quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Revista de blogues (19/1/2005)

  1. «A Marca do Z», no umblogsobrekleist.
  2. «Presidenciais pobrezinhas» e «Há 4 anos sem aumento», no Klepsydra.
  3. «Sabedoria Popular», n´O Franco Atirador.
  4. Os candidatos à eleição presidencial (Alegre, Soares, Louçã, Jerónimo, Garcia, Cavaco) no Armadilha para ursos conformistas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Shalom Lappin: «How Class Disappeared From Western Politics»

«Recent political developments in Europe and America present two apparent paradoxes. First, much of what remains of the radical left has aligned itself with extreme Islamic political movements that promote the establishment of religious regimes in Asia and Africa, with the ultimate objective of a global caliphate. In Europe a not insignificant part of what currently passes for the liberal left also expresses sympathy for these movements. Second, in the United States, working-class voters consistently and consciously vote against their class interests by supporting conservative Republican politicians whose plutocratic economic policies they reject.
(...)
It is reasonable to conjecture that Marx would have been less than thrilled by the specter of those who claim to be his political heirs serving as junior partners in a campaign to establish the sort of reactionary anti-Western social order whose demise he celebrated as the main achievement of colonialism. How did we arrive at this state of affairs?
(...)
During the cold war the focus of revolutionary politics shifted to anticolonialist movements in the third world, and it was in these postcolonial countries that both the Soviet Union and China increasingly sought to develop a domain of support for their respective conflicts with the West. As the radical left in the West gradually despaired of a workers’ revolution in its home countries, it substituted the anticolonialist movements of the third world for the industrial proletariat as the primary engine of historical change. They endowed the third world with the same intrinsically “progressive” historical role that Marx had previously assigned to the working class, with the entire Western world assuming the role of the capitalist bourgeoisie. Much of the radical left moved away from a politics of class conflict within a society and embraced a global morality play in which the dialectic of progressive and reactionary forces is transposed into a competition between cultures and geopolitical regions. In the course of this move, the radical left exchanged working-class politics for the politics of culture and identity. Marxist theoreticians migrated from political science and economics to cultural studies, where they took up the cause of postmodernist, postcolonial criticism. The assumptions of this school of thought provide the antithesis of the nineteenth-century European notions of modernity and social progress to which Marx was so deeply committed.
(...)
Although using the rhetoric of a workers’ revolution, most of the New Left made no serious attempt to connect with organized labor, which was politically powerful at the time. It did not try to wean working-class voters away from support of the Vietnam War while functioning within the Democratic social and civil rights consensus. Instead, it promoted identification with third world revolutionary movements and dabbled in the counterculture, setting itself against mainstream America. This pattern seriously discredited left-wing politics in the eyes of many working-class voters, who felt the cohesion of their social order under assault in this turbulent period. Liberal fellow travelers compounded the problem by indulging the belligerent posturing of the New Left, frequently adopting it as a fashion statement.
(...)
To renew the social democratic project as a viable political alternative to the neoliberal onslaught, we must reformulate it in international terms to deal with a global market economy. This involves moving beyond the traditional instruments of management offered by the individual nation-state, as these are increasingly limited in their ability to respond to capital mobility.
(...)»

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Veneno puro

No Diário de Notícias de hoje, Santana Lopes ao seu nível habitual: «Um Presidente, um candidato, a verdade».
  • Primeiro, uma promessa ao actual Presidente: «Peço rigor a Jorge Sampaio, a quem, como já disse, por várias vezes, só responderei quando deixar de ser Presidente da República.»
  • Para quem não percebeu, ameaça com indiscrições sobre assuntos de Estado: «[na sua] fotobiografia, o Presidente Jorge Sampaio não conta a sua posição na altura sobre o défice (nomeadamente na reunião que tivemos a 13/10/04 e em que me fiz acompanhar pelo ministro das Finanças).».
  • E já agora, também usa os detalhes da famosa factura: «é também elucidativo o que representa, a nível institucional, a revelação de telefonemas para militantes do PPD/PSD enquanto [Jorge Sampaio] tratava do assunto com Durão Barroso.»
  • Sobre a outra ferida que não cicatrizou: «Reafirmo que devo lealdade ao meu espaço político num período de campanha eleitoral mas também devo fidelidade a mim próprio e à memória do que aconteceu no ano passado. (...) Impus a mim próprio que não falaria sobre o meu voto nas presidenciais. Mas há uma garantia que posso dar: não voto nos adversários do meu espaço político.»
  • E ainda mais claramente: «Não declarei, nem declaro, qualquer apoio a Cavaco Silva. Mas também não o ataquei, nem ataco. Aliás, Cavaco Silva será o primeiro a compreender que se tenha esta posição porque também não declarou qualquer apoio em Fevereiro de 2005.»
  • Os personagens menores só merecem uma nota final: «quando falo saltam as vozes do costume (JPP, ALX, ASL, JPC, entre outros). (...) Só sabem falar do que os outros fazem mas nunca fizeram nada.»
  • Mas ainda não vimos o último acto deste drama: «em política pode morrer-se várias vezes. E, permito-me acrescentar, viver também.»

