sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Diário Ateísta reloaded

O Diário Ateísta, depois de uma fase em que foi quase exclusivamente editado pelo Carlos Esperança, vai reagrupar vários dos seus ex-redactores que entretanto se tinham dispersado por várias paragens da blogo-esfera (e também mais alguns que nunca lá tinham escrito). Voltam a Palmira Silva, o Ludwig Krippahl e o Luís Grave Rodrigues, entra também o Raul Pereira.
Uma nova aurora na luta pelo ateísmo em filosofia, pela laicidade em política e pela ciência enquanto método para estudar a realidade.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Aquecimento Global

Uma perspectiva geral, séria e justa sobre o debate científico relacionado com as causas do aquecimento global. Quer para proponentes, quer para detractores da teoria dominante, estes videos do youtube são profundamente esclarecedores.

Vale a pena vê-los do início ao fim (cada um tem cerca de 10 minutos):





Nota: para quem tiver mais tempo, vale muito a pena ver outros videos do mesmo autor.

Discutir com católicos

Há muitos católicos com quem é fácil discutir. Não digo que essas discussões sirvam de alguma coisa no sentido em que alguém acabe por mudar a posição que tinha a respeito de um determinado assunto, mas pelo menos cada um dos intervenientes cmpreenderá melhor a forma de pensar do outro, e as razões que - mal ou bem - o levam a ter determinada posição. Por vezes essas discussões entram num ciclo em que argumentos já repetidos começam a ser utilizados, e fica a sensação que argumentos que nós próprios repetimos afinal não foram entendidos, bem como a sensação que o outro lado sente o mesmo. Mas, aparte desta frustração, existe um respeito mútuo, não tanto pela posição do outro, mas pela pessoa do outro - que é o importante. As boas maneiras caracterizam o debate, e o insulto fica de fora.

Há outros católicos (apesar de tudo não são muitos) com quem é difícil discutir. Não apenas porque não entendem os argumentos que utilizamos, mas principalmente porque confundem argumentar com insultar. Não nego que também haverá ateus assim, mas com esses nunca discuti religião.

Às vezes lembro-me daquilo que me disseram: «um imbecil faz a discussão descer de nível, para depois ganhar por experiência». Em vez de descer o nível, faço um comentário sobre a postura daquele que prefere os insultos aos argumentos, e daí não saio.

Outras vezes, infelizmente, esqueço-me dessas sábias palavras e não resisto a responder na mesma moeda. Assim, se as palavras do meu interlucutor, mesmo que ocupem um parágrafo ou dois e contenham vestígios de riqueza gramatical e vocabular, se resumem ao infantil «Os ateus são parvos, la!la!la!la!», posso ser tentado a retorquir por outras palavras algo como «os católicos são parvos, la!la!la!la!la!». E isto é idiota na medida em que eu nem sequer acredito nisso.

Acredito que muitos católicos, e isto inclui alguns padres, não são parvos, podem até ser brilhantes. E são pessoas tolerantes e boas. No momento em que escrevo estas linhas estou a lembrar-me de um padre em particular, bem como cerca de 10 pessoas que conheci mais de perto (entre familiares e amigos).

Não me interpretem mal: continuarei a discordar dessas pessoas na medida em que acredito que a Igreja Católica tem hoje um impacto negativo na sociedade. Continuo a acreditar que o catolicismo é uma crença errada, não menos disparatada que outras crenças que a nossa sociedade considera ridículas. Continuo a acreditar que as crenças católicas desencorajam em alguma medida a tolerância, e em maior medida o espírito crítico. Isto não é o mesmo que dizer que nenhum católico é tolerante (ver parágrafo acima) ou sequer que qualquer católico seria mais tolerante fora do catolicismo. Acredito que algumas pessoas tolerantes podem ver no catolicismo uma boa justificação da sua tolerância, e por isso esta crença religiosa pode contribuir para que a aprofundem. Mas, como creio que a Bíblia é mais facilmente interpretável de outra forma, percebo que seja mais comum a situação oposta - um intolerante encontra no catolicismo a legitimação da sua intolerância, e assim manifesta-a e aprofunda-a devido à sua religião. Já no que respeita ao espírito crítico, creio que podem existir católicos com muito espírito crítico, mas ninguém o desenvolve devido ao catolicismo. Já o oposto é possível.

