sexta-feira, 12 de abril de 2013

A democracia é uma coisa frágil



Há quase 15 anos exilado no Texas, é-me ainda difícil perceber o que leva os americanos a elegerem delinquentes e sociopatas como Reagan, Bush, ou Rick Perry, e continuarem a adulá-los ao mesmo tempo que perdem o emprego, a pensão de reforma e o seguro de saúde, que a indústria das prisões suborna os políticos para lhes prenderem os filhos, que a indústria do armamento os manda morrer pela indústria do petróleo em países cujos nomes eles não sabem nem pronunciar, e que os gangsters das finanças lhes gastam as poupanças em lamborghinis e jantares com prostitudas que levam dez mil dólares por hora. 

O que é que faz os americanos destruírem o bem estar que constroem e entregarem as poupanças e o poder de decidirem sobre o próprio futuro a gangsters e a sociopatas?

Não é fácil falar desta realidade.  Como Foucault explicou eloquentemente, todas as sociedades impõem uma série de regras que controlam, seleccionam, organizam e redistribuem as coisas ditas de forma a enfraquecer e domesticar o poder e o perigo das palavras.  As pessoas aceitam sem problemas que certas explicações da realidade sejam deixadas aos malucos e aos comediantes, indefesos e sujeitos à censura do poder (por exemplo, Herman José nunca se atreveu a dizer piadas sobre bispos ou generais).  Certas verdades não se podem dizer senão a brincar.  George McGovern disse dos artigos de Hunter S. Thompson compilados em Fear and Loathing: On the Campaign Trail '72: "not factual but accurate".  O mesmo se poderia dizer do texto de Sue Townsend sobre Margaret Thatcher: The Secret Diary of Margaret Hilda Roberts.  Não é factual, mas descreve com grande precisão a cabeça duma sociopata sem outras emoções que nojo e desprezo pelos pobres e os indefesos.  

A avalanche de textos laudatórios que se seguiu à morte de Thatcher fez-me pensar na fragilidade da democracia.  A maioria dos antropólogos acredita que os humanos, como a maioria dos primatas, têm tendência para seleccionar chefes (alpha males) que os protejam e guiem.  Nesse sentido a democracia é uma instituição anti-natural, que tenta nivelar os direitos, as liberdades e as garantias de todos os cidadãos.  Sabemos que as maiorias não se excitam facilmente com as ideias da liberdade e da dignidade individuais:  primeiro querem sentir-se protegidas e todos os políticos sabem que nada reforça a cola social como uma boa ameaça.  Umberto Eco escreveu um ensaio excelente sobre este assunto (Costruire il nemico).

Mas não é fácil explicar o que faz a América odiar Carter e Clinton, e adorar Reagan e os gangsters da família Bush.   Uma explicação óbvia é que a maioria não sabe nem percebe nada, não quer responsabilidades e não tem qualquer interesse em decidir sobre coisa nenhuma:  limita-se a repetir o que ouve na televisão.  E na América a televisão dos pobres e dos simples é a FOX News.  Como Goering explicou aos americanos, as pessoas nunca percebem nada:  "Why, of course, the people don't want war. Why would some poor slob on a farm want to risk his life in a war when the best that he can get out of it is to come back to his farm in one piece? Naturally, the common people don't want war; neither in Russia nor in England nor in America, nor for that matter in Germany. That is understood. (…) but (…) the people can always be brought to the bidding of the leaders. That is easy. All you have to do is tell them they are being attacked and denounce the pacifists for lack of patriotism and exposing the country to danger. It works the same way in any country."

Outra explicação possível é que os puritanos odeiam humanistas.  A América profunda não quer viver bem, não quer ter segurança social, não quer partilhar nada com ninguém, e por isso não quer aceitar nada de ninguém.  Culturalmente são descendentes dos colonos que povoaram o oeste bravio e exterminaram os nativos.  Adoram o campo e o isolamento, não percebem para que serve o governo ou o que é a sociedade, são extremamente orgulhosos da sua independência e só se sentem seguros com a casa cheia de armas.  E como calvinistas acham que o bem estar é um caminho certo para o pecado e a perdição da alma.  Por isso gastam tudo o que têm e preferem viver crivados de dívidas.  São as dificuldades que os acalmam, porque estão habituados a elas.  

O psicólogo Lloyd Demauze acredita nesta explicação.  Para ele certas sociedades associam o bem estar a sentimentos de culpa e insegurança insuportáveis.  Sobre a América de Reagan escreveu estas palavras sábias e proféticas:  "Therapists hear similar complaints daily. 'All my boyfriends treat me like dirt.' 'I keep running into bosses who do nothing but fight with me.' 'Every career I've tried is boring.' 'None of the women I meet want to get close.' Faced with such repetitive life patterns, one of the hardest tasks of the therapist is to point out to the patient that their major complaint is also their major complaint is also their major wish-that they unconsciously choose unfaithful wives and caring boyfriends or hostile bosses in order to avoid the anxiety around in themselves if they were to enjoy their families, love lives or work too much.
                Imagine, then, how difficult it becomes to analyze a nation's psyche. imagine uncle Sam on the couch, describing what he believes to be his main problem: 'I seem unable to enjoy a really sustained success at anything. I keep getting into periods of depression during which I lose much of what I've worked so hard to gain. Why, in this century alone, I've gone through twelve major cycles of boom and bust, and I seem condemned to repeat the pattern endlessly. And to top it all off, just as things seem to be looking up, I get involved in a war that puts me even more behind, so that I'm now over a trillion dollars in debt. How can I stop my bad luck?'" (Reagan's America.  NY: Creative Roots, 1984, p. 51).

Estas são as pessoas que querem dar a Thatcher nomes de ruas e que dizem que Reagan "derrotou o império soviético"...  e se estas pessoas são a maioria, em democracia têm o direito de serem representadas e fazer valer a sua vontade.

4 comentários :

  1. "Mas não é fácil explicar o que faz a América odiar Carter e Clinton, e adorar Reagan e os gangsters da família Bush. "

    Da ultima vez que olhei, Clinton ganhou as eleições presidenciais todas a que concorreu, enquanto Bush 41 perdeu uma; quanto a Bush 43, uma das que ganhou foi graças a um sistema eleitoral esquisito (e tudo o que tenho lido é no sentido de atualmente ser bastante impopular, ao ponto de os republicanos conservadores agora adorarem dizer que as suas politicas não eram o "verdadeiro conservadorismo").

    O FC tem a certeza que, quando escreve "a América", não queria escrever "o Texas"?

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    1. O Texas é pior do que as duas costas, leste e oeste, mas o Reagan ainda é um presidente adorado e a família Bush tem uma imagem excelente na América, em parte porque o Bush 41 não foi reeleito.

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  2. "A Paixão do Poder" de José Antonio Marina (Esp.), não sendo uma obra apaixonante... trata esta questão da lógica da submissão voluntária perante o poder com algum desenvolvimento. Creio que é uma questão central para quem quer agir sobre a realidade política, este esforço para compreender a realidade social e os seus paradoxos.
    Os melhores cumprimentos.
    amp

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