Vou chamar "moderado ancorado" ao primeiro tipo de moderado. O moderado ancorado conhece as diversas ideologias políticas, e mesmo que nutra maior simpatia por alguma delas, está convicto de que também conhece as suas limitações, ou problemas caso seja levada ao extremo.
Pode acreditar que há vantagens importantes na redistribuição, ao nível da coesão social e bem-estar generalizado, mas também acredita que há vantagens importantes nalguma liberdade no funcionamento dos mercados, na descentralização das escolhas económicas e até algum grau de desigualdade, por encorajar os processos produtivos, a eficiência económica e a prosperidade generalizada.
Pode acreditar que há vantagens importantes na descentralização do poder político, até porque toda a concentração de poder pode trazer abusos e opressão que além de intrinsecamente pouco dignificantes podem ameaçar a prosperidade colectiva, mas também reconhece que a excessiva descentralização pode trazer problemas de eficácia, inacção (pelo menos no que diz respeito a acção atempada) e descoordenação.
Pode acreditar que é fundamental que a actividade humana tenha um impacto ambiental sustentável, e que é desejável preservar o património natural, a biodiversidade e os ecossistemas, mas aceita algum grau de impacto ambiental perverso desde que existam benefícios que o justifiquem e não se ultrapasse o limiar da sustentabilidade.
Pode acreditar que há vantagens importantes na descentralização do poder político, até porque toda a concentração de poder pode trazer abusos e opressão que além de intrinsecamente pouco dignificantes podem ameaçar a prosperidade colectiva, mas também reconhece que a excessiva descentralização pode trazer problemas de eficácia, inacção (pelo menos no que diz respeito a acção atempada) e descoordenação.
Pode acreditar que é fundamental que a actividade humana tenha um impacto ambiental sustentável, e que é desejável preservar o património natural, a biodiversidade e os ecossistemas, mas aceita algum grau de impacto ambiental perverso desde que existam benefícios que o justifiquem e não se ultrapasse o limiar da sustentabilidade.
O moderado ancorado terá uma perspectiva sobre algum "ponto óptimo" que mais beneficia a sociedade, o qual poderá estar mais perto de uma ideologia do que das restantes, mas estará bastante distante de qualquer dos extremos.
O moderado ancorado quer olhar para a informação da forma menos "enviesada" pelas suas convicções políticas que lhe for possível. Acredita que é importante procurar conhecer uma "realidade objectiva", corrigindo os erros de percepção na medida do possível. Mesmo que estes sejam inevitáveis, deve existir um esforço activo para os atenuar ao máximo.
Finalmente, o moderado ancorado preza ouvir as diferentes perspectivas e dialogar sem preconceitos com quem pensa de forma diferente, e inclusivamente mudar os seus pontos de vista caso surjam novos dados, novos argumentos fortes, ou importantes alterações das circunstâncias.
Geralmente os moderados vêem-se a si próprios desta forma. Mas existe um tipo de moderado que eu consideraria muito mais comum.
Os "moderados sociais" tendem a intuir que "no meio é que está a virtude". Duvidam que, num conflito político, a razão esteja toda de um dos lados. Emocionalmente sentem desconforto com o conflito e procuram ter uma perspectiva política que minimize a distância ao resto da população, ou ao resto da comunidade em que agem politicamente. Também neste grupo podem estar políticos carreiristas cuja motivação para minimizar a distância política face aos grupos em que operam é quase exclusivamente profissional.
Aplicando a "lógica" dos moderados sociais de que no meio é que está a virtude, quando o maior debate político na sociedade era sobre a eventual abolição da escravatura, defenderiam algo como "regras mais fortes que impeçam os maus-tratos dos escravos", mas reconhecendo algum grau de validade ao campo esclavagista. Aplicando a sua "lógica", quando o maior debate político na sociedade era sobre a possibilidade das mulheres terem acesso ao voto, defenderiam algo como "permitir o voto para mulheres que fossem chefes de família (por serem viúvas), ou tivessem formação superior". Veriam algum mérito nas posições de ambos os lados.
Aplicando a "lógica" dos moderados sociais de que no meio é que está a virtude, quando o maior debate político na sociedade era sobre a eventual abolição da escravatura, defenderiam algo como "regras mais fortes que impeçam os maus-tratos dos escravos", mas reconhecendo algum grau de validade ao campo esclavagista. Aplicando a sua "lógica", quando o maior debate político na sociedade era sobre a possibilidade das mulheres terem acesso ao voto, defenderiam algo como "permitir o voto para mulheres que fossem chefes de família (por serem viúvas), ou tivessem formação superior". Veriam algum mérito nas posições de ambos os lados.
Os moderados ancorados encorajam a moderação nos demais agentes políticos. Quanto mais radicais e inflexíveis forem os restantes agentes, mais se afastam dos moderados ancorados e, por perderem apoio político, ficam com menor capacidade de implementação das políticas que desejam.
Mas os moderados sociais, pelo contrário, encorajam maior radicalismo (e polarização) nos demais agentes políticos. Quanto mais radiciais e inflexíveis forem os restantes agentes, mais deslocam "o meio" para a ideologia política que defendem. Ao fazê-lo determinadas políticas antes consideradas radicais passam a ser vistas como aceitáveis pelos moderados sociais, o que aumenta a sua viabilidade política e dá maior capacidade de implementação a quem as deseja.
