quarta-feira, 4 de abril de 2007

A secularização da sociedade portuguesa(4): o decréscimo da prática católica

O decréscimo da prática católica

O gráfico seguinte mostra a evolução do número de católicos praticantes (distinguindo os comungantes) nos anos posteriores ao 25 de Abril. Os números resultam de «contagens de cabeças» efectuadas nas missas, pelos próprios sacerdotes católicos, em 1977, 1991 e 2001. Sendo dados da própria ICAR, que terá interesse em inflacionar os números, estes devem ser tomados como máximos absolutos para os números de católicos praticantes e/ou comungantes.O facto mais saliente que se pode deduzir dos dados apresentados é que o número de católicos praticantes diminuiu de mais de meio milhão entre 1977 e 2001 (passou de 2,44 milhões para 1,93 milhões). No mesmo período, a população portuguesa aumentou, e portanto a queda é mais impressionante em percentagem: enquanto, em 1977, a ICAR reclamava que 26% da população estava na igreja ao domingo, o número reclamado em 1991 corresponde a 23% da população, e em 2001 a 19%.
O número de católicos comungantes aumenta 400 mil entre 1977 e 1991, e diminui 50 mil entre 1991 e 2001 (o que significa que, entre os católicos praticantes, os comungantes passam de 29% do total para 50%, e depois para 55% do total de praticantes). Neste período, as mulheres passam de 61% a 64% dos católicos praticantes.
Pode concluir-se que, de acordo com dados da própria ICAR, a prática religiosa regular estará em decréscimo, e menos do que um em cada cinco portugueses terão prática religiosa semanal.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

«Contre le FN, la France du vivre ensemble et de l´intégration»

«(...) La France n'est pas un pays qui a basculé dans le racisme, malgré les scores inquiétants de l'extrême droite. N'en déplaise aux "Indigènes de la République", les citoyens de ce pays ne sont pas nostalgiques de l'ordre colonial. La réalité des valeurs républicaines, l'ancrage du combat antiraciste dans la société ont évité le pire, depuis plus de vingt ans. Les mariages mixtes sont en progression. Un tiers des habitants ont un grand-parent issu de l'immigration, et ils sont des citoyens français comme les autres, à égalité de droits, et de devoirs. Les étrangers touchent les mêmes aides que les citoyens français, alors que le Front national réclame la séparation des régimes. On soigne les familles et les enfants qui ne sont pas en règle. On accueille dans les écoles les enfants des parents de sans-papiers. C'est cela, un pays raciste?
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La laïcité, pilier fondateur de la République, facteur d'intégration, subit l'offensive, depuis près de vingt ans, des islamistes, pour le plus grand bonheur des autres Eglises, qui souhaitent tirer les marrons du feu de tout recul laïque.
Une conception communautariste, de type anglo-saxon, tente de s'imposer, en France. On ne serait plus citoyen, mais membre d'une communauté.
Ces attaques, souvent relayées par des franges de la gauche hostiles aux idéaux républicains, ne dérangent pas le Front national. Au-delà des discours électoralistes, lui qui soutenait la politique d'apartheid en Afrique du Sud, n'a rien contre une communautarisation de la société française, sur une base ethnique et religieuse. Le FN, par exemple, a défendu le principe du voile à l'école, ce type de marquage ne le dérange pas. Le Pen préfère le discours de Tariq Ramadan et de l'UOIF à celui de Fadela Amara ou Malek Boutih.
En ce sens, certains militants de gauche, qui se disent antifascistes, feraient bien de réfléchir, quand ils combattent l'intégration, encouragent le droit à la différence et accompagnent les islamistes dans leur lutte contre la laïcité, si, au lieu de combattre Le Pen, ils ne contribuent pas à le renforcer.
»

A secularização da sociedade portuguesa(3): os nascimentos fora do casamento

Os nascimentos fora do casamento
O gráfico seguinte mostra como, a partir do 25 de Abril, aumentou significativamente a percentagem de crianças que nascem de pais que não estão casados.

Enquanto, até 1974, apenas 7%-8% das crianças nasciam de pais que não estavam casados, a partir de 1979 essa percentagem começa a subir rapidamente, chegando aos 10% em 1982, ultrapassando os 20% em 1998, e atingindo os 31% em 2005. Nos anos mais recentes, o crescimento tem sido cada vez mais acentuado.

Deve acrescentar-se que a esmagadora maioria dos nascimentos fora do casamento resultam de pais que vivem juntos. Tomando como referência o ano de 2005, 71% dos nados-vivos nasceram de pais casados, 25% de pais juntos (mas não casados) e 6% de pais que não coabitavam. Pode portanto concluir-se que mais do que um em cada quatro dos jovens casais que têm filhos vivem em união de facto.

