segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A desilusão e a revolta

A imagem que eu tinha de José Sócrates era muito positiva. Um homem pragmático, com a coragem de defender ideias impopulares, moderado nas suas propostas, mas que acreditava decididamente na importância da ciência, tecnologia, educação e cultura para o desenvolvimento económico.
Fiquei muito contente com a sua maioria absoluta, com o governo que escolheu, e pensei que bons anos viriam.
Na altura via-o como uma mais-valia para o PS.

Hoje não.

Em primeiro lugar porque a fibra intelectual de Sócrates parece semelhante à que estou habituado a ver nos líderes do PSD - a suficiente para "liderar". Mas não mais que isso, e quando se lidera um governo, eu espero mais. Não espero apenas que seja capaz, tem de ser brilhante. Quero alguém bem mais inteligente que uma Manuela Ferreira Leite, e não alguém que quando discute os assuntos parece programado para repetir duas ou três «ideias chave» previamente decoradas (sabemos que a Manuela improvisa, é certo, mas também sabemos que cada vez que o faz se arrepende).

Em segundo lugar porque quero alguém em quem possa confiar. Alguém em relação a quem eu saiba que dá o seu melhor para ser honesto (sabemos que em política uma honestidade a 100% é impossível, mas pelo menos existe quem se esforce). Isto é algo que é raríssimo no PSD, e ainda mais no CDS. Mas não devia ser assim tão difícil no PS. E no entanto, quando começaram as difamações da direita a respeito do caso freeport o meu instinto foi acreditar nelas. Porquê? Porque José Sócrates assinou aqueles projectos. E eu prefiro acreditar que houve ali alguma desonestidadezita porque a alternativa, a incompetência atroz, seria pior. Não é de uma gravidade por ali além, e se isto tivesse acontecido a um líder do PSD eu limitar-me-ia a pensar "típico" sem dar grande importância ao assunto. Assim, isto desiludiu-me e quebrou alguma confiança.

Em terceiro lugar por causa da actuação política. As críticas do PSD sobre o "abuso de poder" de Sócrates são cómicas porque sabemos que quando no poder tentaram e fizeram bastante pior. Mas, são críticas que um PS na oposição teria feito ao primeiro ministro, e com muita razão em grande parte delas. E nisto também incluo alguma propaganda desastrada paga com dinheiros públicos. Sim, eu sei que o PSD fez pior, mas não deixa de ser uma desilusão.

Sócrates tem qualidades. Tenho razões para supor que é muito trabalhador, determinado, e até sensato. Acredito que esta sensatez leva-o a saber escolher quem deve ouvir com alguma sabedoria. Mas neste momento não o vejo como uma mais-valia para o PS. Posso agradecer-lhe (e muito) o ênfase que colocou na importância da ciência e tecnologia - algo que já vinha do Guterres mas sofreu um impulso decidido com Sócrates ao comando - mas quando votar vou votar pelo partido (como aliás deve ser) sentindo que Sócrates é uma menos-valia.


Se Sócrates me desiludiu, que pensar do PS?
Desiludiu-me também um pouco. Eu imaginava o PS como um partido que tinha um grande defeito e uma grande qualidade. O grande defeito é próprio dos partidos do bloco central: estar cheio de gente gananciosa cujos valores mais sagrados são o seu próprio sucesso individual. Infelizmente essa gente é como as traças e as melgas, voando incessantemte em roda dos partidos que possam governar, enquanto dominam as burocracias e o aparelhismo para subirem de posto em posto. A grande qualidade do PS era o pluralismo, o gosto pela liberdade, a sofisticação intelectual de quem compreende e sintetiza perspectivas diferentes e muitas vezes opostas de vários problemas.

Mas algumas iniciativas do PS pareceram contrárias a este espírito. Desde a lei do tabaco, o impedimento de se vender pão com mais de tanto sal, ou mesmo as ridículas leis contra os galheteiros ou as castanhas embrulhadas em páginas amarelas, com o culminar das leis da união de facto - essas e outras fizeram-me encarar o PS como um partido menos libertário do que aquilo que pensava.
Que sentido faz a JS lutar pela legalização da Cannabis, e depois compreender que as pessoas não possam comprar pão muito salgado? Que sentido faz em começar a discutir o suicídio assistido, enquanto se tira às pessoas a possibilidade de correrem o risco de comer castanhas embrulhadas em páginas amarelas?
O estado deve proteger-nos, sim. Mas quando nos começa a querer proteger de nós próprios já franzo o sobrolho. E gostaria que a esquerda tivesse esta atitude face a todas as leis e todos os problemas, e não apenas face às causas libertárias "tradicionais".