Vamos supor que a sociedade está a funcionar bem. Quando digo funcionar bem, quero dizer que ao longo do tempo vai existindo um aumento gradual da satisfação e bem-estar. Existe a expectativa de que a vida dos filhos será melhor que a dos avós, a convicção generalizada de que o futuro é mais desejável que o passado. Outro aspecto fundamental para falarmos em bom funcionamento da sociedade prende-se com a sustentabilidade ambiental da actividade humana: se os impactos ambientais seguem um caminho que conduz com enorme probabilidade a catástrofes económicas e humanas (já nem falo noutras formas de vida) de enorme magnitude, a sociedade não estará a funcionar bem.
Mas vamos supor que está.
Nesse caso, será difícil distinguir um moderado ancorado de um moderado social. Ambos terão um posicionamento político próximo do centro político desse contexto (que estou a presumir democrático).
Mas vamos supor que está.
Nesse caso, será difícil distinguir um moderado ancorado de um moderado social. Ambos terão um posicionamento político próximo do centro político desse contexto (que estou a presumir democrático).
Mas se a sociedade estiver a funcionar mal? Se os impactos ambientais estiverem muito para lá do limiar da sustentabilidade, se o galopante aumento das desigualdades não der sinais de abrandar, se o bem-estar social estiver a diminuir e a maioria das pessoas acreditar que a vida há algumas décadas atrás era mais fácil e desejável? Se existirem recuos democráticos, menos mobilidade social, menos coesão social, mais solidão e desespero? Nesse caso os moderados ancorados, a menos que estejam mal informados ou não tenham reflectido o suficiente sobre as circunstância políticas, terão de estar algo longe do centro político.
Pelo contrário, acreditarão que os problemas resultam do centro político se ter afastado do tal "ponto óptimo", aproximando-se excessivamente de algum extremo com o qual discordam.
Por outro lado, sabemos que a proporção de moderados ancorados terá diminuído se a polarização aumentar significativamente, pois são os moderados sociais que dão um incentivo estrutural à polarização.
Uma forma de identificar o tipo de moderado é ver se, com o centro a mudar de forma muito significativa nas últimas décadas, ele vai variando a sua posição face ao centro (se estiver ancorado), ou se acompanha ao centro (se for social). Em tese, o moderado ancorado poderia ter acompanhado o centro político se a mudança de convicções resultasse do surgimento de novos dados ou alteração das circunstâncias, mas isso presumiria que a sociedade continuaria a "funcionar bem". Se a sociedade tivesse deixado de funcionar bem, então o acompanhamento do centro denunciaria um moderado social e vice-versa.
Assim, Freitas do Amaral não pode ser visto como um moderado social. Pelo contrário: foi visto como estando excessivamente à direita pela maioria da sociedade na primeira década após a revolução dos cravos, e depois passou a ser visto como excessivamente à esquerda pela maioria da sociedade (que considera tudo o que está à esquerda do PS como excessivamente à esquerda). Mas Freitas do Amaral não mudou as suas convicções, o centro político é que mudou. Existem outros exemplos semelhantes, como Helena Roseta ou Pacheco Pereira, mas escolhi Freitas do Amaral porque gosto de citar esta passagem:
«quer o socialismo democrático quer a democracia cristão viraram tanto à direita (nos últimos 30 anos [agora 45]) que se converteram em aliados das classes superiores, quando a sua doutrina lhes apontava o caminho da aliança com as classes médias e com o povo mais pobre. O resultado global é triste, mas fácil de detectar: enquanto a social-democracia nórdica continua a favorecer os mais desfavorecidos, a generalidade dos governos socialistas e democratas-cristãos protegem sobretudo os mais ricos e poderosos, castigando sistematicamente a sua principal base de apoio - as classes médias.
No contexto actual, um moderado ancorado está longe do centro.
Assim, Freitas do Amaral não pode ser visto como um moderado social. Pelo contrário: foi visto como estando excessivamente à direita pela maioria da sociedade na primeira década após a revolução dos cravos, e depois passou a ser visto como excessivamente à esquerda pela maioria da sociedade (que considera tudo o que está à esquerda do PS como excessivamente à esquerda). Mas Freitas do Amaral não mudou as suas convicções, o centro político é que mudou. Existem outros exemplos semelhantes, como Helena Roseta ou Pacheco Pereira, mas escolhi Freitas do Amaral porque gosto de citar esta passagem:
«quer o socialismo democrático quer a democracia cristão viraram tanto à direita (nos últimos 30 anos [agora 45]) que se converteram em aliados das classes superiores, quando a sua doutrina lhes apontava o caminho da aliança com as classes médias e com o povo mais pobre. O resultado global é triste, mas fácil de detectar: enquanto a social-democracia nórdica continua a favorecer os mais desfavorecidos, a generalidade dos governos socialistas e democratas-cristãos protegem sobretudo os mais ricos e poderosos, castigando sistematicamente a sua principal base de apoio - as classes médias.
Voltámos ao capitalismo no seu pior: Leão XII e Bernstein foram esquecidos pelos seus seguidores; quem influencia os políticos de hoje é Adam Smith, na sua versão neoliberal que o desfigura, é Gizot, apesar de não ser bem conhecido, e é Friedrich Hayek, quase sempre mal interpretado. Por isso as desigualdades aumentam, a corrupção alastra e o poder económico deixou de estar subordinado ao poder político. Platão e Aristóteles já explicavam muito bem porque é que as democracias degeneravam em oligarquias, e estas em plutocracias. Mas quem os lê hoje em dia? E quem reflecte sobre os sábios avisos que nos legaram?»
No contexto actual, um moderado ancorado está longe do centro.