quinta-feira, 30 de abril de 2009

Eric Hobsbawm: «O socialismo fracassou, o capitalismo faliu: o que vem a seguir?»

Eric Hobsbawm, um dos historiadores que mais admiro, continua lúcido aos 91 anos:
  • «Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias -, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.

    Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930.
  • (...)
  • ###
  • A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda.

    Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais. Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.
  • (...)
  • No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.
  • (...)
  • A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa – ou deveria significar – iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada. Decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.» (Na Carta Maior, via Cinco Dias.)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Specter

Ontem o senador Specter passou-se para o partido democrata e tornou a maioria relativa, de 59 senadores, em maioria absoluta, logo que Al Franken tome o lugar para o qual foi eleito. Coleman, o candidato republicano derrotado está a tentar atrasar a tomada de posse de Franken com artifícios legais, mas todos sabemos que Fraken ganhou as eleições no Minnesota.

O que é engraçado constatar é que de pois de 8 anos Bush 10% dos cristãos americanos abandonaram o cristianismo e hoje só 21% dos americanos é que se reconhecem no coito de aldrabões, de criminosos e de extremistas religiosos, em que o partido republucano se tornou.

Como escrevia outro dia um colunista, a força da extrema-direita no partido republicano vem do facto de nos últimos 30 anos os candidatos extremistas (Reagan e W) terem sido eleitos para dois termos cada um e os candidatos moderados terem perdido as eleições (Bush Sr., Dole e McCain). Ou seja, como os 25 a 30 milhões de evangélicos são quorum suficiente para eleger um presidente, fazia sentido que eles tomassem o partido de assalto.

Mas W foi um desastre que eles não saberiam prever (com Deus do lado deles, o que é que poderia correr mal?)

O excesso de confiança que os levou a repetir "nós fazemos a nossa própria realidade" conduziu o país a um abismo sem paralelo desde a guerra do Vietnam e agora ninguém quer ouvir falar do partido de Jesus. :o)

Obama: (quase) 100 dias

Ariana Huffington (mais outra jornalista que eu odeio), escreveu hoje um artigo equilibrado sobre os primeiros 98 dias da administração Obama.

Claro que depois de George W (o Santana Lopes dos EUA) os primeiros 100 dias da administração de José Sócrates teriam o mesmo doce sabor. Mas vale a pena ler o artigo (até porque é curto), que está dividido entre coisas boas e coisas más, das quais a pior é: "The bank bailout. In his appointments at almost every agency, Obama has demonstrated a desire to receive a wide range of opinion. But the exception is a doozy: at Treasury, the range of opinion goes all the way from Goldman to Sachs." :o)

Auto-Warriors

Com a crise mundial, além do desemprego ter aumentado, parte significativa dos trabalhadores que mantiveram os seus postos ficou numa situação de maior fragilidade nas negociações laborais, tendo várias empresas tirado partido dessa realidade. O the Onion fez mais uma excelente sátira relativa a este problema:


terça-feira, 28 de abril de 2009

Revista de blogues (28/4/2009)

  1. «Pegando na frase de Barack Obama a 16 de Abril, alegando ser falsa a escolha entre "a nossa segurança e os nossos ideias", e remetendo para o passado os métodos de interrogatório, baseados na tortura, Taylor sugere que existe evidência em favor da tese de que métodos brutais de interrogatório "podem ter salvo muitas vidas nos EUA, e a renúncia a esses métodos pode custar muitas mais". (...) Têm mesmo a certeza que fascismo nunca mais?» (O valor das ideias)
  2. «Na madrugada de 25 de Abril de 1974 iniciou-se um golpe militar, tendo como planos, entre outras coisas, manter a PIDE/DGS parcialmente em funcionamento, libertar só alguns dos presos políticos e entregar o poder a uma junta militar onde, em 7 elementos, 4 não andavam longe de ser de extrema-direita. Horas depois, começou uma revolução nas ruas de Lisboa (e no resto do país nos dias seguintes) que mudou o esquema todo.» (Vento Sueste)

Desatino

Mais outro neo-nazi que desata aos tiros à polícia... Há duas semanas um matou três polícias. Agora este matou dois.

A extrema direita está a desatinar desde antes das eleições. A compra de armas e de munições disparou desde a eleição de Obama, o nosso governador (que é um idiota chapado) fala em secessão, e os mamíferos da FOX (incluíndo Cheney e Rove) babam-se de raiva todas as noites na televisão.

Espero que estes anormais não nos matem o presidente.

Por uma frente de esquerda

Assinei a petição «Apelo à Convergência da Esquerda nas eleições para Lisboa». Tenho uma queda para o frentismo de esquerda e irrita-me o sectarismo de várias origens.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O regresso do terrorismo separatista?

No dia 25 de Abril, a Madeira (e Lisboa) acordou com bandeiras do movimento separatista FLAMA, que fora desactivado aquando da chegada de Alberto JJ ao poder. Há comunicado do grupo de exaltados, e fotografias dos trapos.

A nossa direita «democrática» (falo do PSD e do CDS, não dos delinquentes seriais mais à direita) teve, historicamente, uma atitude de discreta complacência com a violência e as bombas dos separatistas atlânticos. O incidente presente talvez fosse adequado para perguntar a personagens como Pacheco Pereira, Mota Amaral, Helena Matos ou Paulo Portas, o que pensam da ideologia da FLAMA, dos seus métodos e do facto de nem uma única das 200 bombas desta organização ter sido punida em tribunal.