quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Jason Burke: «France and the Muslim myth»

«Analysts and commentators often seek to find evidence to support their well-established ideas in any given event. So while critics of the 'French social model' have gleefully seen evidence of its failure in the recent violence in France, its supporters have seen evidence of the damage done by right-wing policies in the country. But little compares with the extraordinary way in which the disturbances of the last two weeks have been hijacked by those who appear set on either finding, or creating, a 'clash of civilisations' between Islam and the West.
Take one particularly egregious example. Melanie Phillips, writing in the Daily Mail, described the riots in France as 'a French intifada, an uprising by French Muslims against the state'. I covered the intifada in Israel and Palestine and, beyond the fact that thrown stones look much the same wherever they are, saw little that resembled the Gaza Strip in the autumn of 2000 in Clichy-sous-Bois in the autumn of 2005. In the course of her article, Phillips spoke of how 'night after night, France [had] been under attack by its Muslim minority', how the country was being 'torched from Normandy to the Mediterranean', how it had 'sniffed the danger that had arisen in its midst' and quoted a little-known writer called Bat Ye'Or who is a favourite of the more unsavoury right-wing American websites and believes that the European Union is a conspiracy dedicated to creating one Muslim-dominated political entity that will comprise most of the Middle East and Europe.
Phillips also conflated Arabs (a race), and Muslims (a global religion of 1.3 billion, some devout, some not). This is dangerous nonsense, but needs to be studied.
First, the facts. According to the French intelligence services, the areas where radical Islamic ideologies have spread furthest in France have actually proved the calmest over recent weeks. Second, characterising the rioters as 'Muslim' at all is ludicrous. Most were as Westernised as you would expect third-generation immigrants to be and far more interested in soft drugs and rap than getting up for dawn prayers.
Indeed, a high proportion was of sub-Saharan African descent and not Muslim at all. Others were white and so, following Phillips's description of the darker skinned rioters as 'Arab Muslims', should presumably be referred to as 'Caucasian Christians'.
Also, it is clear that the rioters were not seeking to destroy the French state but were demanding a greater stake in it. Otherwise, there would have been many more direct confrontations with the security forces. The point the rioters made again and again was that they felt rejected by 'the Republic', not that they wanted to tear it down. With all other channels of communication blocked, they sent, literally, smoke signals instead.(...)»
(Jason Burke, no The Observer.)

American heroes (1.3): Thomas Jefferson

«If we did a good act merely from the love of God and a belief that it is pleasing to Him, whence arises the morality of the Atheist? It is idle to say, as some do, that no such thing exists. We have the same evidence of the fact as of most of those we act on, to wit: their own affirmations, and their reasonings in support of them. I have observed, indeed, generally, that while in Protestant countries the defections from the Platonic Christianity of the priests is to Deism, in Catholic countries they are to Atheism. Diderot, D'Alembert, D'Holbach, Condorcet, are known to have been among the most virtuous of men. Their virtue, then, must have had some other foundation than love of God.»

(Thomas Jefferson numa carta a Thomas Law, em 1814; é uma passagem curiosa pelo reconhecimento de que é possível ser ateu e virtuoso, o que hoje é óbvio mas à época era uma opinião rara; note-se que Jefferson dizia-se deísta ao nível da crença, e era unitário ao nível da prática religiosa.)

