quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O sucesso dos mercados...

Não sei porquê, há uns dias dei comigo a ouvir um jornalista inglês – completamente idiota – a apertar o Alain Badiou por causa do livro dele sobre o Sarkozi.  A parte da conversa que eu ouvi era a propósito das intenções do Sarkozi, de reduzir o estado social e aproximar a França do modelo anglo-saxónico: um país onde os cidadãos são a primeira prioridade é muito menos funcional e muito menos eficiente do que um país onde a liberdade dos mercados é a prioridade, etc.  A conversa do costume.

Fiquei a pensar em todos os meus amigos que acham que eu tenho imensa sorte de ser prof. universitário nos EUA, sempre a ser aumentado por mérito, sempre com incentivos e meios para melhorar o meu desempenho, sempre tratado com imparcialidade absoluta.  A universidade está sempre pronta a pagar seminários e cursos a quem se interessa, os deões organizam conversas sobre temas importantes quase todos os meses, e há sempre conferencistas a falarem de qualquer coisa num departamento ou noutro.  Ninguém acima de mim se interessa se eu sou de esquerda, ou ateu, se tenho sotaque, se tenho a pele mais escura, se venho dum país pobre, se obrigo os alunos a lerem textos do Howard Zinn, ou se digo mal do governador (que é o meu patrão) no facebook.

Tudo isto é verdade, mas o fascínio dos europeus com a América e o sistema económico e social americano deixa-me sempre deprimido. 

Não deve haver um país mais infeliz no mundo.  Trabalhar sem rede e saber que não há simpatia nem solidariedade para quem tropeça e cai é horrível.  Ninguém fala nisto, mas todos sabem e quando alguém cai todos vão dar um pontapé. 

A principal razão dos tiroteios quase quotidianos em locais públicos é esta ansiedade permanente.  Os americanos são extremamente ansiosos e vivem a vida inteira com medo do futuro (e dos árabes e das abelhas assassinas e dos zombies: o medo aqui é uma indústria).  Newt Gingrich disse que o vigor da economia americana é o medo que os americanos têm de perder o emprego.

A quantidade de pessoas que nos EUA tomam remédios para depressões e ansiedades é incrível.  Os americanos são 4% da população do planeta e consomem 80% dos narcóticos legais (receitados por médicos).  Os EUA são o primeiro país do mundo no consumo de drogas ilegais e décimo no consumo de álcool.  Em 2005 um estudo determinou que “one-quarter of all Americans met the criteria for having a mental illness within the past year, and fully a quarter of those had a ‘serious’ disorder that significantly disrupted their ability to function day-to-day.”  Ou seja, um em cada oito americanos.  Os EUA são o país do mundo com mais doentes mentais.  

Nos EUA não há licença de maternidade.  As mães dão à luz, tiram uns dias de doença, não pagos, e voltam para o trabalho.  Esta é provavelmente uma das razões pelas quais os americanos não gostam de contacto físico.  Os antropólogos dizem que os americanos não têm uma barreira entre o afeto e a sexualidade.  Todo o contacto aqui tem uma conotação sexual.  Claro que há aqui uma componente puritana, mas a cultura americana foi largamente moldada pelas necessidades dos empregadores. 

Como dizia Adam Smith (The Wealth of Nations, Ch. 8, p. 721): “It cannot be very difficult to determine who have been the contrivers of this whole mercantile system; not the consumers, we may believe, whose interest has been entirely neglected; but the producers, whose interests has been so carefully attended to; and among this later class our merchants and manufactures have been by far the principal architects. In the mercantile regulations, which have been taken notice of in this chapter, the interest of our manufacturers has been most peculiarly attended to; and the interest, not so much of the consumers, as that of some other sets of producers, has been sacrificed to it.”

O sucesso económico dos EUA tem um preço.  O suicídio é a décima causa de morte, e o homicídio fica normalmente entre a décima terceira e a décima quinta.  Um em cada quatro americanos sofre de ansiedade ou depressão.  O consumo de drogas, legais ou ilegais, é absurdo.  O consumo de comida (e doces) inacreditável.


Os EUA são um país de cidadãos submissos (patriotas!), que não questionam a ordem estabelecida, acreditam que as ordens são sempre justas se vêm de cima, e que a felicidade (que aqui quer dizer "abundância") se ganha com trabalho árduo.  Quem não é "feliz" é estúpido ou preguiçoso e não merece respeito.

3 comentários :

  1. Nunca vi uma pessoa que vive nos EUA conhecer tão mal a realidade à sua volta. Se fosse um depoimento do Renato Seabra (preso por 25 anos no norte do Estado de New York) ainda se compreendia...

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    1. Pronto: se calhar já tinha visto tudo, só lhe faltava ver isto. Os jornalistas portugueses sabem sempre tudo muito melhor, sobretudo quando se trata da América que, como toda a gente sabe, é Nova Iorque e Hollywood.

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    2. Ai sim? Então explicite lá, e enumere, os pontos em que Filipe Castro está errado. Demore o tempo que for preciso, que a gente espera enquanto você puxa pelo bestunto. Também pode ir fazer alguma pesquisa à procura de factos em que se possa basear, mas não lhe auguro êxito: os que existem dão razão ao Filipe.

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