sábado, 31 de janeiro de 2026

Três tipo de moderados

 No texto anterior sobre o assunto esqueci-me daquele que poderá ser o tipo mais importante de moderado: o moderado confortável. 

Enquanto que o moderado relacional procura minimizar a distância ideológica entre a sua perspectiva e as que o rodeiam, por querer valorizar todos os pontos de vista e estar excessivamente distante do mínimo de pessoas; o moderado ancorado acredita na existência de um ponto óptimo que não corresponde ao que é prescrito por nenhuma ideologia radical, encontrando méritos e falhas nestas. Se a sociedade funcionar "bem" (entendendo bem como um estado no qual "ao longo do tempo vai existindo um aumento gradual da satisfação e bem-estar. Existe a expectativa de que a vida dos filhos será melhor que a dos avós, a convicção generalizada de que o futuro é mais desejável que o passado. Outro aspecto fundamental para falarmos em bom funcionamento da sociedade prende-se com a sustentabilidade ambiental da actividade humana: se os impactos ambientais seguem um caminho que conduz com enorme probabilidade a catástrofes económicas e humanas (já nem falo noutras formas de vida) de enorme magnitude, a sociedade não estará a funcionar bem.") o moderado ancorado estará perto do centro político, enquanto que se a sociedade estiver a funcionar "mal", o moderado ancorado terá de estar distante. 

No entanto, esta descrição de "funcionar bem" presume uma avaliação relativamente isenta sobre o resto da sociedade. Se a sociedade está a funcionar bem para algumas pessoas, elas podem - ou por não ter adequada noção da experiência vivida pelo resto da sociedade, ou por não a considerar particularmente importante para a sua avaliação - não querer mudar. Isso significa que serão contra alterações fortes, quaisquer que elas sejam, e se o status quo não corresponder à implementação de nenhuma ideologia radical, então estas pessoas serão vistas como moderadas. Estes são os "moderados confortáveis".

Claro que se a sociedade começar a funcionar pior, a quantidade de pessoas que tem a experiência individual e subjectiva dela funcionar bem vai diminuindo. Isso é outra explicação para a maior polarização: a existência de cada vez menos "moderados confortáveis"; muitos convertem-se em pessoas que querem mudar o status quo de forma cada vez mais substancial. 

Pode ser difícil distinguir entre um moderado confortável e um moderado relacional, porque pode ser socialmente mal visto negar que existam problemas sociais graves ou não querer saber da sua existência por não ser por eles afectada, pelo que os moderados confortáveis poderão ter um discurso que emula os moderados relacionais.
Dito isto (e sendo certo que isto não são categorias completamente estanques, as pessoas reais podem ter uma miríade de motivações, não necessariamente consistentes entre si, etc.) parece-me claro que existem muitos moderados relacionais genuínos, que acreditam em encontrar o "meio termo" entre as posições com que têm contacto independentemente do seu conforto ou desconforto com o status quo. E à medida que os moderados confortáveis vão minguando - com uma sociedade que vai tendo cada vez mais dificuldade em providenciar o mesmo bem-estar - cada vez se vai tornando mais certo que alguém que se apresenta com os argumentos de um moderado relacional o faz de forma genuína. 

Sem comentários :