quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sexo, natureza e tecnologia

A Juventude Popular parece-me confusa sobre aquilo que, na sexualidade, é natural (biológico, inato) e o que é cultural/tecnológico.

Notemos esta frase: «os alunos podem ter acesso a informação sobre a contracepção, mas também devem receber uma educação para a abstinência». Assume-se implicitamente que ter uma sexualidade activa e ser sexualmente abstinente são comportamentos igualmente prováveis (ou desejáveis?), o que reflecte presumivelmente o desconhecimento de que somos geneticamente «programados» para nos reproduzirmos. E que as muitas tentativas para «educar» as pessoas para não terem relações sexuais foram projectos falhados. O que funciona é a cultura/tecnologia: fornecer meios às pessoas para terem relações sexuais de forma segura e que só conduza à procriação quando quiserem. O líder da JP não percebe portanto a violação da natureza em que incorre quando diz querer «afirmar a dimensão natural da sexualidade, ensinar a abstinência a par da contracepção».

Outra frase, a propósito dos pais que não querem educação sexual nas escolas: «Estas posições têm de ser respeitadas, reforçando a centralidade da família, devendo o referencial preconizar diferentes modelos de ensino para a saúde em função das opções educativas dos pais». Primeiro, as decisões em matéria sexual são individuais, não familiares. Por exemplo: foram os indivíduos do sexo feminino que decidiram, no século passado, terem menos filhos (com a baixa natalidade resultante nos países desenvolvidos). Segundo, ter variações do currículo de ensino de acordo com a ideologia/religião dos pais (progressistas, ateus, católicos, islâmicos, conservadores, etc) é novamente partir do princípio que os impulsos sexuais são controláveis a partir da cultura, quando não são, quanto muito são enquadráveis tecnologicamente (preservativos, pílulas, etc).

A JP já tem alguma razão quando rejeita que «a identidade sexual [seja] uma característica fluida e artificial, mais dependente do meio social envolvente do que de características genéticas e naturais», o que só reforça o meu espanto pela confusão em que se atola noutras considerações em que nega a genética e a natureza.
Finalmente, a JP não quer que se ensine às crianças que a IVG é uma possibilidade legal. Fiquei sem saber se também não querem que se ensine às crianças que podem ter consultas de planeamento familiar.