terça-feira, 15 de novembro de 2005

A miséria da ideologia

As clivagens obcecadamente ideológicas do debate político na blogo-esfera e fora dela enfastiam-me cada vez mais. Penso sobretudo nas guerras mesquinhas e maniqueístas que aconteceram na blogo-esfera na sequência do furacão Katrina ou dos motins nos subúrbios de Paris, mas também em artigos indigentes como o de José Pacheco Pereira no Público de quinta-feira. De súbito (e sobretudo à direita), parece que tentar compreender a realidade passou a ser visto como um luxo, e que tudo o que interessa é escolher uma trincheira. A partir desse momento, apaga-se o sentido crítico e liga-se o piloto automático.
Se se escolhe a trincheira da «direita», culpa-se o «anti-americanismo» por tudo e mais qualquer coisa, troça-se dos europeus em geral e dos franceses em particular (o que deveria ser considerado ódio de si próprio, já que somos, geograficamente, europeus e não norte-americanos), berra-se contra o «politicamente correcto» e o «multiculturalismo» (sem nunca esclarecer o entendimento desses termos) e responsabiliza-se o «estado social» e o «domínio mediático da esquerda» pela pobreza, pela violência urbana e pelo racismo. Se se escolhe a trincheira de certa «esquerda», culpa-se os EUA e o neoliberalismo por quase tudo (incluindo, por vezes, as evoluções climáticas), isentam-se os muçulmanos ou outros povos do terceiro mundo de responsabilidade ou vontade próprias, constroem-se teorias de conspiração que envolvem os média e a grande finança, etc.
Este fenómeno é particularmente visível nos estalinistas da direita. Personagens como José Pacheco Pereira, João Carlos Espada ou José Manuel Fernandes são fascinantes porque encerram em si próprios a tragédia da vida intelectual portuguesa dos últimos cinquenta anos. Explico-me: passaram do catolicismo da infância e da adolescência para o marxismo-leninismo-qualquer-coisa da juventude, e na meia-idade encontram-se num «liberalismo» tão fanático que é um autêntico estalinismo virado do avesso. O «paraíso» imaginado na infância era o católico, foi a China ou a Albânia na juventude, e é hoje o Reino Unido ou os EUA. Sente-se que defender o desempenho dos sistemas político-económicos destes países e acreditar na suprema felicidade dos seus habitantes é-lhes inseparável da escolha ideológica que fizeram. Nunca lhes passou pela cabeça que a realidade poderá ser mais complexa do que qualquer teoria, e que nenhuma torna em anjos quem a ela adere, prevê o futuro histórico ou libertará a humanidade da miséria ou da violência.
No entanto, ter uma ideologia poderia consistir apenas em sistematizar princípios éticos, incluindo as relações entre eles. (Por exemplo, o comunismo coloca a igualdade como um valor acima dos outros; o neoliberalismo considera unicamente a liberdade económica; o republicanismo o equilíbrio entre liberdade, igualdade e fraternidade; etc.) Não tem que ser uma grelha de interpretação da realidade válida em todos os lugares e em todas as épocas, ou uma teoria final sobre a natureza e as necessidades humanas e sobre uma (utópica) harmonia social. Claro que tudo isto era fornecido em pacote pelas religiões monoteístas pré-modernas, e que por isso, no século 20, se exigiu o mesmo às ideologias utópicas. (Apetece dizer que se as religiões eram heroína, as utopias são metadona.)
É evidente que os nossos primos chimpanzés também se dividem em tribos mutuamente hostis. Não tenho tanta certeza de que se afundem no pensamento dicotómico que envenena a cultura ocidental. Já marcar pontos em qualquer disputa ou ter uma mundividência padronizada poderão ser necessidades inelutáveis do ser humano. Mas o ser humano também sabe separar os campos de aplicação de cada abordagem. A ciência permite-nos concordar quanto aos factos. E o bom senso deveria ajudar-nos a olhar para a realidade social sem a incluir em disputas ideológicas mesquinhas.
Se tudo correr bem, o século 21 será tão pós-utópico como o século 20 foi pós-religioso.

American heroes (1.2): Thomas Jefferson

«Because religious belief, or non-belief, is such an important part of every person's life, freedom of religion affects every individual. State churches that use government power to support themselves and force their views on persons of other faiths undermine all our civil rights. Moreover, state support of the church tends to make the clergy unresponsive to the people and leads to corruption within religion. Erecting the "wall of separation between church and state," therefore, is absolutely essential in a free society.
We have solved ... the great and interesting question whether freedom of religion is compatible with order in government and obedience to the laws. And we have experienced the quiet as well as the comfort which results from leaving every one to profess freely and openly those principles of religion which are the inductions of his own reason and the serious convictions of his own inquiries.»
(Thomas Jefferson, numa carta aos Baptistas da Virgínia, em 1808; é a segunda vez que Jefferson usa a expressão «muro de separação»; notar ainda a referência explícita aos que «não têm crença».)

