terça-feira, 30 de abril de 2013

Neoliberalismo ou neo-esclavagismo?


Não é por acaso que um neoliberal ferrenho já pede a demissão imediata do Inspector Geral do Trabalho: defender a criminalização dos patrões que atrasam o pagamento dos salários é uma blasfémia contra o dogma da sacralidade do capital e contra a não menos intocável autoridade do santo patronato (*). Na doutrina neoliberal, o valor supremo é a «liberdade» do empresário de incumprir os contratos em que (livremente) se comprometeu, quiçá de não pagar o trabalho que comprou, no limite de praticar as ilegalidades que só afectem a remuneração dos trabalhadores. A obrigação de remunerar o indivíduo que trabalha é secundária face ao «fim» de «salvar» o colectivo («empresa»), e a obrigação dos assalariados é trabalhar, mesmo sem remuneração. Em tempos, chamou-se a isto esclavagismo. Hoje chamam-lhe «liberalismo» (estragando uma excelente palavra que tinha o sentido quase oposto).


(*) Comicamente, o colectivista pseudo-blasfemo cai em contradição em meia dúzia de linhas: começa por afirmar que a «tendência fascistóide de inventar crimes a torto e a direito (...) revela uma concepção totalitária do estado», para logo a seguir afirmar que a «incompetência» das «democracias estatistas de défices descontrolados» é «frequentemente criminosa» (e aqui, presume-se, não seria «inventar» um crime, muito menos «a torto e a direito»).