segunda-feira, 5 de março de 2007

Revista de leituras (5/3/2007)

  1. «Ultimamente têm sido feitos alguns esforços no sentido de educar os jovens para a cidadania, aumentando a sua cultura científica para serem capazes de compreender o mundo que os rodeia e criticarem conscientemente os eventuais desmandos contra o meio ambiente, de que todos temos um pouco de culpa. Apesar destes esforços, de que saliento a actuação do programa Ciência Viva, muitas pessoas com responsabilidades fecham os olhos a certas manifestações anti-Ciência que vão minando a inteligência e a cultura das pessoas menos preparadas, que infelizmente constituem a maioria dos telespectadores. (...) Mais grave ainda é que a RTP, que deveria prestar um serviço verdadeiramente público aos cidadãos, colabore também na difusão da bruxaria, tendo igualmente a sua astróloga de serviço permanente no programa Praça da Alegria, munindo-se de um computador para tentar dar um ar científico às suas "previsões", contribuindo assim para a estupidificação dos cidadãos. (...) A RTP colabora nesta farsa todos os dias, levando a bruxaria às pessoas que seguem o programa, dando-lhe a mesma credibilidade que dão a médicos e cientistas que por lá passam. Já protestei junto dos responsáveis do programa, mas nem se dignaram acusar a recepção da minha carta. Agora, que se instituiu um Provedor do Telespectador, cheio de boas intenções, já lhe comuniquei o escândalo e pedi que estas anomalias fossem rapidamente eliminadas, para bem dos cidadãos. Não poderemos nós, cientistas, fazer algo mais?» («Anti-Ciência», no Ciência Hoje.)
  2. «The February-March issue of Cosmos contains my long-awaited review of Richard Dawkins’ The God Delusion, a book that has been the subject of massive international controversy. (...) One thing that has since astonished me is how many secular or otherwise moderate thinkers appear to resent Dawkins speaking up in criticising religion. I was well aware of the unspoken pact among intellectuals to show a sort of paternalistic solicitude toward religion - something that has developed gradually since my youth back in the 1970s, when anti-religious feeling was more socially acceptable. But I hadn’t realised just how strong this pact had become. If you write a book like that of Dawkins, arguing with wit and passion against religious belief, it now seems that most people who are in the position to review your work will question the propriety of what you’re doing. It’s as if any criticism of religion is seen, these days, as some kind of affront, or threat, to social stability. As religious leaders and intellectuals have become bolder, in recent years, about attempting to shape public policy on explicitly religious or crypto-religious grounds, it has become important that those grounds be subjected to close sceptical scrutiny. If the exponents of religious and crypto-religious viewpoints wish to have a say in the formulation of public policy, then we need to scrutinise whether or not their arguments are based on any intellectually credible foundation.» («Dawkins, Religion and Public Policy», no Institute for Ethics and Emerging Tecnologies.)

Religião e utopias políticas: a mesma fezada?

Andam pelo Metablog, pelo Cinco Dias, e pelo Zona Fantasma, algumas reflexões interessantes sobre ideologias (marxistas, por exemplo) e religião (judaico-cristã, pois claro). São possíveis muitos paralelos: as primeiras querem fazer descer o céu à Terra, a segunda elevar a Terra ao céu; ambas atribuem um carácter de inevitabilidade à realização das suas utopias (marxismo «científico» e messianismo religioso); e em ambos os casos se justificaram organizações autoritárias e sistemas políticos totalitários.
Mas vamos aos blogues. O percurso começa no Metablog com esta interrogação interpelante: «Haverá algum tipo de esperança que evite a lógica da promessa religiosa? Ou será que todas as narrativas políticas contém necessariamente um elemento de religiosidade?». Do Cinco Dias, vem esta resposta: «política sem um princípio da esperança é igual a tecnocracia e gestão daquilo que existe» e logo «a força de uma política revolucionária está mais dependente das esperanças que movimenta do que dos enunciados “científicos” que contém». O que nem é dogmático, de um ponto de vista marxista. Mas do Zona Fantasma vem uma resposta mais curiosa: «um edifício conceptual que tem por objectivo melhorar o mundo não pode deixar de se propagar pela esperança dos crentes», mas «o Marxismo terá em comum com o Judaísmo (...), não um "elemento de religiosidade", mas apenas o apelo a traços básicos da psique humana: querer fugir ao desespero de um universo sem sentido, sem evolução teleológica, sem promessa de sentido». Que o ser humano necessita de dar sentido ao universo, não duvido. Que essa busca de sentido o tenha que levar necessariamente para além da ciência, para os mundos perfeitos das religiões e das utopias totalitárias, já me parece mais duvidoso.
Pessoalmente, penso que o problema é justamente imaginar utopias para lá da dimensão pessoal. Quem imagina uma utopia como mero farol no final do seu projecto de vida individual, não cria problemas seja a quem for. As utopias são um problema quando passam a ser colectivas, quando alguns as imaginam universalmente desejáveis e passam a querer impô-las a todos. Todas as ideologias ou religiões que se meteram a realizar utopias para todos descambaram em pesadelos para mais do que muitos.
Supor que os outros partilham as nossas esperanças é partir do princípio que sabemos o que é melhor para eles. O papel da política não pode ser o de realizar utopias, mas sim o de manter uma sociedade em que cada um possa perseguir as suas utopias pessoais. A democracia e a laicidade protegem-nos justamente contra qualquer grupo que se queira apropriar do Estado para dirigi-lo, em permanência, para uma qualquer utopia.