Por fim, outra desilusão que tive com o PS enquanto partido foi o facto de ser frouxo na luta contra a corrupção. Estamos no fim da sua primeira maioria absoluta, e a este nível está quase tudo na mesma. As mesmas derrapagens inconsequentes nas obras públicas, os mesmos altos responsáveis a ir trabalhar para grandes empresas com as quais negociaram enquanto governantes, ganhando depois salários chorudos, etc..

Estas foram as minhas desilusões. As minhas expectativas talvez fossem irrealisticamente altas.
Talvez fosse demasiado crítico e exigente para com um governo no qual não votei (estava em Londres), mas no qual teria votado se pudesse e a respeito do qual aconselhei muita gente a votar quando dava a minha opinião sobre o assunto.


Arrependido? Já tive os meus momentos, mas se colocar tudo em perspectiva, então não.

Em nenhuma das críticas que faço me parece que o PSD teria feito melhor. Mas o governo fez várias coisas positivas. Consegiu controlar as finanças públicas, consegiu diminuir significativamente a pobreza e a desigualdade. Estas duas coisas são tão relevantes que já teriam justificado o meu voto.
Mas também deu um impulso decidido à Ciência e Tecnologia, também fez uma aposta que se impunha - por razões económicas e ambientais - nas energias renováveis, também fez bastante pela celeridade da justiça, fez uma reforma muito inteligente na segurança social, etc... Muitas das medidas significaram problemas a curto prazo, e os benefícios apenas se sentirão no longo prazo, pelo que foram implementadas a custo de alguma popularidade, de piores resultados nestas eleições. E ainda assim foram tomadas. Existiu, diga-se, coragem.

Eu poderia ser ainda mais exigente com o governo, e dar o meu voto de protesto ao BE. Pensei fazê-lo durante parte significativa da legislatura.
Mas não vou votar em quem se mantém sem qualquer abertura para o compromisso. Se o BE estivesse disposto a coligar-se, quem sabe. Poderia fazer a experiência e votar na sua lista de deputados, para ver como é que o partido lidaria com a experiência do poder. Mas quero penalizar nas urnas esta incapacidade de comprometer o que quer que seja.
O seu projecto é, para mim e para muitos, demasiado radical. Se não estão dispostos a nenhum compromisso, perde o interesse. Para "voz descomprometida" basta um deputado.

O meu voto no PS vai acontecer porque nas legislatura que antecedeu Sócrates não foi desilusão que senti. Foi revolta.
Revolta pelo corrupção, mas também pela estupidez, pela tacanhês, pelo disparate.
Pela incompetência de Manuela Ferreira Leite enquanto ministra das finanças deste país, uma incompetência com uma dimensão tal que ainda estamos e estaremos a sofrer as suas consequências. Em todas as vendas, acordos e negócios o estado perdia tanto dinheiro, tanto património.
Antes fosse tudo corrupção, mas não era. Às vezes eram cortes cegos que impediam institutos de cumprir as suas obrigações contratuais, o que levava o estado a pagar indeminizações bem maiores que o corte. Incompetência atroz, muitos prejudicados, nenhum beneficiado.
O ministro da ciência e do ensino superior era conhecido de uma pessoa próxima. Quando contaram a esta pessoa a notícia, ela não acreditava, pensava que era uma brincadeira. Não acreditava que alguém a seu ver tão intelectualmente incapaz pudesse ser ministro de um governo da nação. E não escrevo "não acreditava" como força de expressão, refiro-me ao facto desta pessoa só ter acreditado quando viu a notícia ela própria na televisão. Ela realmente pensava que era uma brincadeira.
Poderiámos dizer que não é grave - há ministérios bem mais importantes. Mas a verdade é que este episódio é um sintoma e explica muita da incompetência gritante que se viveu na era Durão-Santana. Não vou escrever mais sobre as razões que me levaram a sentir uma enorme revolta face aos governos desta era. Nunca mais daqui saía.
Mas as sondagens actuais mostram que o risco de se voltar a esse disparate é real. Manuela Ferreira Leite no governo iria comprometer o crescimento, o desenvolvimento do país. Um governo PSD não traz boas perspectivas para o desenvolvimento de Portugal, quer no curto, médio ou longo prazo. Uma razão importante para votar PS é não querer correr esse risco.

Antes a desilusão que a revolta.
E quem sabe...

15 comentários :

João Vasco disse...

.

Anónimo disse...

Ainda para mais com um PSD ainda mais desorientado do que no passado...

Quanto à habilidade política, tenho Sócrates em conta como alguém que vence com frequência debates parlamentares. Talvez seja o atabalhoamento da oposição, mas sempre me pareceu muito bem preparado no parlamento. Não obstante alguns truques de malabarismo sofista...

Seja como for parece-me que está um pouco mais desnorteado do que no princípio da governação.

Estou curioso quanto aos frente-a-frente e penso que só aí é que Sócrates poderá contrariar a queda da sua popularidade.

