terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Revista de blogues (4/12/2007)

  1. «Será que entendo bem a democracia portuguesa quando acho que existe uma separação entre o poder politico e o judicial, que quem manda fazer as escutas é o poder judicial, ou seja, um juiz... mas quem autoriza é o poder politico, ou seja, o primeiro-ministro!? O PGR diz não ter controlo sobre as escutas. O Governo avança entretanto com a ideia de autorizar o SIS, a secreta lusa, a fazer escutas telefónicas... continuamos a falar de separação de poderes!? O Governo do Zé diz que é preciso mais equilíbrio, que não pode ficar só nas mãos dos juízes o poder das escutas. É para o bem da segurança nacional, contra o terrorismo e tal...» («O SIS à escuta, ruídos no telefone do Procurador-Geral e os detectives privados da judite», no Posso falar?)
  2. «Resta-nos saber, a nós, cidadãos comuns, quem controlará essas escutas, quem controlará o SIS, quem controlará os abusos, que de uma forma ou outra, acabarão por surgir? Mas o pior ainda está para vir, pois sobre o mesmo ideal, que era em defesa do estado a PIDE/DGS, tinha livre arbítrio para decidir quem prender, quem torturar, quem manchar o nome, enfim, tinha a faca e o queijo, com a conivência claro está do estadista, esse iluminado que deixou Portugal atrasado em mais de quarenta e tal anos. Não posso, deixar de me manifestar contra aquilo a que sob o pretexto de que Portugal estará sob ameaça Terrorista, o SIS, ou outro organismo qualquer, a vigiar o que dizemos ou sequer pensámos.» («SIS, e as escutas», no Democracia em Portugal?)

Rumo ao Estado policial?

Escutar as conversas telefónicas de quem não cometeu crime algum é violar a privacidade alheia. É uma prática própria de Estados totalitários e de mentes doentes, perversas e mesquinhas. Infelizmente, alegando o perigo vago de atentados terrroristas, vai-se generalizando em Portugal a defesa da legalização das escutas efectuadas pelos serviços de informações (SIS e SIRP). Alberto Costa é quem mais se tem destacado na presente campanha pela redução da esfera de privacidade dos cidadãos, ao ponto de defender a revisão da Constituição da República.
Estas medidas começam sempre numa atmosfera de esplêndido consenso. Actualmente, o pretexto é o terrorismo islamista. Mas, não nos enganemos: se cair a protecção constitucional ao direito dos cidadãos a não terem as suas conversas escutadas, não serão apenas os dois membros da Al-Qaeda que se cruzam em Portugal a serem escutados. Logo a seguir serão os da ETA, depois os dirigentes sindicais ou associativos e, no limite, os líderes da oposição ou qualquer desgraçado que se atravesse no caminho de um agente do SIS.
«Artigo 34.º (Inviolabilidade do domicílio e da correspondência)
1. O domicílio e o sigilo da correspondência e dos outros meios de comunicação privada são invioláveis.
(...)
4. É proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal.»
A História mostra que quando o Estado invade a esfera privada dos cidadãos, é necessário retirá-lo de lá pela força. Portanto, é melhor deixarem o artigo 34º como está.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Corolário

Só para ilustrar o meu texto: a propaganda vendida aos cidadãos sob a forma de 'documentário'. Depois daquele memo o mundo nunca mais foi o mesmo.

O memo de Lewis Powell

Há dois anos escrevi isto no meu blog, mas como acho que alguns dos leitores do R&L não leram, aqui vai, pela actualidade e relevância (acho eu):

Há muitos anos – nos anos 80 – ouvi Gore Vidal referir pela primeira vez este memorando e as consequências que ele trouxe para a ordem económica e política mundial.

Perante a revolta geral contra o capitalismo selvagem da Guerra Fria e os crimes perpetrados pelo governo americano em defesa dos interesses das grandes empresas na América Latina, a guerra do Vietnam, etc., a direita percebeu que a guerra ideológica podia estar perdida. Lewis Powell escreveu isto em 1970:

“The most disquieting voices joining the chorus of criticism come from perfectly respectable elements of society: from the college campus, the pulpit, the media, the intellectual and literary journals, the arts and sciences, and from politicians.”

Perante esta situação de descrédito geral da direita e do sistema capitalista o Juiz do Supremo Lewis Powell avançou propostas muito concretas no célebre memorando:

“Business pays hundreds of millions of dollars to the media for advertisements. Most of this supports specific products; much of it supports institutional image making; and some fraction of it does support the system. But the latter has been more or less tangential, and rarely part of a sustained, major effort to inform and enlighten the American people.”

ou

“Under our constitutional system, especially with an activist-minded Supreme Court, the judiciary may be the most important instrument for social, economic and political change.”