O catecismo da ICAR só concebe os filhos como existindo dentro do matrimónio. Como se pode ver neste particular (e como acontece também no casamento civil e no divórcio) a sociedade portuguesa afasta-se cada vez mais do modelo de família católico. Não porque alguém force os cidadãos a repudiarem tal modelo de família, mas sim em resultado de escolhas individuais inteiramente legítimas e espontâneas.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

terça-feira, 3 de abril de 2007

Revista de blogues (3/4/2007)

  1. «Digo-vos que este rapazola dá pelo nome artístico de Roman Giertych. Digo-vos também que é, desde criança, criacionista (não consegui apurar se sabe de cor o Génesis). Odeia de morte os "paneleiros", perdão, os homossexuais, que considera uma aberração da natureza. Se pudesse, lapidaria as mulheres que abortam e correria da Europa a pontapé judeus, muçulmanos e afins. Sexo... só na constância do matrimónio consagrado e para produzir criancinhas. Preservativos... nem vê-los, que o papa não autoriza. Imaginai o resto... Não quero chocar-vos, leitores, mas este rapazola é, actualmente... o ministro da educação da Polónia...» («Um escarro em forma de... ministro...», no Abnóxio.)
  2. «Mal vi o malfadado cartaz no PNR, logo na noite em que o colocaram, e deparei com aquela fronha horripilante, ainda por cima com aquela pose de alto como se fosse uma espécie de Mussolini de segunda categoria, lembrei-me logo daqueles dias de delírio mediático que se seguiram à iniciativa do casamento da Teresa e da Lena. Nessa ocasião fui convidado pela «TV Record» para, disseram-me, um debate sobre o tema do casamento homossexual. (...) Qual não foi o meu espanto quando me apresentaram o meu oponente de debate: precisamente este Le Pen de imitação rasca, o inefável José Pinto Coelho, líder do tal Partido Nacional Renovador, ou PNR. (...) Peguei-lhe nos preconceitos homofóbicos e nos seus próprios chavões, lidos talvez no «Mein Kampf» e decorados de discursos mussolínicos colados com cuspo aqui e ali naquele pequeno cérebro injustiçado pela Natureza, decompus-lhe em bocadinhos a noção legal de casamento e num instantinho pu-lo a ouvir-se a dizer a si próprio em directo na televisão que afinal, «mas só nesse caso», era a favor do casamento homossexual.» («O Debate», no Random Precision.)

Rui Tavares: «Abram-me esses olhos»

  • «Comentando a visibilidade crescente da extrema-direita na sua coluna de sábado neste jornal, Pacheco Pereira sugere que ela é concomitante do politicamente correcto e da atitude geral da esquerda. Previsível: o discurso da "hipocrisia da esquerda" é o tema único dos nossos neoconservadores, que lhe atribuem tudo e a morte do Manolete. (...) As pessoas esquecem-se, mas desde o tempo das FP-25 - como o nome indica, uma excrescência do período pós-revolucionário - que há mais de vinte anos a violência política em Portugal veio sempre desta extrema-direita. (...) Mas quando eles vieram empunhar orgulhosamente as suas armas ilegais na TV, o mesmo Pacheco Pereira que vê sinais alarmantes em todo o lado minimizou o assunto para inventar fantasiosas equivalências com a esquerda. (...) A direita tem de cair na realidade actual e fazer, se for capaz, um discurso anti-racista para o seu próprio eleitorado. Quanto mais não seja porque são os vossos eleitores - actuais e futuros - que os racistas sonham roubar-vos.» (Rui Tavares no Público de hoje.)

Liberdade política e credibilidade científica

A facção Baptista dos comentadores deste blogue não gostou do meu regozijo por o artigo de Jónatas Machado ter sido retirado do Ciência Hoje. Respondo-lhes em forma de artigo porque vale a pena explicar algo de importante.
  1. Politicamente, reconheço a total liberdade dos criacionistas para difundirem as suas ideias através das suas igrejas, dos seus media, das aulas que dão nas suas associações, ou através de propaganda distribuída na rua. Defendo o direito de quem acredita que a Terra é plana a difundir as suas ideias através de associações privadas.
  2. Também ao nível político, considero um escândalo que o Estado português financie o ensino do criacionismo, ainda por cima na escola pública, e se dependesse de mim a Educação Moral e Religiosa Evangélica já teria terminado (e a EMR Católica também, por razões de princípio).
  3. Uma publicação que se pretende de divulgação científica (como o Ciência Hoje geralmente consegue ser) não pode incluir artigos anti-científicos ou pseudo-científicos, como era o caso do referido artigo de Jónatas Machado, pela simples razão de que afecta a sua credibilidade, e confere crédito àqueles que querem trocar a ciência pelos dogmas religiosos. É auto-agressão.
  4. Que eu saiba, as revistas evangélicas ou católicas não incluem artigos a explicar os erros científicos dos dogmas respectivos (o que está de acordo com a tradição abrâamica de fuga ao livre exame). Se a religião entrar nas universidades ou nas revistas científicas, deve ser apenas para ser estudada cientificamente, e eventualmente refutada. No entanto, não defendo que tal refutação seja absolutamente necessária, e até acho que no ensino público os professores se devem abster de abordar a religião (à excepção, evidentemente, da aulas de História ou de Filosofia).

segunda-feira, 2 de abril de 2007

«Ciência Hoje» recua (felizmente!)

