terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Abstenção: a oficial e a real

Irrita-me bastante a conversa dos media sobre a «subida da taxa de abstenção» - que se repete a cada eleição - e ainda mais as consequentes dissertações do comentariado mediático sobre o «desinteresse dos cidadãos pela política», e as conclusões do género «metade dos cidadãos não votaram».

No gráfico abaixo, pode verificar-se como o número absoluto de votantes nem tem descido dramaticamente nas eleições presidenciais, enquanto (pelo contrário) quer o número de adultos (residentes em Portugal) quer o número de recenseados têm subido.

As taxas de abstenção oficiais usam a curva de cima (a dos recenseados) como denominador da curva de baixo (a dos votantes). Acontece que o número de recenseados está fortemente exagerado: para começo de conversa, não há 9,4 milhões de adultos em Portugal. A curva intermédia («adultos») refere-se à evolução dos adultos residentes em Portugal (maiores de 18 anos com os imigrantes subtraídos). Como se pode verificar, as duas curvas começaram a divergir muito desde 1980. A divergência só se atenuou na viragem do século, quando houve uma limpeza dos cadernos eleitorais.

O resultado, como se pode verificar neste segundo gráfico, é que a taxa de abstenção real é certamente inferior à taxa de abstenção oficial. Em 2016, terá sido de 44% para o território nacional (e não 50%), em 2011 de 45% (e não 52,5%) e em 2006 de 32% (e não 37%).

De qualquer modo, é indubitável que o abstencionismo tem aumentado. Mas esse aumento não é tão dramático como os números oficiais indicam.
Nota: não considerei os votos no estrangeiro (emigrantes) porque, dadas as dificuldades que atravessam para votar, se trata de um universo totalmente diferente.