Vale a pena ler. E vale a pena ler o balanço feito 35 anos depois por George Lakoff da Universidade de Berkeley.

A resposta da direita incrivelmente eficaz: criaram-se fundações para financiar posições específicas para professores de direita nas melhores universidades, para financiar “think tanks” e especialistas de marketing, para financiar campanhas publicitárias, editoras, rádios, jornais e televisões. Pouco a pouco, utilizando técnicas de propaganda milenárias (repetição, “framing”, etc.), a direita foi acusando os campus universitários, as editoras, os jornalistas e os políticos de simpatias esquerdistas inaceitáveis e conquistando posições, uma após outra. Enquanto que o número de professores universitários de esquerda se mantem firme fora das escolas de economia e gestão, o número de jornalistas com cursos superiores diminuiu constantemete desde os anos setenta até hoje. Hoje seria impensável um escândalo como o de Watergate. Em vez disso, entre 1996 e 2000, assistimos ao escândalo inaudito da perseguição dos media ao presidente Clinton.

Memorial ao massacre de 1506

A Câmara Municipal de Lisboa tem protelado a votação do projecto de memorial ao massacre de 1506 (cerca de 3000 mortos em três dias, vítimas da intolerância anti-judaica e de uma multidão acicatada por frades e marinheiros estrangeiros). Está a correr uma petição para que a CML não esqueça o projecto (assinar aqui).

Pessoalmente, considero que seria da maior importância que o pior massacre por razões religiosas que teve lugar em Portugal fosse assinalado por um memorial no local devido (o Largo de S. Domingos, onde tudo começou). Espero que o projecto não seja apropriado por nenhuma confissão religiosa ou grupo de confissões religiosas, e que celebre os valores que permitem a convivência entre todos os cidadãos: tolerância e laicidade.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Os media

Os media são um circo e os jornalistas são meros palhaços, contratados para dizerem e escreverem o que os donos deles quiserem: o terrorismo, a febre aviária, etc.

Mas há uma coisa que me faz pena. Quando eu vou fazer ginástica há seis ecrans na parede e eu gosto de ver, sem som, as expressões e os esgares deles.

Admito que alguns são bovinos e contentinhos, e nunca se questionaram na vida: há quatro anos repetiam as mentiras da Casa Branca sobre as WMDs com o mesmo entusiasmo com que hoje dizem que Bush é um mentiroso e um incompetente.

Mas às vezes vê-se uma centelha de inteligência nos olhos deles e percebe-se que eles têm consciência de se estarem a prostituir. E eu fico a pensar nos calos que eles devem desenvolver e nas justificações que eles devem dar uns aos outros por se andarem a vender.

Anormais

Eu não sei se as outras pessoas são assim, mas eu sinto uma certa volúpia a ver os anormais da extrema-direita no Youtube. Bill Hicks dizia que era como se quando tivessemos uma dor de dentes não conseguissemos deixar o dente em paz, e fossemos lá com a língua a toda a hora.

Mas ontem estive uma hora inteira no Youtube a ver clips com a Ann Coulter, o Sean Hannity, o Bill O'Reilly, o Rush Limbaugh e o Dennis Miller, esse comediante sem talento, que só tem emprego porque é de extrema-direita.

Inacreditável! Na I Guerra Mundial os americanos fizeram testes de QI aos soldados e descobriram que quase metade da população (48.75%) tinha uma idade mental de 12 aos ou menos. Ideias como a Reader's Digest partiram desta constatação quase imediatamente: os atrasados mentais são um mercado giganstesco!

E estes comentadores políticos são o produto de uma ideia ainda mais perversa (que explorar económicamente os anormais): usar os anormais para fins políticos.

A frase do jovem Bush, que na campanha eleitoral do pai disse a um assistente que se podia ganhar as eleições só com o voto dos evangélicos, é isto mesmo. Estes anormais (Coulter, Hannity, Miller, etc.) são empregados pelos oligarcas para reforçarem as convicções imbecis da populaça na rádio e na televisão. Todos os dias, todo o dia.

Isto é que é o "mundo livre" dos neocons.

Bentinho, Bentinho...

Li esta semana no Monde que o papa emitiu uma fatwah contra os ateus.

Eu acho que ele não se devia meter connosco. Devia ir discutir com os judeus e os muçulmanos e os hindus, contarem as superstições pessoais uns aos outros, discutirem quais é que são os deuses que lavam mais branco, etc.

E deixarem as pessoas com uma idade mental superior a 12 anos em paz. :o)