Filipe Castro disse...

Concordo que não se pode comparar Sócratas com MFL. A irresponsabilidade criminosa dos neo-liberais é um perigo real para o mundo, como se viu com os 8 anos Bush, que o planeta não vai esquecer tão depressa.

Miguel Barbosa disse...

eu não diria que Francisco Louçã se recusou a estabelecer compromissos. mas eu, enquanto eleitor do BE, não espero nem pretendo que o grupo parlamentar vote com o PS se este continuar a voltar as costas à esquerda, sobretudo nas questões económicas e laborais. Era hipotecar um compromisso. concordo com a maioria das suas críticas ao consulado Sócrates, mas pelo contrário espero que seja penalizado e chefie um governo minoritário, perfeitamente viável mediante discussão, uma enorme falha neste governo.

se bem que o fantasma MFL seja um risco para o futuro do país. e não julgo hiperbolizar

no name disse...

joão, nota que as leis do tabaco e do "pão sem sal" (ambas, devo dizer, que apoio a 100% --- uma por ligar à saúde pública "dos outros", a outra por ligar à saúde pública das crianças) têm origem em directivas europeias. "culpar" o PS por isso parece-me excessivo. a compração com a cannabis também: não me parece que se queira legalizar a cannabis para consumo em restaurantes e cafés com autocolante azul, mas sim para consumo privado...

manuel bessa disse...

Enfim, terão o que merecem, e eu terei aquilo para que nada contribuí. Direita por direita, que venha a Manuela. Espanta-me como se passa uma esponja sobre o mais desastroso dos governos e mais à direita que o próprio PSD, com os mesmos e piores males. Fico de boca aberta com tamanha ignorância política.

Filipe Castro disse...

Este governo não foi à direita do do PP/PSD!! As primeiras medidas que o Portas e o Barroso tomaram foram acabar com o imposto sucessório e destruir o rendimento mínimo garantido. Eu também acho que o Sócratas é um centrista sem vergonha, mas compará-lo com a Manuela é um exagero bíblico.

Filipe

João Vasco disse...

Ricardo Shiapa:

Não sou fumador. Por isso percebo perfeitamente que quanto ao tabaco ele deve ser probido em edifícios públicos - tribunais, escolas, etc...

Mas um establecimento comercial é diferente. Quem vai a uma coffee shop, vai porque quer. Quem vai ver filmes pornográficos vai porque quer. Quem vai a uma discoteca vai porque quer. Nenhuma destas três coisas é um direito fundamental. Todas elas são serviços que podem ser prestados livremente e, podemos usufruir livremente.
Não faz sentido passar uma lei a dizer que as discotecas devem ter bom gosto, ou música de qualidade. A discoteca tem a música que o dono escolhe, e os clientes são livres de frequentar ou não.
Não faz sentido um cliente dizer "enquanto não existir uma lei que obrigue as discotecas a ter boa música, sou obrigado a ouvir música de treta".

O mesmo acontece com as coffee shops em Amesterdão. Têm fumo de Canabis, e isso pode fazer mal à saúde. Mas não faria sentido proibir o fumo nesses estabelecimento a pensar em que não o quer apanhar. Quem não o quer apanhar não vai lá.

E o mesmo se aplica ao tabaco. Se eu tiver um estabelecimento e estabelecer a regra "aqui fuma-se" só lá vai quem quer. Não invado a liberdade de ninguém. Se os não fumadores se recusarem a ir a sítios onde se fume, vão logo aparecer montes de cafés onde é proibido fumar.

Se os não fumadores não fazem isso, o problema é nosso e não dos cafés.

Impedir os fumadores de terem os seus espaços COMERCIAIS, onde ninguém entra obrigado, parece-me disparatado.

João Vasco disse...

Quanto ao sal, a desculpa é essa? As crianças? Não sabia!

Espero que agora proibam também a Coca Cola, os chocolates, os rebuçados, a comida de plástico, McDonalds e tudo isso.

As crianças vão ficar protegidíssimas dos diabetes, a hipertensão e tudo mais, e nós também.

A liberdade individual terá morrido pelo caminho, mas uns anitos de aumento na esperança de vida terão justificado isso.


Por fim, existem directivas comunitárias. Mas pode existir mais ou menos zelo na forma como elas são transcritas para a legislação nacional.
Certamente a UE não impede os portugueses de comerem pão com sal a mais.

Ricardo Alves disse...

Um texto equilibrado, João Vasco.

Mas realmente as «limitações às liberdades individuais» que referes são resultado de directivas europeias. E a União Europeia é o grande tabu do regime actual: ninguém discute porque lá estamos, como lá estamos, se aceitamos tudo acriticamente, se queremos alterar o rumo do bicho, etc. Aliás, um dos meus grandes problemas com a legislatura que agora termina, e com o PS em particular, é terem recuado na promessa de um referendo sobre o Tratado de Lisboa. Só por si, é razão suficiente para não apelar ao voto no PS (mesmo que o faça).

