serviços, Passos Coelho, ao que consta, puniu exactamente aqueles que divulgaram as infracções cometidas pelos colegas. É também caso único: um departamento do Estado em que denunciar crimes origina despromoção ou despedimento.

Sendo clara a deriva totalitária destes serviços e a sua impunidade, o melhor mesmo seria extingui-los.

A face de um traidor


Nuno Crato ganhou notoriedade e respeito públicos como divulgador da ciência. À data da sua nomeação para o governo, era o único ministro de quem tinha (alguma) expectativa positiva. Após decisões erradas que critiquei aqui, hoje chego à pior das notícias: o corte na Fundação para a Ciência e Tecnologia é de 39% em fundos. Muito pior do que o corte noutras áreas, menos relevantes para o futuro.


Confirma-se que Nuno Crato não é diferente dos outros ministros deste governo. E tem a agravante de estar a ligar o seu nome à inflexão no investimento em ciência. Um divulgador da ciência dos jornais revelou-se, no governo, uma espécie de ludita.

Alterações na Educação e Fiscalidade só com maioria de 2/3

Um dos argumentos que tem sido invocado para a deslocalização do Pingo Doce para a Holanda, tem sido a estabilidade da política fiscal. Independentemente da sua veracidade, é um facto que Portugal não é um exemplo em termos de estabilidade do quadro jurídico.
E isto tem um custo enorme para as empresas, seja em termos burocráticos (consultoria jurídica, alteração de procedimentos, software, etc.), como em dificuldade no planeamento de longo-prazo o que afecta as perspectivas de investimento. Por consequência, este zigue-zague tem um enorme custo para o país.
O mesmo se pode dizer da educação. A cada reforma há um custo e um longo período de adaptação, e não há depois capacidade de tirar conclusões sobre o resultado de cada reforma. O novo ministro, Nuno Crato, tem sido um exemplo especialmente mau nesta mania de fazer reformas a torto e direito "porque sim" mal entra um governo novo.
Por serem áreas sensíveis para o desenvolvimento, que são vítimas da veia reformistazinha (aquela que se foca mais na letra do que na prática), é essencial que haja estabilidade nesta matéria. Assim, deveria ser exigida uma maioria de 2/3 no parlamento para reformas substanciais nestas áreas, tal como já acontece em outras matérias sensíveis.

Adenda: O Daniel Oliveira faz uma crítica semelhante no caso da lei do tabaco. Depois de vários investimentos, é dito a donos de cafés e restaurantes para os deitarem fora.

Revista de imprensa (4/1/2012)

  • «Se o BE tiver razão, 19 das 20 empresas do PSI-20 estão localizadas para efeitos fiscais fora de Portugal. Virgínia Alves explicou bem, no DN de 3 de janeiro [ontem], como a família Soares dos Santos, detentora de 56% do grupo Pingo Doce, realizou, às claras, uma das maiores fugas ao fisco da história portuguesa. No penúltimo dia de 2011, fugiram para a Holanda 4,6 mil milhões de euros, o que ridiculariza o investimento chinês com a aquisição da parte que o Estado detinha na EDP. Recentemente, ficámos a saber que a própria CGD tinha interesses num paraíso fiscal situado nas Ilhas Caimão, num curioso jogo de masoquismo fiscal do Estado português. A Holanda, utilizando a anarquia fiscal europeia, vai recolhendo os dividendos de um esforço que não lhe pertence. A Alemanha, escudada na retórica luterana da sua chanceler, vai beneficiando do pânico que ela própria fomenta. Com efeito, uma das razões pelas quais o euro continua bastante forte reside no facto de a maioria dos capitais que fogem da Grécia, de Portugal, da Itália ou da Espanha não serem transformados em dólares, libras ou ienes, mas sim em euros que transitam da periferia em crise para bancos e fundos de investimento na Alemanha. (...)» (Viriato Soromenho Marques)