sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ouvir tudo com atenção

Relvas: as instituições que cumpriram (ou não) os seus deveres

  1. A Entidade Reguladora da Comunicação Social provou que Relvas mentiu, sabia que ele tinha acedido aos ficheiros SIS/SIED sobre a vida privada de jornalistas, e decidiu por votação partidariamente orientada não o condenar. A instituição liderada por Carlos Magno demonstrou que não protege os direitos dos cidadãos contra o governo, preferindo servir o poder político do momento.
  2. A Inspecção Geral da Educação e Ciência propôs a «nulidade do ato de avaliação» de um aluno de 2006 que em 2013 é ministro, com razões fundamentadas, implicando a «declaração de nulidade do grau». Cumpriu, mesmo estando na dependência directa do ministério. Serviu a Universidade.
Acontece que é mais grave ameaçar pessoas, acho eu.

Revista de blogues (5/4/2013)

  • «(...) o que fazer a alguém que é acusado dos crimes de abuso de poder, violação de segredo de Estado e de acesso indevido a dados pessoais? Pois bem: integrá-lo nos funcionários da Presidência do Conselho de Ministros. Que mais poderia ser? Talvez mais isto: pô-lo ao nível salarial anterior e pagar-lhe os vencimentos que não auferiu entretanto. Nada mais? Eu sugeriria os pés lavados com água de malvas pelos portugueses espiados ilegalmente, pelo jornalista que teve as suas comunicações violadas, pelo cidadão que teve o azar de casar com uma ex-mulher de um espião lusitano, pela jornalista que viu a sua vida pessoal devassada. Mais alguma coisa? Uma petição às avessas para saber o que pretende de nós Jorge Silva Carvalho, o espião que teve reuniões de negócios com Miguel Relvas, para esquecimento deste no parlamento. Sim, eu sei. Vão dizer que o ex-espião tinha de ser reintegrado ao abrigo de uma lei já antiga, de 007 — 2007, quero dizer — que permite a um espião pedir a exoneração e a reintegração ao mesmo tempo, possibilitando, entre uma coisa e outra, uma incursão de carreira no privado — para o qual antes se tinham passado informações. Para que deveriam dar satisfações aos cidadãos os dois autores do despacho de reintegração, Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar? Bem, talvez para nos dizer se o trabalho do ex-espião e agora funcionário público vai ter algum tipo de precauções, algum tipo de restrições? Talvez para nos dar conta da possibilidade de um processo disciplinar, agora que Silva Carvalho voltou? Talvez para nos explicar com que interpretação se permite a reintegração de alguém que está acusado de violar a lei no seu posto anterior? (...)» (Rui Tavares)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Eu sei, o Al Capone foi preso por evasão fiscal, mas...

Lição: em Portugal pode-se ameaçar jornalistas com dados da vida sexual das pessoas saídos dos esgotos dos serviços secretos. Não se pode é aldrabar na licenciatura. A confirmarem-se as razões da queda de Miguel Relvas, a conclusão parece ser essa, não é?

Revista de blogues (4/4/2013)

  • «Conheci Miguel Gonçalves num desses colóquios sobre “observação de tendências” a que acedo, com vaga relutância, por razões profissionais. Aos que não conhecem a mecânica dos colóquios em Portugal basta explicar que aí se cruzam três tipos de oradores: o semideus americano com trabalho publicado, consultoria pujante e coisas para dizer; o rato de laboratório, que uma pesquisa esdrúxula alcandorou à bolsa de estudo em Manchester ou ao louvor endomingado de Marcelo Rebelo de Sousa e, para deleitar a turbamulta, os palhaços. Miguel Gonçalves era o palhaço. Durante trinta minutos exibiu o rosto amável do empreendedorismo merdalejo com vocação universal: ele tinha criado uma “startup” espectacular. Ele visitara o Silicon Valley em chanatas e bebera Coca-Cola no McDonalds frequentado por Bill Gates. Ele tinha programado uma “aplicação” “brutal” para uma bosta qualquer e trabalhava “vinte e quatro horas por dia” para cumprir o sonho meritório de vir a ser “pornograficamente rico”. Pior que tudo, ele não parava de gritar. “Que pena”, reflecti na altura, “não meterem este tipo no PSD”. Alguém me ouviu.» (Luís M. Jorge)

Os aristocratas do comentário político

Houve um certo estrépito com a passagem ao comentário político do anterior Primeiro Ministro, um tal José Sócrates. Debateu-se se tem direito ao seu programazito de comentário político, e se tem direito na RTP ou nos canais já privados, etc. Combatendo o sono que o senhor e os outros personagens de cima me provocam quando falam a solo, há algo que acho importante acrescentar.

Em curto: o problema não são os personagens, é o formato.

Em longo: há uma péssima tradição nos media portugueses, a dos programas de «comentário político» sem contraditório. Colocar todas as semanas ex-líderes partidários como Marcelo, Marques Mendes ou Louçã perante um(a) jornalista que irradia simpatia e «respeito» pelo personagem, é colocá-los num pedestal que até pode permitir (os adversários garantem que permite) lançarem-se para outros voos. E é pouco republicano. Um debate republicano não é dois padres alternarem nos dias em que dizem a missa(*) (como parece ir acontecer na RTP com Sócrates e Morais Sarmento). Um debate republicano é o confronto de opiniões contrastantes (como acontece nos programas de debate que juntam, felizmente, políticos ou comentadores de opiniões assumidamente contrárias).

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sempre Amado

Não resisto: quem é o ex-ministro do PS capaz de dizer isto: «moção [de censura] foi "cedência da direcção do PS a vozes críticas" (...) revela imaturidade democrática»?

A terceira República espanhola a caminho?

A filha do chefe do Estado vizinho foi acusada de corrupção. Seu pai, fazendo jus à sua educação entre ditadores e padres, não hesita em usar o cargo que ocupa vitaliciamente e sem eleição para atacar o poder judicial. Desespero bourbónico? É divertido, e de bom augúrio...