A legislação do tabaco não é rigorosamente aplicada fora dos grandes centros urbanos. E mesmo nos centros urbanos, há espaços para fumadores. E, tal como o pão no sal, não é um problema de liberdades fundamentais. Muito mais grave, ao nível das liberdades fundamentais, é a generalização das escutas telefónicas sem mandado judicial e a concentração das polícias sob a tutela directa do Primeiro Ministro.

Enfim, talvez escreva um artigo a explicar porque não apelo ao voto (em ninguém).

P.S. Atenção ao género da pessoa responsável pela Ciência no Executivo anterior.

João Vasco disse...

Ricardo:

«Atenção ao género da pessoa responsável pela Ciência no Executivo anterior»

Referia-me ao Pedro Lynce e não à Maria de Graça Carvalho (que apesar de tudo foi melhor ministra que quem lhe antecedeu).

Quanto ao que dizes sobre as escutas telefónicas, de acordo. E sobre o "grande tabu", enfim os partidos à esquerda do PS discutem-no, como antes discutia o PP (agora estão "euro-calmos"). Mas para o centrão é mesmo um tabu.

João Vasco disse...

«Espanta-me como se passa uma esponja sobre o mais desastroso dos governos e mais à direita que o próprio PSD»

Não foi.

Não foi à diretita do PSD por três razões muito importantes:

a) As desigualdades sociais diminuiram. Nos governos PSD aumentaram. Isto não são opiniões infundamentadas. São aquilo que os indicadores mostram.

b) O PS não quer acabar com o SNS, e não propôs que se privatizasse a segurança social.

c) O aborto já não é crime, e a discussão sobre o casamento civíl vai começar.

Na legislação laboral, há aspectos em que se foi mais à direita do que o código Félix, e outros em que pelo contrário. No geral, o actual código não é mais à direita que o anterior. Mas - tenho de reconhecer - não é menos.

Em todos os outros aspectos o PS esteve à equerda do PSD.


É verdade que o Sócrates é quase igual à Manuela.
Mas o partido do Sócrates puxa-o para a esquerda (não foi ele que quis demitir o ministro da saúde...), e o partido da Manuela puxa-a para a direita. E isso faz bastante diferença.

Ludwig Krippahl disse...

João Vasco,

Penso que a falha no teu raciocínio é não considerares que, pela forma como os votos estão contados, não se elege apenas o governo. Elege-se a oposição também.

Aos restantes, acho que o João tem alguma razão em responsabilizar o governo pelas directivas europeias -- se bem que não necessariamente este governo -- porque estas são decididas principalmente pelos governos dos países da união, no conselho de ministros.

Por isso penso que há quatro coisas a considerar nestas eleições. O governo, por extensão a nossa representação na união europeia, a oposição nacional e o tipo de políticas às quais os partidos vão prestar mais atenção no futuro próximo.

Dada a fraca qualidade de opções para as duas primeiras, eu tenciono basear a minha decisão nas duas últimas...

João Vasco disse...

Ludwig:

Não há falha nesse ponto, porque eu tomei isso em consideração.

Na verdade, acredito que é o facto de não poderem num futuro próximo ser parte de qualquer governo que a oposição vinda por parte dos partidos à esquerda do PS tem sido tão má. Nesse aspecto tenho pena porque quando fazem críticas justas elas perdem-se no meio de tanta demagogia que não existiria se a possibilidade de governarem fosse real.

Alguém resumiu o debate do Louçã com o Jerónimo assim:

«O governo devia aumentar os ordenados, baixar as propinas, reforçar as pensões, eliminar os impostos, não avaliar os professores, reduzir o número de alunos por turma, aumentar o número de professores por escola, acabar com as taxas moderadoras, proibir os despedimentos, extinguir o deficit, suprimir o desemprego»

E a descrição não me parece assim tão exagerada (a não ser na parte dos impostos e deficit, onde a demagogia é mais por omissão).

Gostava que às críticas estivessem associadas propostas mais realistas, e aquilo que critiquei neste texto no BE era algo que também faria do BE melhor oposição dessa experiência governativa em diante.

João Vasco disse...

Mas a qualidade da oposição é para mim algo muito relevante.

Quando eu voto considero todas as opções ao meu dispor, desde o voto em branco ao PH.

Aliás, percebi perfeitamente o balancear a que te referias no post que escreveste, identificando-me com muito daquilo que estava lá escrito. E não foi por acaso que votei BE nas europeias.

Mas agora estou mesmo com medo de um governo da Manuela. Medo.