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

O neo-cavaquismo, ano 2

Na sequência da divulgação do «crescimento negativo» (ou decrescimento positivo) do PIB de 2006, a discussão sobre que parcela da governação cabe a Belém e que parcela cabe a S. Bento agrava-se, e as reuniões entre o Presidente e o Primeiro Ministro atingem as seis horas de duração (nas primeiras ocasiões em que tal acontece, o gabinete do PM chega a dizer que ele já voltou para S. Bento, mas os assessores de Cavaco conduzem as câmaras da SIC a filmar as silhuetas, visíveis atrás das cortinas, de Cavaco -de pé, a falar e com um ponteiro na mão- e de Sócrates -sentado, não se sabe se a escrever ou a dormir).
No dia 5 de Março de 2007, após falar num seminário na Universidade Católica, Cavaco Silva é perguntado sobre a possibilidade de uma guerra contra o Irão. Responde que «Portugal é um país de Paz e nunca entraria em guerra com ninguém (...) aliás, a inflação está muito alta para nos metermos em guerras». Quarenta e três horas depois, George W. Bush faz um ultimato ao Irão para que desista do seu programa nuclear. Ahmadinejadi responde com uma saraivada de perdigotos e citações do aiatolá Khomeini. Quando Sócrates decide seguir a maioria da NATO, a confusão instala-se: as ruas enchem-se de manifestantes liderados por Louçã e Policarpo, Freitas do Amaral demite-se e Cavaco vai ao Vaticano. A guerra do Irão durará quatro meses.
Durante a guerra, Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira, Alberto João Jardim e outras figuras prestigiadas do PSD criticam violentamente Marques Mendes, sem que se perceba muito bem porquê. No entanto, em poucas semanas é convocado um Congresso extraordinário, no qual Luis Filipe Menezes é surpreendentemente eleito presidente do PPD-PSD. No grupo da liderança ficam também Ferreira Leite, António Borges, Isaltino Morais e Valentim Loureiro.
No mês de Maio, Sócrates anuncia, durante uma visita ao Alentejo, que pretende subir as reformas 0,2%. Duas horas depois, à entrada para um colóquio da Gulbenkian, Cavaco diz que «estamos em tempo de vacas magras (...) nem pensar em subir as reformas mais de 0,19%». Sócrates engole em seco e obedece.
Em Junho, Cavaco dá uma entrevista televisiva a Maria João Avillez, na qual, apesar de se afirmar «satisfeito por estar a colocar a [sua] experiência ao serviço de um ajudante de Presidente, como é o Primeiro Ministro», lamenta os «políticos que não gostam de ouvir as pessoas mais velhas e com mais experiência (...) porque depois podem atirar o país para crises graves».
No fim de semana seguinte, num almoço do PS em Carrazeda de Ansiães, Sócrates queixa-se, perante uma plateia de velhotes de boné e de senhoras vestidas de preto que mastigam rissóis, de obscuras «forças do bloqueio» que «não o deixam trabalhar». O Governo termina três dias depois.
Nas eleições legislativas de Setembro de 2007, a coligação entre o PSD e outro partido tem 45% dos votos (110 deputados), a coligação PS/BE fica com 42% (105) e a CDU 9% (15). Numa situação de tremenda ingovernabilidade e efervescência política, ouvem-se gritos de raiva para os lados de Belém e segue-se um mês de conversações de bastidores que terminam num Governo PSD/PS/CDS. O Primeiro Ministro Luis Filipe Menezes tem Teixeira Pinto como Ministro das Finanças, António Borges como Ministro da Economia, Pina Moura como Ministro da Energia e Transportes, Valentim Loureiro na Defesa, Jaime Gama nos Negócios Estrangeiros e Ribeiro e Castro como Ministro da Cultura e Desportos.
Na tomada de posse, o Presidente Cavaco Silva rejubila com este «Governo suprapartidário, (...) sem pressões exteriores de lóbis ou clientelas» e considera-o a prova de que «afinal, os políticos podem cooperar uns com os outros».
(continua)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Cavacolândia, Vol. 1

