quarta-feira, 2 de junho de 2021

A deriva de direita na política monetária

Neste blogue tenho várias vezes afirmado que tem havido uma "deriva de direita", e até fiz uma previsão bem certeira, antecipando a popularidade do CHEGA anos antes desse partido sequer surgir no mapa. 

Mas é interessante olhar para essa deriva no contexto específico da política monetária. Teria talvez maior pertinência tê-lo feito há mais tempo, quando a inflação estava claramente abaixo do alvo (talvez estejamos a entrar num contexto onde a economia viverá o problema oposto). 

Mas recuemos uns anos, em plena crise de falta de procura agregada, juros perto de zero, e inflação abaixo do alvo. Perante este contexto, como deveria a sociedade responder no que concerne à política monetária?

Vamos colocar possíveis soluções para essa crise económica, da direita para a esquerda. Tentarei descrever cada uma fazendo um esforço para traduzir o ponto de vista de quem a defende como correcta:

1- Solução "austríaca". Ter a política monetária nas mãos de burocratas é um erro. Em vez de manter o sistema de reservas fractional e uma moeda "artificial", deveriam ser os mercados a ter o controlo total, pois são as distorções de mercado causadas por políticas monetárias desajustadas que estão a causar estes problemas. Deviam deixar de existir bancos centrais e os bancos em geral teriam de garantir os depósitos a 100%.

2- Subir os juros. Sim a inflação (Pi) está muito abaixo do alvo, mas ter juros tão perto de zero é inaceitável. A solução correcta seria subir os juros nominais (i). No longo prazo a inflação irá inevitavelmente subir até porque para os mesmos juros reais (r) temos a relação i=r+PI, e portanto aumentar os juros nominais i deverá causar uma subida da inflação Pi.

3- Manter os juros constantes (perto de zero). Sim, a inflação está muito abaixo do alvo, mas será que isso é mesmo mau? Os preços descerem não acaba por ser melhor para as pessoas, que assim ganham poder de compra? São de evitar intervenções do Banco Central pouco ortodoxas, de resultado incerto, que vão inevitavelmente criar distorções.

4- Quantitative Easing (QE). Já que não podemos baixar os juros, pelo menos podemos comprar activos no mercado secundário para conseguir que chegue maior quantidade de dinheiro à economia e fazer a inflação ficar mais perto do alvo. Isso tem a vantagem de estimular directamente o investimento (valoriza os activos, tornando o investimento mais apetecível, aumentando a liquidez dos investidores, etc.).

5- Dinheiro de Helicóptero. Se queremos que chegue dinheiro às pessoas para que a inflação fique mais perto do alvo, que tal dar dinheiro directamente às pessoas? Isso vai estimular a procura (num contexto em que está em falta) e indirectamente estimular o investimento (pois o investimento é mais rentável se existir procura para os produtos do que se não existir). O QE favorece as pessoas com mais património, esta solução é mais justa e provoca menos distorções.

6- Senhoriagem temporária. Se queremos que chegue dinheiro à economia, podemos financiar o investimento público sem aumentar a carga fiscal: basta criar dinheiro e dar directamente aos estados. O problema disto é causar inflação, mas se a inflação está abaixo do alvo isso não é um problema, é uma solução! Matam-se dois coelhos de uma só cajadada.

7 - Senhoriagem permanente. Faz pouco sentido ter os Bancos Centrais dirigidos por burocratas não eleitos. Numa sociedade democrática, a política monetária também deve ser controlada democraticamente e utilizada como mais uma ferramenta económica por parte dos poderes públicos. A criação de moeda pode ser uma fonte de financiamento público utilizada para financiar até o estado social ou outras políticas públicas. O alvo para a inflação não precisa de ser tão baixo, e é possível usar a política fiscal  para garantir que o alvo é atingido (baixar os impostos se a inflação estiver abaixo, subi-los se estiver acima). 

8- Solução anti-capitalista. Estas fantochadas todas não passam de "soluções" para salvar o capitalismo, mas esta crise mostra que o capitalismo é um sistema instável e insustentável. Em vez de usar políticas monetárias para sair da crise, devemos usar a crise para perceber que o capitalismo tem falhas estruturais e deve ser abandonado.

Faltarão outras, mas o texto já vai longo.

Na sequência da crise de 1929, onde a opção da Reserva Federal por uma política algures entre o 3 e o 2 conduziu a uma das maiores catástrofes económicas na História recente, o pensamento político e económico sobre este assunto mudou consideravelmente.

As opções "aceitáveis" sobre o que fazer em relação a este cenário hipotético passaram a estar algures entre o 7 e o 5. Na defesa da política 5 destaca-se Milton Friedman, uma das figuras mais à direita no panorama político e ideológico da altura. E assim foi durante algumas décadas. 

