quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Polícia para telespectador ver

As operações policiais de ontem, em dois bairros «problemáticos» da Margem Sul, foram uma encenação mediática destinada a convencer os telespectadores de que a nossa querida polícia é forte com os fracos meliantes desses bairros. Como o saldo da operação (que envolveu 52 polícias...) se resumiu a apreender meia dúzia de charros, e nas 350 pessoas que fiscalizaram, apenas 3 estavam «sob a influência do álcool», pode concluir-se que aquela população é gente ordeira, aliás com uma das mais baixas taxas de consumo de álcool do país. Mas não é através da presença ostensiva de polícia nas ruas que se combate a real insegurança. É mais complicado do que isso.

Adenda: ler também isto.

Os soldados perdidos da guerra fria

Nos anos 80, ainda se liam nos jornais notícias sobre soldados japoneses que eram encontrados em ilhas do Pacífico, com cabelo até à cintura e armas obsoletas nas mãos, convencidos de que a 2ª guerra mundial não tinha acabado nos anos passados desde o último contacto com o resto do mundo.

Lembrei-me destes soldados perdidos ao ler alguns artigos de opinião de agosto (exemplo: o inefável João Carlos Espada no último Expresso), onde se argumenta contra a Rússia de Putin agitando o espantalho da «Rússia Soviética» e evocando, portanto, os impulsos da guerra fria. Estes anacronismos são divertidos, mas úteis por nos recordarem de como o mundo efectivamente mudou. As razões do recente conflito no Cáucaso, como anteriormente das guerras na Jugoslávia, são obscurecidas se continuarmos a manter o quadro mental de um conflito, defunto, entre ideologias entrincheiradas em blocos antagónicos. Para compreender a guerra no Cáucaso, basta recordar que Rússia, em mil anos de história, só recuou até Moscovo com Napoleão e Hitler. Desta vez, não perdeu sequer o controlo do norte do Cáucaso. Para as elites russas, do Império dos czares ao dos bolcheviques (e à Rússia de Putin) há mais continuidade do que aquela que quem tem os óculos ideológicos da guerra fria consegue ver.

A Europa deveria distrair-se das sanções contra a Rússia e apostar em construir uma cooperação com um Estado que não é exactamente uma democracia, mas que é mais fácil de lidar do que as teocracias islâmicas que nos deveriam preocupar.

Uma realidade aterradora

Com a suprema ironia que o caracteriza, max Blumenthal fez mais uma reportagem eloquente, desta vez sobre a estupidez desgraçada dos fundamentalistas cristãos que apoiam McSame e Palin.

FOX

Obama reuniu-se com o conhecido pornógrafo australiano e patrão mundial dos media Rupert Murdoch para discutir uma estratégia de cooperação ou, melhor posto, de não agressão.

As declarações de Murdoch e Ailes, dois dos cidadãos mais perigosos e mais ignóbeis do planeta, são deliciosas. Nem para estes dois neo-nazis patéticos - que o mundo acredita que são honestamente neo-nazis - a ideologia parece estar acima do lucro!

Palin e Jesus

A candidata a vice-presidente é uma pacóvia sem educação nem experiência, cujo único apelo é ser uma fundamentalista cristã, firme contra os direitos e a sexualidade das mulheres, contra o ambiente e a ciência, o bom senso e a solidariedade social.

Num país em que 90% dos cidadãos não são fundamentalistas cristãos, esta escolha só faz sentido porque os media são controlados por um pequeno grupo de oligarcas a quem a agenda dos fundamentalistas cristãos interessa imenso.

Já não sei quem é que escreveu que as ideologias existem para mascarar as relações de exploração de umas classes pelas outras, mas o carinho com que o complexo industrial militar trata estes desgraçados e lhes promove a agenda explica eloquentemente como as questõs do aborto e do casamento gay (e, com muito menor relevo, do criacionismo) são as máquinas de fumo com que eles enganam a América.

