sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Ou será que prefiro ser menos vulnerável ao terrorismo?

Em conversa, um amigo pessoal fez um comentário interessante ao meu texto anterior.

Neste texto eu parti do princípio que alguém quer provocar um atentado terrorista, e reconheço que um aparato de vigilância e repressão muito desenvolvido poderá hipoteticamente diminuir a probabilidade do atentado ser bem sucedido.
Como a circunstância de partida é extremamente rara, e como um tal aparato de vigilância e repressão constitui um perigo muito real para a Liberdade e para a Democracia, eu afirmei preferir ser vulnerável ao terrorismo. Tenho menos medo deste hipotético atentado, do que um Governo com capacidade para saber tanto sobre todos nós que garante o respectivo falhanço.

Mas o princípio de partida não é o mais acertado. Ele esquece a forma mais eficaz de combater o terrorismo: evitar que exista disposição para levar a cabo atentados em primeiro lugar. Disposição essa que tende a ser mais forte precisamente onde existe maior desrespeito pelos direitos civis.
Nesse sentido, o aparato de vigilância e repressão, até pelos recursos que exige e pela dinâmica político-social que provoca, é mais do que um dispositivo que nos oferece um infinitésimo de segurança em troca de sérios riscos quanto à nossa liberdade, e a certeza da devassidão da nossa privacidade. Ele é efectivamente contra-producente. Torna-nos mais vulneráveis ao terrorismo.

Aparentam proteger-nos, pois dado que existe alguém motivado para realizar um atentado, a probabilidade desse alguém ser bem sucedido torna-se menor (reitero que ainda não é o caso). Mas, ao aumentarem a probabilidade de existir alguém com este tipo de motivação, aumentam a dimensão da ameaça terrorista.

Assim, para rejeitar este tipo de aparato, não tenho de sacrificar um infinitésimo que seja da minha segurança pessoal (o que faria de bom grado).
Aquilo que devo fazer para proteger a minha privacidade, a Democracia e a Liberdade colectivas, é precisamente o mesmo que devo fazer para aumentar a segurança face à ameaça terrorista: rejeitar o caríssimo aparato de vigilância e repressão que se tem vindo a construir na última década.

[Editado para introduzir algumas informações trazidas pelo Miguel Madeira nos comentários]