Mas, a partir dos anos 80, a "deriva de direita" no que concerne à política económica começou e não parou desde então. E, a determinada altura, na sequência da crise de 2008 e depois de 2011 o "cenário hipotético" tornou-se realidade. 

E o debate político sobre qual a política monetária adequada, onde se situou? Sabemo-lo: entre os pontos 3 e 4. A solução 5 não foi sequer contemplada como uma possibilidade realista, a não ser por algumas figuras mais à esquerda. Elas atreveram-se a propor algo que antes era defendido por Milton Friedman.

É de repetir: "centro" do debate político nesta matéria passou dos pontos 7 a 5 para os pontos 3 a 4. As soluções mais à direita entre as aceitáveis passaram a estar à esquerda das soluções mais à esquerda entre as aceitáveis. 

Assim vemos como nesta questão económica crucial - a própria "quantidade de dinheiro" em causa! - o debate "moderado" se desviou tanto. Uma ideia defendida pelas figuras mais à direita passou a ser considerada irrealista por estar tão à esquerda. 

3 comentários :

Entrar disse...

De fato, seu artigo foi muito bem explicado gostei de ler.
Tri legal resultado

Jaime Santos disse...

Dizer que certas soluções económicas se situam à Esquerda ou à Direita pode não ser inteiramente correto. Hitler recorreu a políticas keynesianas e isso não faz de Keynes um fascista (era um Par Liberal, que provavelmente teria torcido o nariz à expansão do Estado que ocorreu no pós-guerra, mas não viveu para ver isso).

George W. Bush também recorreu a soluções expansionistas (descida dos impostos e aumento do défice).

Melhor seria perguntar o que se quer promover com tais soluções. Normalmente, o conservadorismo fiscal é tido como uma posição mais à Direita porque implica cortes nas políticas sociais, mas o que dizer de um conservadorismo fiscal que reduza o défice pelo lado da receita, com o aumento de certos impostos (um pouco a solução utilizada por Mário Centeno)?

E será que uma espécie de 'keynesianismo militar' como defende Mariana Mortágua é apropriado para o nosso tempo? Em primeiro lugar, ele assume que um défice permanente é compensado por um crescimento económico robusto e igualmente permanente (uma espécie de Rainha Vermelha, que corre muito para ficar no mesmo lugar, o termo é dela, mas usado noutro contexto).

Ora, bem sabemos, de cada vez que há uma crise com quebra do PIB isso imediatamente expõe o País a um aumento de juros (sobretudo se não estiver escudado por uma moeda forte como o Euro). Em segundo lugar, um crescimento económico permanente choca com a protecção do meio ambiente (a Ecologia é uma doutrina conservadora, na verdade a única coerente, o conservadorismo tradicional procura apenas conservar e alargar os privilégios de uma classe)...

A crença no Progresso Material, comum à Direita Liberal e às Esquerda Social-Democrata e Marxista, pode revelar-se uma doutrina bem reaccionária na era da crise climática...

João Vasco disse...

Em primeiro lugar, o facto de alguns líderes de esquerda terem uma determinada política de direita ou alguns líderes de direita terem uma determinada política de esquerda não significa que essas soluções não sejam de esquerda ou de direita.

Pode-se discordar da ordenação que fiz das diferentes políticas monetárias no espectro direita-esquerda por alguma razão concreta; mas se o argumento for que em abstracto não se poderia fazer tal disposição, não poderia discordar mais.

Em segundo lugar, o tema do post era a política monetária, não era a política fiscal.

Em terceiro lugar, discordo que uma política de irresponsabilidade fiscal deva ser considerada à esquerda de uma política de responsabilidade fiscal. Isso é uma coisa muito portuguesa, porque, por alguma razão bizarra, todos os partidos de esquerda se apresentam como fiscalmente irresponsáveis. Mas agora com o aparecimento da IL, com propostas ainda mais fiscalmente irresponsáveis, pode ser que as pessoas deixem de associar isso à esquerda.
Quando saímos do panorama nacional, vemos que a associação entre esquerda e irresponsabilidade fiscal não faz sentido. Os estados sociais mais robustos do mundo estão associados a países com um historial de responsabilidade fiscal e nos EUA o Bush não foi nenhuma excepção: o padrão lá é que o partido mais à direita é o mais fiscalmente irresponsável, já é assim pelo menos desde o tempo do Reagan.

E isto nem tem nada a ver com as questões do crescimento ou decrescimento, a não ser na medida em que em ambos os casos está em causa uma questão de "sustentabilidade", num caso das finanças públicas, noutro caso do ambiente. Em ambos os casos está em causa a miopia de quem não vê os impactos futuros das decisões presentes.