Clarificando a minha posição - a de que existem pessoas boas e más entre católicos e ateus, pessoas brilhantes e burras entre católicos e ateus, pessoas tolerantes e intolerantes entre católicos e ateus; a de que apesar de acreditar que a Igreja e a crença católica tem um impacto negativo na sociedade, e que o catolicismo é epistemologicamente equiparável a outras crenças que (mal ou bem) não encontram grande respeito por parte da nossa sociedade, é possível ter uma discussão civilizada com alguns católicos, em que cada um dos intervenientes compreenda melhor as posições do outro - serve este texto para reforçar a minha intenção de não «chafurdar na lama» quando algum crente mais boçal começar a insultar o ateísmo e os ateus sem apresentar qualquer vestígio de argumentação.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

God is Not Great

Comecei ontem a ler este livro formidável de Christopher Hitchens, que devia ser obrigatório nas escolas, a par com as aulas de religião. Eu julgava que tinha uma boa ideia sobre a violência disfuncional das religiões e as situações horríveis que a superstição propicia.

Mas este livro é eloquente. Filho de um pai baptista e de uma mãe judia, ambos apostatas, e educado anglicano (acho eu), Christopher Hitchens conta-nos histórias horríveis de ódio e supertição, doenças e práticas médicas e dietas absolutamente idiotas, inspiradas por ideias infantis de pureza, muitas vezes com resultados letais. Os Jeovás e as transfusões, por exemplo, ou a circuncisão feminina entre muçulmanos, ou a prática de alguns judeus ortodoxos que retiram o prepúcio às criancas com a boca, provocando infecções e herpes entre as crianças em quem estas mutilações medievais são praticadas.

Ainda só li 3 capítulos e já tenho pena de não ter tempo para copiar para este blog várias páginas. "God is not Great" é um livro obrigatório.

Paul Kurtz:«Belief in God Essential for Moral Virtue?»

«A growing sector of world civilization is secular; that is, it emphasizes worldly rather than religious values. This is especially true of Europe, which is widely considered post-religious and post-Christian (with a small Islamic minority). (...)
Secularists recognize the centrality of self-interest. Every individual needs to be concerned with his or her own health, well-being, and career. But self-interest can be enlightened. This involves recognition that we have responsibilities to others. (...)

###
However, there is now substantial evidence drawn from evolutionary biology that humans possess a moral sense (see Marc Hauser, Steven Pinker, and David Sloan Wilson). Morality has its roots in group survival; the moral practices that evolved enabled tribes or clans to survive and function. This means that human beings are potentially moral. Whether or not this moral sense develops depends on social and environmental conditions. Some individuals may never fully develop morally--they may be morally handicapped, even sociopaths. That is one reason why society needs to enact laws to protect itself.
There is also of course cultural relativity, but there are, I submit, also a set of common moral decencies that cut across cultures--such as being truthful, honest, keeping promises, being dependable and responsible, avoiding cruelty, etc., and these in time become widely recognized as binding. Herein lie the roots of empathy and caring for other human and sentient beings. Such behavior needs to be nourished in the young by means of moral education. In any case, human beings are capable of both self-interested and altruistic behavior in varying degrees.
Secular humanists wish to test ethical principles in the light of their consequences, and they advise the use of rational inquiry to frame moral judgments. They also appreciate the fact that some principles are so important that they should not be easily sacrificed to achieve one's ends.
To say that a person is moral only if he or she obeys God's commandments--out of fear or love or God or a desire for salvation--is hardly adequate. Ethical principles need to be internalized, rooted in reason and compassion. The ethics of secularism is autonomous, in the sense that it need not be derived from theological grounds. Secular humanists are interested in enhancing the good life both for the individual and society.
(...)» (Paul Kurtz)