domingo, 4 de março de 2007

Neo-Liberais

Em Agosto comecei a escrever uma série de artigos chamados «falácias da ética neo-liberal» (que ainda não terminei). No primeiro de todos, começava por esclarecer que adopto a palavra neo-liberal devido às confusões que podem advir da palavra "liberal". Muitos são chamados ou se auto-intitulam liberais, e o termo pode significar muitas coisas diferentes. Cheguei a escrever isto:

«A palavra "liberal" é uma palavra confusa.

Dependendo dos contextos, pode designar qualquer posição tendencialmente libertária, pode designar qualquer posição favorável a uma menor intervenção do estado na economia, pode designar ambas estas posições, e ainda pode designar qualquer posição de esquerda (nos EUA, por exemplo).»


Afinal a palavra "liberal" é ainda mais confusa!
Como leitor habitual do Blasfémias, fico a saber que «o maior defensor do liberalismo em Portugal» defende que Salazar foi um governante liberal, que Portugal precisa de um «Papa», que a liberdade não existe sem religiosidade, e que o poder absoluto e incontestado é essencial para o liberalismo.

Ou seja: neste momento qualquer que seja a ideologia política de um indivíduo, existe sempre uma definição de liberal que nele se pode encaixar. Mesmo que se trate de um defensor da autoridade incontestável...

sexta-feira, 2 de março de 2007

Anticlericalismo não é ateísmo de Estado

«O anticlericalismo não é perseguição a qualquer confissão religiosa ou guerra ao Catolicismo, como crença e como culto, ao seu clero como organização hierarquizada e infalível, encarregada da missão de difundir a fé cristã no Universo. Muito menos comporta a ideia de uma política ateísta, isto é, materialista, de negação e combate aos sentimentos religiosos. Seria absurdo e temerário, inconcebível e revoltante, o Estado tentar aniquilar qualquer crença ou confissão religiosa, todo o culto ou qualquer culto. (...) Não é assim que se compreende o anticlericalismo. O Estado republicano e os seus governos pretendem, simplesmente, proclamar a supremacia do poder civil pelo respeito de todas as religiões e garantir a liberdade de desenvolvimento de todos os cultos, dentro de um Estado que adquiriu a sua plena soberania política e moral.»

(As palavras são de Alberto Xavier, na sua obra de 1912 «Política republicana em matéria eclesiástica»; Alberto Xavier colaborou no governo republicano que legislou a separação entre Estado e Igreja.)

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

Moisés Espírito Santo sobre o recente referendo

«A Igreja Católica já não vinha a ter a influência que tivera outrora sobre os votos dos católicos, desistindo de entrar em lice. Agora foi o princípio da moral católica – imposta por lei a todos – que se afundou. Até porque, entre os que se dizem católicos e os que praticam de facto o catolicismo (entenda-se a prática dos 7 sacramentos «indispensáveis para a salvação» segundo a Igreja), a diferença é enorme: 80 % dos portugueses dizem-se católicos, enquanto apenas entre 15 a 20 % praticam. Isto quer dizer que a sociedade se vai autonomizando da moral e da dogmática católicas (sem deixar, eventualmente, de ser cristã).
(...)
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O conceito católico de família fundada numa união heterossexual e indissolúvel não é bíblico (a família bíblica era poligâmica, não era triangular e era patriarcal); nem é crística (Jesus nunca se referiu à organização familiar nem à sexualidade). A concepção católica de «família cristã» (triangular e indissolúvel) é posterior à Idade Média. Pretender estender a todo o universo, na modernidade, uma única concepção de família (casal indissolúvel, afectos restringidos a este casal e respectivos filhos, adopção dentro deste casal indissolúvel, etc.) é uma ilusão etnocêntrica e uma prepotência cultural (muito pouco cristã). Porque é que a Igreja se entrincheira aí? Porque é o único modelo familiar que garante a reprodução do catolicismo tradicional que, este, não necessita de conversão individual e se reproduz, exclusivamente, de pais para filhos, num meio familiar triangular e indissolúvel. Enquanto isto, o cristianismo original, evangélico ou protestante, é individualizante e alheio às pressões da organização afectiva familiar.
(...)
A sociedade portuguesa está preparada para aceitar toda a informação científica, sociológica e humanista. A Escola e os «média» também servem para isso. A percentagem de gente analfabeta e incapaz de perceber a informação já é diminuta. O problema é a manipulação moralista.
Mas há o princípio do «direito universal à felicidade» que é consensual. A investigação científica, a eutanásia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo entram neste «direito universal à felicidade». A união gay choca contra o casamento tradicional? Mas o valor da virgindade das noivas também caducou e o direito ao divórcio (condenado pela Igreja) já é consensual. A Igreja Católica poderá excomungar o casamento gay mas fá-lo à revelia de Jesus Cristo que nunca se referiu ao casamento e à sexualidade, enquanto o sacramento católico do matrimónio («indispensável para a salvação» dos amantes e progenitores) data do séc. XII. Se as explicações científicas prevalecerem sobre a moral (que é um produto histórico e relativo), se se avançar o «direito de todos à felicidade» (sem prejuízo de ninguém) e se a sociologia do casamento for bem explicada, toda a sociedade aceitará essas reformas, quer a hierarquia eclesiástica queira ou não.
(...)
Nós sabemos que o eleitorado português nem sempre se tem regulou pela reflexão individual: seguia os chefes carismáticos, premiava a «imagem» em menosprezo dos méritos e das realizações, mas isso está a acabar. O «sim» ao aborto é o começo duma nova atitude, entre nós, de o eleitorado decidir pelo pragmatismo e não pelo carisma dos chefes tradicionais
(Moisés Espírito Santo em entrevista à Visão.)

