terça-feira, 11 de novembro de 2014

Eu quero ser vulnerável ao terrorismo

É este o título polémico que escolho para chamar a atenção do leitor, mas é também a tese que quero defender.

Naturalmente, não tenho nada a ganhar com a possibilidade de sofrer uma morte violenta ou ficar estropiado. A ideia de perder um membro ou a vida assusta-me.
Felizmente, eu sei que é um medo pouco racional: as banheiras matam cinco vezes mais pessoas que os terroristas, as escadas matam centenas de vezes mais pessoas que os terroristas, os polícias matam oito vezes mais que os terroristas.

Claro que isto em si não explica nada: só porque a probabilidade de morrer num ataque terrorista é virtualmente nula, não quer dizer que não a preferisse minimizar ou eliminar. Porque é que eu quero ser vulnerável ao terrorismo?

Porque a alternativa me mete muito mais medo. Um Governo que tem o poder de eliminar completamente a ameaça terrorista, é um Governo que tem o poder de impedir qualquer tipo de iniciativa ou acção que lhe pareça muito grave.
Enquanto vivermos numa democracia, apenas um conjunto restrito de acções decidido pelos cidadãos deverá enquadrar-se nesta categoria de "muito grave" (e mesmo assim...). Mas se o Governo se tornar excessivamente autoritário ou ditatorial, a "máquina" já estará montada para impedir qualquer dissidência ou tentativa de revolução. Note-se que a dissidência ou revolução nem precisam de acontecer por meios violentos: um Governo opressor pode facilmente usar as ferramentas de combate ao terrorismo para combater um leque muito mais alargado de iniciativas que considere ameaçadoras. Aí, entraríamos na distopia do Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, e é difícil de imaginar como é que um regime assim poderia cair.

Este medo pode parecer paranóico, de um «fanático das conspirações». Mas basta olhar para a História, para os vários regimes que se foram tornando mais autoritários, para as ditaduras que nasceram de democracias perante a passividade de quase todos, para perceber que esse é um risco muito mais real, razoável e premente do que o de ser vítima de um atentado terrorista.
E a gravidade das consequências é incomparável.

A mesma invasão da privacidade que se considerou inaceitável por parte de regimes ditatoriais, mesmo num período em que muitas mais pessoas morriam vítimas de terrorismo (existiam muito mais atentados na altura da guerra fria do que hoje em dia), é actualmente vista por muitos como banal. Alguns acreditam que não existe mal em sacrificar a nossa privacidade para ganharmos segurança face à ameaça terrorista.

Glenn Greenwald mostra como as coisas não são bem assim: ninguém está realmente disposto a abdicar da sua privacidade, simplesmente algumas pessoas parecem considerar-se desinteressantes e conformistas o suficiente para nunca virem a constituir qualquer ameaça ao poder instituído.

Por outro lado, é verdade que todo este aparato caríssimo de invasão da nossa privacidade tem tido até hoje um impacto negligenciável (se algum) na prevenção de atentados terroristas. Mas o meu argumento não é esse: é fácil de imaginar que eventualmente, com mais vários milhões que fazem falta às escolas e hospitais, o aparato de vigilância e controlo cresça ao ponto de realmente ser útil para impedir a concretização de alguns atentados (salvando muito menos vidas do que aquelas que poderiam ser salvas com os mesmos recursos, já agora).
Nesse dia, as democracias podem à mesma transformar-se em regimes autoritários, como foi acontecendo ao longo da história, mas o contrário será muito mais difícil.

A ameaça de um regime autoritário com um aparato de informação e vigilância (de uma sofisticação sem precedentes, note-se) parece-me muitíssimo mais grave do que de uma cinco vezes menos mortífera que um escorregão na banheira. 

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