terça-feira, 25 de junho de 2013

Revista de imprensa (25/6/2013)

  • «(...) O caso deve-se a Paulo Morais, um ex-político que anda há um ano a dizer, em crescendo, que há corrupção a rodos na política portuguesa. Entre exemplos vários atirou contra Frasquilho. Porquê? Porque ele trabalha também para o Banco Espírito Santo, que por sua vez assessorou os chineses no processo de privatização da EDP. Sendo que também pertence à comissão que, diz ele, devia fiscalizar essa mesma privatização – que ele assume como «opaca». Está-se mesmo a ver, não está? – lançou Paulo Morais, por exemplo numa entrevista ao jornal i. A verdade é que não, não se está a ver, está-se a insinuar. E não porque aquela comissão não tem nem a missão, nem as competências para investigar as privatizações em curso. Não porque a questão da EDP nunca foi tratada em nenhuma daquelas reuniões – nem sequer pelo PCP e pelo BE. E, já agora, não porque Miguel Frasquilho sempre se recusou a tratar, na Assembleia, matérias que se cruzem com o banco para o qual trabalha. Prova dessa lisura foi o que se passou a seguir. Fernando Medina, do PS, fez-lhe um elogio rasgado («comportamento exemplar»). Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, prontificou-se a subscrever o comunicado. Quanto a mim, resolvi escrever este texto não só porque o gesto de dignidade é raro e meritório, mas sobretudo porque vivemos dias perigosos. Em tempo de austeridade é fácil semear a desconfiança e atacar os políticos por igual, pegar em meias verdades e deitar lama sobre os que estão na vida pública. É popular pegar em frases sonoras e dizer que os políticos ganham demais, que estão rodeados de serventias e que, para mais, só andam a tratar da sua vida e dos seus negócios. Quem o diz não percebe – ou não quer perceber – que esse discurso nos empurra para o abismo. Um dia acordaremos e só nos sobram os políticos mal pagos, que vivem só e apenas da política e que não têm ideia do que é a vida, o país ou sequer do que é gerir o Estado – e já estivemos mais longe. Digo-vos mais: daí a que apareça alguém a propor que se acabem com os partidos é um passo pequeno. Por mim, pelo que conheço destes 17 anos de jornalismo e do Parlamento, garanto-vos isto: há bons deputados, há bons políticos (e até políticos bons) em Portugal, como aqueles que estavam na sala da comissão na quarta-feira. Oxalá não desistam de lutar pelo bem público, cada qual pelas suas ideias.» (David Dinis)