Escândalo BPN já chegou à Madeira

O escândalo BPN, onde já saltaram os nomes grandes do cavaquismo, chegou agora à Madeira. Descobriu-se também que a campanha presidencial de Cavaco foi financiada com 100 mil euros dos senhores deste banco que se enganava, quase sistematicamente, nos valores correctos das vendas que fazia:
  • «A ERGI foi vendida em Dezembro de 2006 ao grupo brasileiro WTorre, por 135 milhões de euros. Mas no relatório e contas desse ano, a administração do BPN refere um encaixe de apenas 5,5 milhões de euros com a operação, o que significa que os restantes 129,5 milhões de euros não foram incluídos nas contas do banco.» (Público)

A imaginação voa quando se põe a pensar onde foi parar tanta bagalhoça... Projectos caritativos, sem dúvida.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Democracia

Paul Krugman: "Middle class America [c. 1935-1975]: That’s the country I grew up in. It was a society without extremes of wealth or poverty, a society of broadly shared prosperity, partly because strong unions, a high minimum wage, and a progressive tax system helped limit inequality."

Foi esta sociedade que colocou um homem na Lua, impugnou um presidente escroque, inventou o rock'n'roll, reinventou o cinema, implementou o Plano Marshall e inspirou o Civil Rights Movement.

E isto no contexto da Guerra Fria, contra o poder da enorme do KGB, da American Legion e do KKK, e apesar das barbaridades que a direita cometeu ou instigou na América Latina, da Guerra do Vietnam e dos assassinatos de John e Robert Kennedy, e de Martin Luther Ling.

Durante 40 anos a América foi um dos países mais justos e mais dinâmicos do mundo, com uma mobilidade social extraodinária (a GI Bill). E é em parte essa memória que faz os americanos tão optimistas e quase completamente destituídos de cinismo. Aqui as coisas mudam muito depressa e nem sempre para pior :o)

domingo, 23 de novembro de 2008

Segurança Social

Uma das razões pelas quais a direita se encarniça na luta pela destruição da segurança social é muito simples: os trabalhadores que gozam de regalias sociais tendem a votar na esquerda. Um dos think tanks da extema-direita aqui nos EUA (o Cato Institute) avisou que se Obama conseguir passar um plano de segurança social o Partido Republicano pode sofrer um enorme revés.

Para a direita a religião é um factor fundamental, que permite manter as massas ocupadas com assuntos como o aborto ou o casamento gay, em vez de as deixar considerar as oportunidades que uma distribuição justa da riqueza proporcionariam ao mundo.

Uma das primeiras coisas que Bush fez em 2001 foi transferir o apoio social para organizações religiosas. A outra prioridade na cartilha da direita é desbaratar as finanças públicas para não haver dinheiro para a solidariedade social (small government, como eles dizem). Mas vale a pena ler a opinião do sr. Cannon:

Blocking Obama’s Health Plan Is Key to the GOP’s Survival

Ditto Baucus’ health plan. And Kennedy’s. And Wyden’s.

Why? Norman Markowitz, a contributing editor at PoliticalAffairs.net (motto: “Marxist Thought Online”), makes an interesting point about how making citizens dependent on the government for their medical care can change the fates of political parties:

A “single payer” national health system – known as “socialized medicine” in the rest of the developed world – should be an essential part of the change that the core constituencies which elected Obama desperately need. Britain serves as an important political lesson for strategists. After the Labor Party established the National Health Service after World War II, supposedly conservative workers and low-income people under religious and other influences who tended to support the Conservatives were much more likely to vote for the Labor Party…

I’m no student of British history, but that sounds about right. Markowitz continues:

The best way to win over the the portion of the working class in the South or the West that supported McCain and the Republicans is to create important new public programs and improve the social safety net. National health care [and other measures] will bring reluctant voters into the Obama coalition. That is how progress works.

Republicans might want to take note.

(Anyone who thinks that Obama’s plan is not socialized medicine should read this.)