quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Regulamentar a bruxaria...

Como vivo fora do país não sei quais é que são os limites e as intenções dos legisladores, mas em princípio acho que regulamentar a bruxaria não é má ideia.  Há muitos anos, em Lisboa, o meu chefe descobriu uns comprimidos homeopáticos "muito bons" para as alergias: "baseados no mel das abelhas!" dizia-me ele com o lenço na mão e os olhos completamente injectados.  Para aí seis meses mais tarde li um artigo sobre uma fábrica de comprimidos homeopáticos para as alérgias que tinha sido fechada porque os comprimidos estavam cheios de cortisona... 

Aqui nos EUA a indústria dos suplementos está desregulamentada e morrem pessoas todos os meses.  E as pessoas desgraçam-se sem necessidade nenhuma.  Os idiotas das injecções de vitaminas têm intoxicações perigosíssimas, os que vão às clínicas da testosterona morrem com ataques cardíacos e os das pílulas para emagrecer sofrem as misérias mais inacreditáveis.

Dito isto, julgo que a maioria dos bruxos (que agora se chamam homeopatas) e dos endireitas (que agora se chamam quiropatas, acumpuntores, etc.), ou mesmo dos videntes e dos astrólogos, não fazem mal a ninguém enquanto houver um consenso sobre a não validade das crenças que defendem.  Nesse sentido o monopólio da igreja católica sobre o pensamento mágico no Portugal do Estado Novo criou um espaço muito saudável para a descrença.  A ICAR dizia-nos que não se podia acreditar nas coisas perfeitamente dementes que as seitas e as superstições nos propunham: o Pai Natal a voar por cima de todas as chaminés do mundo à mesma hora...  por favor!  Quando "toda a gente" sabia que quem punha os presentes nos sapatinhos era o menino Jesus! 

Foi a ICAR que me fez ateu.  A mim e à maioria dos ateus que conheço.

Acho, portanto, que enquanto os bruxos e os endireitas não tentarem justificar o que fazem com argumentos pseudocientíficos, a regulamentação da produção de placebos (por exemplo) parece-me uma coisa benéfica.  Aqui nos EUA apanha-se hepatite nos suplementos alimentares. 

O que é indefensável e de uma estupidez criminosa é aceitar as medicinas alternativas como alternativas sérias à medicina.  Li há pouco um artigo dum jornalista completamente estúpido, a sugerir que os cientistas deviam ter a cabeça aberta para "ideias novas."  A homeopatia é uma ideia do século XVIII!  Quando a água, mesmo suja, era uma alternativa excelente às sangrias e às inalações de vapores de mercúrio...

A estupidez não pode, infelizmente, ser criminalizada.  Mas nunca nos devemos esquecer que estas coisas da bruxaria e da religião são sempre perigosas.  Conheci um homeopata que matou o pai com rezas e chás.  O pobre homem a precisar de antibióticos e o filho a rezar-lhe para cima...

2 comentários :

  1. Boa ironia num país em que a maior parte apenas entendem o sarcasmo, porque este último puxa menos pela cabeça...

    Quanto ao acto de regulamentar as terapias complementares como se fossem medicinas alternativas e, além disso, fazê-lo através de portarias, em vez de dispôr através de lei que facilitasse a criminalização dos abusos, não passa de um novo modelo de bruxaria - bruxaria praticada pelo legislador, de modo a fazer crer que apenas será responsabilizado quem matar outrem...

    Ainda assim, alguns andam por aí a chamar homeopatia a toda e qualquer mistela que os 'ATCV-1' comprem, ora em supostos serviços ou em coisas físicas que pagam, com e sem tabelas pré-definidas, sobre as quais publicitam supostos méritos. Azar... Alguns repetiram-se tanto uns aos outros que deixaram a sua fonte à vista, com cálculos e tudo...

    Vamos lá tentar reconduzir a charlatanice ao seu devido lugar sem ofender pessoas que podem ser avaliadas de modo objectivo...

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  2. Claro. Quando falo de regulamentar a bruxaria, quero dizer criminalizar os abusos.

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