A revelação de um poeta

«Confiança» rima com «liderança» e «mudança». «Civilizada» rima com «participada». Quase aposto que antes de adormecer escreve sonetos ao computador.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Eis uma excelente ideia

Nasceu na Alemanha uma organização que promove a apostasia face ao Islão. Chama-se Conselho Central dos Ex-Muçulmanos da Alemanha e irá competir com o Conselho Central dos Muçulmanos pela representatividade das pessoas de origem muçulmana residentes na Alemanha. É liderada pela escritora Arzu Toker (de origem turca) e pela advogada Mina Ahadi (de origem iraniana). Arzu Toker declarou publicamente que «como disse Nietzsche, Deus está morto e é uma alegria assumir as responsabilidades por nós próprios». Já estão as duas sob protecção policial, dadas as ameaças de morte que começaram imediatamente a receber. Cerca de 120 pessoas já apostasiaram publicamente.

Revista de blogues (1/3/2007)

  1. «Numa tentativa de angariar dividendos políticos para os «mártires» perseguidos pelos «fanáticos» laicos, em alturas de pré-campanha para o referendo assistimos à importação cá para o burgo de uma das invenções mais lucrativas para os cofres das igrejas e organizações cristãs americanas: a guerra ao Natal! Invenção abundantemente debitada nas páginas do Público, em artigos que subentendiam estar a Associação República e Laicidade - uma «quadrilha de idiotas», «importante colecção de cretinos» e «estúpidos sem fronteiras» nas palavras de Bento Domingues, O.P. -, empenhada, com «manifesta tolice», «burrice mais aguda» e «maldade», numa inventada «guerra» ao Natal, manifesta, por exemplo, na utilização de «Boas Festas» em vez de «Bom Natal». (...) Como o alvo destes mimos são os laicistas, pressupostos ateus, os crentes acham normais e tolerantes as palavras do frei. (...) Todos têm o direito a acreditar no que quiserem, em astrologia, quiromancia, reikis «quânticos», psicografia, que Xenu está vivo e confinado por campos de força alimentados por uma bateria eterna, que o Elvis está vivo mas foi raptado por extraterrestres, que a Terra e o Universo foram criadas por Apsu, Haashch’eelti’i, Olodumare, Gisoolg, Ungambikula, Odin, Deus e restantes mitos sortidos. Agora, ninguém tem o direito a exigir que eu «respeite» quaisquer disparates coibindo-me de os criticar, muito menos tem o direito a exigir que eu aja como se esses disparates fossem a «verdade absoluta».» («A Quintessência da Tolerância», no Random Precision.)
  2. «Houve um referendo, há pouco tempo, em que se perguntava: "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Ganhou o sim. O não, perdeu. Não consigo imaginar, porque diabo é que se devia perguntar às pessoas, que não queriam ver a lei alterada, como é que a nova lei, baseada na consulta popular, deveria funcionar. Relembro que, as direcções do PSD e CDS se declararam pelo não de uma forma clara e marginalizaram, de forma ostensiva, os seus militantes que declararam votar no sim. Mais, sentir-me-ia ofendido se fosse convidado para discutir uma lei que fosse, claramente, contra as minhas convicções. Ou então, e afinal, estas pessoas que votaram não, não votaram por convicção mas sim porque era “corporativamente” correcto votar nesse sentido. Só desta forma é que posso compreender a “vontade” de querer participar na elaboração de uma lei que, teoricamente, vai contra as suas consciências.» («E dura, dura, dura», no blogue da Revista Atlântico.)