É, na minha opinião, o que melhor separa a esquerda e a direita. O valor que é dado à propriedade privada, a protecção que se pensa que esta merece.
Quem vê a propriedade privada como um valor absoluto não tem problemas em considerá-la uma extensão do indivíduo tão válida quanto o mesmo. Furtar algo a alguém não será fundamentalmente diferente de uma agressão física a essa pessoa, visto que um ataque à sua propriedade é um ataque a si própria. E isto é afirmado sem vergonha, como se fosse natural equiparar uma pessoa às suas posses.
Que não me revejo nesta visão é tão óbvio quanto o facto de escrever neste espaço.
Também não me revejo no extremo oposto. Acredito que deve existir, e merecer alguma protecção, propriedade privada. Passo a explicar porquê.
Os seres humanos em geral são algo egoístas, e algo altruístas - uns mais do que outros. O "algo egoístas" é suficiente para que fenómenos como a "
tragédia dos comuns" tenham uma importância social muito grande.
Se a propriedade for partilhada, e as opções forem livres, a prosperidade será diminuta. Existirá pouca motivação para trabalhar, visto que aquilo de que se usufrui depende pouco do esforço e dos sacrifícios feitos.
Por isto só foram viáveis sociedades com propriedade quase totalmente partilhada quando as opções individuais deixaram de ser livres.
O que se passou na Rússia, na China, na Coreia, em Cuba, etc.. não foi um acidente. A ditadura não foi uma subversão infeliz dos ideais marxistas. Foi uma consequência natural da partilha da propriedade, sendo a sua alternativa a insolvência do regime.
Se as pessoas não são obrigadas a trabalhar, e aquilo que recebem não vai depender do seu esforço, muito poucas vão esforçar-se devidamente, passado o
estado nascente (que explica o sucesso das comunidades
Anarquistas na catalunha durante a guerra civíl espanhola).
Para muitos o exemplo da URSS não é mais do que aquilo que precisam para afirmar o capitalismo selvagem como superior à "esquerda". Tosca argumentação.
Em primeiro lugar porque esquece as inúmeras possibilidades políticas que existem entre os dois extremos. Isto é tanto mais cómico quanto todos os regimes políticos europeus se situam confortavelmente longe desses extremos (mesmo que caminhando em direcção a um deles com passos
preocupantemente largos).
Em segundo lugar porque a comparação entre os extremos não é assim tão favorável ao capitalismo selvagem. Sim, a URSS era horrível, a ditadura, a opressão e o diabo. Mas a Rússia de Ieltsin que se seguiu não foi muito melhor. A miséria, a insegurança, a injustiça... É uma comparação interessante porque ao invés de comparar duas sociedades diferentes, comparam-se dois momentos no tempo, não assim tão distantes.
Para quem tem barriga cheia, a escolha pode parecer fácil. Liberdade, claro! Mas é difícil usufruir da liberdade com a barriga vazia e medo das máfias ao lado, e os russos parecem não ter achado assim tanta piada ao "mercado livre". Aos poucos e poucos o regime vai ficando cada vez mais parecido com o que era antes da Perestroika. E entre os russos parecem haver mais aplausos que assobios.
Longe de mim defender Putin e a sua cleptocracia opressora. E muito menos o imperalismo soviético anterior à queda do muro. Apenas quero deixar claro que, se limitarmos as nossas opções aos extremos (em si simplista e infantil), o extremo da esquerda não fica a perder. E nem preciso de chamar Pinochets ou Mussolinis ao barulho.