O portal Ciência Hoje, que faz um trabalho globalmente meritório de notícias sobre ciência e tecnologia, publicou ontem (1/4) o seguinte editorial:
  • «Recentemente, Ciência Hoje publicou um artigo de opinião «Paradigma naturalista» que recebeu um coro de incriminações e críticas que acabaram por visar - e, por vezes, de forma menos elegante - a própria publicação. Trata-se de um artigo de opinião - e Ciência Hoje sempre pretendeu ser uma coluna livre - que arrastou uma discussão muito longe do que se pretendia. Porque o prolongar da discussão nos termos em que se tem desenvolvido não parece levar a lado nenhum, pedindo desculpa ao autor e aos leitores, Ciência Hoje decidiu que o artigo não permanecesse mais on-line. A partir de hoje, CH privilegiará a opinião solicitada!»

O texto referido («Paradigma Naturalista») era da autoria do criacionista Jónatas Machado e consistia num ataque violento e primário à ciência e ao conhecimento comprovável, no habitual estilo truculento deste professor de direito em Coimbra e fervoroso crente evangélico. Fora publicado no dia 29 de Março, e provocara protestos imediatos da comunidade científica, na caixa de comentários respectiva e em blogues, tendo o matemático do IST Jorge Buescu pedido mesmo a sua demissão do Conselho Científico do Ciência Hoje.

Felizmente, o incidente foi resolvido da melhor forma (o texto já não está disponível), mas a política de edição do principal portal de notícias, em português, sobre ciência e tecnologia, merece ser questionada (será que existe avaliação dos textos de opinião pelo conselho científico?). Anteriormente, segundo Jorge Buescu, terão sido publicados outros textos pseudo-científicos, que afectam a credibilidade deste portal ao conferi-la àqueles que pretendem justamente atacar a ciência. A disponibilidade de astrólogos, acupunctores e criacionistas para entrarem em espaços reservados à ciência é apenas um sinal da sua necessidade de credibilizarem os seus «produtos» duvidosos. Dar-lhes entrada é dar-lhes credibilidade.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

domingo, 1 de abril de 2007

A secularização da sociedade portuguesa(2): a generalização do divórcio

A generalização do divórcio

O gráfico seguinte evidencia que o divórcio, que era praticamente inexistente antes do 25 de Abril, se tornou rapidamente comum.

Nos anos anteriores ao 25 de Abril, o divórcio civil estava vedado aos portugueses casados pela ICAR (embora a anulação canónica do casamento existisse, era raríssima). Um dos maiores movimentos cívicos do período revolucionário pedia justamente a legalização do divórcio, pelas leis do Estado, para os casados pela ICAR. Liderado por Salgado Zenha, esse movimento originou um protocolo adicional à Concordata com a Santa Sé, que foi assinado em Fevereiro de 1975.

Se até 1974 havia aproximadamente um divórcio (ou menos ainda) para cada cem casamentos, após 1975 a proporção cresce rapidamente para cinco divórcios por cada cem casamentos (em 1976), e nove por cem (em 1977). De um total de 777 divórcios em 1974, passa-se para 7773 em 1977, o que se deve a situações de separação conjugal de facto que não estavam legalmente resolvidas. O atraso das leis do Estado clerical e autoritário na adaptação à sociedade ficou claro.

Uma nova alteração legal, em 2001, agilizou o divórcio. Novamente, um grande número de situações pendentes fez subir o número de divórcios, de 19044 em 2001, para 27960 em 2002 (em proporção, passou-se de 33 divórcios por cada 100 casamentos, para 50 divórcios por cada 100 casamentos). No ano seguinte, a proporção de divórcios desceu, para seguidamente voltar a subir. Em 2005, houve 47 divórcios por cada 100 casamentos.

Segundo o catecismo católico romano, «o sacramento do Matrimónio gera entre os cônjuges um vínculo perpétuo» (ponto 346); e segundo a própria Bíblia, «o que Deus uniu não o separe o homem». O comportamento dos portugueses mostra que esta doutrina, longe de estar generalizadamente aceite, é rejeitada. Mesmo entre os católicos, e nos anos mais recentes (2002, 2003, 2004 e 2005), tem havido, para cada 100 casamentos católicos celebrados, entre 47 e 52 casamentos católicos dissolvidos por divórcio (o que fica muito próximo da média nacional que se vê no gráfico). Portanto, os católicos, à semelhança dos outros portugueses, não parecem encarar o casamento como indissolúvel ou perpétuo, mas sim como um contrato civil revogável.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]