Na tomada de posse, Cavaco Silva convida o Cardeal Patriarca para se sentar ao seu lado e insere uma fórmula religiosa no juramento da Constituição da República. A comunicação social trata o assunto como mero folclore.
Pouco mais de um mês depois, nas celebrações do 25 de Abril, Cavaco Silva impede que se toque o «Grândola, Vila Morena». Aos que apontam uma contradição com a campanha eleitoral, Cavaco Silva responde, com uma gargalhada, que se trata de uma canção que só faz sentido tocar no concelho alentejano referido no título.
Em Junho de 2006, Cavaco Silva aparece à porta da Vivenda Mariani com um cachecol da selecção da FPP, e berrando «Eu sei que Portugal pode vencer!». Sócrates anuncia imediatamente que concederá tolerância de ponto para cada um dos jogos dos «novos Viriatos». Porém, após a equipa de Scolari e Madaíl perder 1-0 com Angola e empatar sem golos com o Irão, os rumores de que metade da equipa faz excursões nocturnas a Amesterdão avolumam-se. Com o México, a FPF está a perder 3-0 quando se dá a segunda expulsão de um jogador português. O que resta da equipa agarra no árbitro e dá-lhe uma sova. No dia seguinte, os títulos dos jornais desportivos são «Portugal injustiçado» e «Arbitragens estragam Mundial».
Na semana seguinte, a Assembleia da República prepara-se para votar a despenalização do aborto quando o Presidente Cavaco afirma numa entrevista (e num tom agastado) que «as pessoas deviam preocupar-se em ter ideias para novas empresas em vez de se ocuparem de assuntos como esse». Ao contrário do que fora anunciado, o PS abstém-se na votação final.
Durante o Verão, torna-se claro que a Ota e o TGV são «grandes consensos nacionais», como se escreve num editorial do Expresso.
Chegados ao Outono, a Iberdrola alarga a sua influência na EDP. Alguns jornais citam «fontes de Belém» segundo as quais o Presidente estará «irritado» com a «ingenuidade» e a «incompetência» do Governo socialista.
Na mensagem de ano novo de 2007, Cavaco Silva afirma que o Hino Nacional, devido ao seu teor anti-britânico, «dificulta as relações económicas com a Inglaterra», e que portanto nomeou uma comissão para alterá-lo que será constituída por Maria Cavaco Silva, Zita Seabra, Paulo Teixeira Pinto, João Pedro Pais e Nicolau Breyner. Duas semanas depois, no Pavilhão Atlântico, perante uma plateia preenchida por criancinhas que agitam bandeiras verdes e vermelhas sincopadamente, Kátia Guerreiro ataca entusiasticamente as estrofes do «Hino de Portugal»:
Portugal, Nação sob Deus
(Não, não somos ateus)
Grandes descobridores
Povo de vencedores
Ninguém faz nada de mal
Do Minho até ao Funchal
Vamos todos gritar
"Portugal vai ganhaaaaar!"
À saída do espectáculo, um jornalista interroga Cavaco Silva sobre o casamento de homossexuais, ao que o Presidente começa a responder «o senhor Cardeal Patriarca já disse que...» quando é interrompido por Maria Cavaco Silva que, agarrada ao braço do marido, berra «...deviam ser todos queimados no Rossio». Nos dias seguintes, a imprensa entrega-se a um debate apaixonado sobre «o mito da Inquisição», que culmina com um dossiê do Público em que dois professores da Católica explicam que a única vítima do Santo Ofício foi um animal de estimação que morreu intoxicado com o fumo das piras. Embora não haja dúvidas de que o animal pertencia a um judeu, os historiadores debatem se seria um cão ou um gato. Entretanto, a revista Atlântico conclui que a responsabilidade pela Inquisição cabe inteiramente ao «politicamente correcto», ao «multiculturalismo» e aos intelectuais franceses.
(continua)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Louçã e Soares

A entrevista simultânea a Soares e a Louçã (que me escapou, como muitas outras coisas) deu algumas indicações para quem quiser pensar sobre estes dois candidatos.
Em primeiro lugar, quanto ao Tratado constitucional europeu, que será talvez a questão mais importante do próximo mandato presidencial (e é a maior ausente da campanha, apesar dos esforços de Manuel Alegre) houve o seguinte:
Ao contrário destes dois, não tenho fé em que possa haver uma democracia funcional incluindo toda a Europa daqui a três gerações, quanto mais daqui a três anos. A «Constituição europeia», com o seu parlamento que não pode iniciar legislação mas que delibera sobre quase tudo, instituirá uma não-democracia com tutela sobre a nossa República. (E Cavaco, que encara a UE como um banco a que se pede crédito, ainda será mais europatriota do que Soares e Louçã, se o dinheiro fluir...)
Em segundo lugar, Louçã disse que não iria a Fátima com o ditador do Vaticano, ao que Soares replicou, não fosse alguém tomá-lo por anticlerical:
É evidente que, vindo de Soares, isto não surpreende. Este homem toda a vida se proclamou «republicano e laico» sem que alguma vez tenha traduzido isso no mais pequeno dos avanços para esses valores. Mas querer ir «com o maior gosto» até Fátima?! Não havia necessidade...

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Citações republicanas (6): Jean Jaurés

«Le courage, c'est de chercher la vérité et de la dire; c'est de ne pas subir la loi du mensonge triomphant qui passe, et de ne pas faire écho, de notre âme, de notre bouche et de nos mains aux applaudissements imbéciles et aux huées fanatiques.»
(Jean Jaurés)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Citações republicanas (5): Albert Camus

«Qu'est-ce que l'homme? Il est cette force qui finit toujours par balancer les tyrans et les dieux.»
(Albert Camus)