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

American heroes (1.1): Thomas Jefferson

«Believing that religion is a matter which lies solely between man and his God, that he owes account to none other for his faith or his worship, that the legitimate powers of government reach actions only, and not opinions, I contemplate with sovereign reverence that act of the whole American people which declared that their Legislature should "make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof," thus building a wall of separation between Church and State.»
(Thomas Jefferson, numa carta aos Baptistas de Danbury, em 1802; é o primeiro uso do termo «muro de separação»; notar também a citação de Espinoza.)

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Francisco Louçã proferiu a palavra que começa por «L»

«Defenderei, como sempre o fiz, o direito à diferença e o respeito pelas escolhas de vida de cada pessoa. Esse respeito é uma condição da democracia: ao Estado não compete tutelar as consciências das pessoas e é por isso que deve aceitar as opções de cada um e de cada uma na escolha da sua orientação sexual e garantir todos os direitos civis a todas as pessoas sem discriminação.
Pelo mesmo princípio, o Estado republicano é laico, não tem religião oficial nem privilegia nenhuma religião, respeitando todas no seu âmbito específico de actividade, e garante a todas as crianças o acesso ao ensino público laico.
(...)
Defendo a legalização dos imigrantes e uma nova lei de nacionalidade que seja inclusiva porque baseada no princípio jus solis, porque essas são as bases de uma acção cosmopolita que é a única resposta consistente ao desagregar da integração punitiva que é a política dos guetos e do trabalho clandestino. Defenderei os direitos civis para os imigrantes, incluindo o direito de voto em todas as eleições de âmbito nacional - eleições autárquicas, legislativas e também presidenciais. Não deve haver taxação sem representação, é a regra republicana. Se os imigrantes estão obrigados, como devem, a pagar impostos e a cumprir as leis da República, têm direito a participar em todos os actos eleitorais relevantes para a aprovação das leis e para as decisões sobre o destino a dar aos seus impostos. Essa é a democracia de responsabilidade que defendo.»
Confesso que fiquei muito bem impressionado com estes dois parágrafos de Louçã: seria capaz de assiná-los sem quaisquer «se» nem «mas». O resto do discurso enferma do mesmo defeito do manifesto de Cavaco Silva: é demasiadamente pormenorizado em questões económicas (como a Segurança Social) em que a influência do Presidente é pouca ou nenhuma.

Revista de blogues (9/11/2005)

  1. «França: integração em cinzas», por Rui Curado Silva (no Klepsýdra): um elucidativo depoimento pessoal (sem rancores nem ilusões) de alguém que conheceu na pele a violência dos subúrbios franceses.
  2. «Paris e o sobressalto (1)» e «Paris e o sobressalto (2)», por Alexandre Andrade (no umblogsobrekleist): uma desmontagem meticulosa de algumas das armadilhas intelectuais em que caíram os neoliberais francofóbicos que tão facilmente «descobriram» o que correra mal em França.
  3. «Dedicatória», por Luís Rodrigues (no Random Precision): porque esta é uma semana em que devemos lembrar aos evangelizadores que por aí andam que nem todos somos católicos.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Revista de blogues (8/11/2005)

  1. «Motins em França», por Rui Pena Pires (no Canhoto): a melhor análise que li na blogo-esfera lusa sobre os acontecimentos de França.
  2. «A Opus Dei e a candidatura de Cavaco Silva», no Geosapiens: uma chamada de atenção importante para a presença massiva do Opus Dei na candidatura de Cavaco Silva.
  3. «A visita pascal (crónica)», por Carlos Esperança (no Ponte Europa): é raro publicarem-se textos tão literários nos blogues.