Há muitos anos que os publicistas (como o Goebbels) descobriram que não é com papas e bolos que se engana os tolos. O medo é a melhor ferramenta dos propangandistas para controlar a maioria rural, isolada, ignorante e supersticiosa que constitui a base eleitoral dos republicanos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A vice de McCain discursa numa igreja

Pode-se ver Sarah Palin discursar numa igreja neste vídeo no richarddawkins.net. Fica-se a saber que Sarah Palin (que se entusiasma bastante com o seu amigo imaginário) acha que a guerra do Iraque é uma missão divina. O seu pastor preferido também parece pior do que o pastor de Obama, mas a influência dos pastores sobre as ovelhas é difícil de quantificar. Tudo isto parece mais importante quando, como faz Sam Harris, se toma em conta a idade de McCain:
  • «The actuarial tables on the Social Security Administration website suggest that there is a better than 10% chance that McCain will die during his first term in office. (...) If we take into account McCain's medical history and the pressures of the presidency, the odds probably increase considerably that this bright-eyed Alaskan will become the most powerful woman in history. (...) Is Palin remotely qualified to be president of the United States? No.»

Caroline Fourest: «On achève bien l´école publique»

A agenda neoliberal (e clerical) para destruir a escola pública é a mesma em Portugal e na França: desvio de fundos das escolas públicas para as privadas, atribuição da gestão das escolas às regiões e municípios para melhor desregular o sistema, e, a culminar, o cheque-ensino.
  • «Les partisans de l’école privée peuvent se réjouir. Tous ceux qui préfèrent la séparation de l’école et de l’Etat à la séparation de l’Eglise et de l’Etat, qu’ils soient ultracatholiques ou ultralibéraux, ou ultra-les deux, peuvent savourer leur victoire. La guerre scolaire est presque terminée. Et ils ont gagné.
    (...) Au lieu de concentrer ses moyens au service de l’école publique, l’Etat a gaspillé sa marge de manœuvre en augmentant les crédits alloués à l’école privée. Les vannes sont grandes ouvertes depuis 2004, date à laquelle les collectivités locales ont obtenu le droit de financer sans limites les établissements privés. (...) Dans les cénacles de l’école privée, on prépare déjà la suite : le "chèque éducation", grâce auquel chaque élève recevra directement l’aide de l’Etat pour choisir de s’inscrire dans le privé ou dans le public. Une idée empruntée au modèle anglo-saxon, qui a fait les beaux jours des écoles privées religieuses. Est-ce bien rassurant pour la cohésion sociale et le vivre-ensemble ? Jusqu’ici, l’école confessionnelle sous contrat donne le sentiment de vouloir privilégier l’enseignement au prosélytisme. Mais les temps changent. L’Eglise, qui confie de plus en plus ses missions éducatives à des courants comme l’Opus Dei ou la Légion du christ, milite pour accentuer le "caractère propre", c’est-à-dire le caractère catholique, de ses écoles. Les autres religions ne sont pas en reste. A quoi ressemblera le vivre-ensemble quand un nombre grandissant d’élèves français aura fait ses classes dans des écoles tenues par l’Opus Dei, les Frères musulmans ou les loubavitchs ? (...)» (Caroline Fourest na Gauche Républicaine.)
Quando este processo terminar, os ricos terão as melhores escolas para os seus filhos, privadas mas pagas pelo Estado (o que dá «liberdade» subsidiada para ensinar disparates, religiosos e outros), e as barreiras de classe firmemente erguidas. As piores escolas que fiquem para os pobres.

O conservadorismo não foi de férias

http://ww1.rtp.pt/noticias/images/articles/359681/cavaco4.jpg

O tremendo estrondo em volta do veto ao estatuto dos Açores pode agora ser apreciado como parte de uma estratégia destinada a ocultar o veto à lei do divórcio, divulgado pela calada a 20 de agosto.

As justificações parecem, incrivelmente, saídas dos manifestos dos movimentos católicos mais reacionários (tipo Comunhão e Libertação), sendo particularmente pasmante a passagem em que nos convida a ter pena da mulher espancada que é «castigada» com um divórcio. Nem sei o que será pior: se o facto de o homem que é Presidente da República não se aperceber do inverosímil da situação, se a circunstância de não compreender que, quer o compreenda imediatamente quer não, quem ganhará com tal divórcio será a mulher.

Neste veto, Cavaco poderia ter perdido a reeleição. Digo poderia, porque não dei por que a esquerda tivesse aproveitado devidamente esta oportunidade para persuadir os 67 mil cidadãos que elegeram Cavaco em 2006 de que, bem, elegeram um conservador (e se até no próprio PSD houve quem tratasse Cavaco de «ultrapassado» para baixo...). Se o conservadorismo não foi de férias, a esquerda que quer conquistar o palácio de Belém parece que estava na praia. Bem enterrada na areia.