terça-feira, 11 de abril de 2006

Cependant, en France...

Civilizacionistas pseudo-laicos contra clericais

A emissão de ontem do programa popularmente conhecido como «Prós e Prós» foi menos desequilibrada do que eu esperava. Fátima Bonifácio e António Barreto (duas escolhas surpreendentes para representar a perspectiva laica...) estiveram razoavelmente bem, embora Bonifácio seja mais conservadora do que a generalidade dos laicistas quanto ao casamento entre homossexuais, e Barreto tenha evitado deliberadamente discutir a interrupção voluntária de gravidez. Quanto ao público, é francamente escandaloso que tenha sido escolhida «uma chusma de "Morangos com Açúcar", a tresandar a colégio com nome de santo» para servir de claque ao Talibã das Neves, e que não tenham sido convidados ateus e agnósticos para o público, ao contrário do que acontecera em ocasiões anteriores.

Nestas condições, o cardeal Saraiva conseguiu difundir a mentira habitual segundo a qual o tratado constitucional europeu «ofendeu» de alguma forma os católicos por o Preâmbulo não conter uma referência ao cristianismo, sem que nenhum dos «laicos» lhe recordasse que a ICAR, ao garantir um direito de consulta institucional através do artigo I-52º, conseguiu uma vitória tal que em França os bispos até apelaram ao «sim» no referendo, e que em Portugal Policarpo se preparava para fazer o mesmo.

Saraiva foi também espalhando números fantasiosos sobre os muçulmanos residentes na Europa (os 35 milhões que referiu são um exagero enorme, mesmo contando com os habitantes de Istambul) e apelando implicitamente a uma «Cruzada» contra o Islão, a única religião que segundo os participantes do programa de ontem tem «fundamentalistas». Aliás, Bonifácio convergiu com Saraiva na preocupação quanto à destruição da «identidade cultural» europeia, o que é paradoxal quando se considera que Fátima Bonifácio foi impecável na defesa da liberdade individual como fundamento da nossa polis (e assim encostou César das Neves à parede de forma exemplar), liberdade individual essa que, cara senhora, acarreta o direito de abandonar a «identidade cultural» e de não ser oprimido por esta. Implica o direito de ter filhos quando se quer ou mesmo de não os ter, mas também pode resultar numa Europa que não seja branca nem cristã, o que não compreendo que a incomode se defende efectivamente a herança iluminista.
César das Neves atreveu-se a dizer que os conflitos religiosos em Portugal foram curtos, sem que ninguém lhe tivesse recordado que cristãos e muçulmanos estiveram em guerra no nosso território de 711 a 1249; que em 1496 os judeus foram convertidos à força e em 1506 massacrados no pogrom de Lisboa; que a Inquisição se estabeleceu em 1536 e durou até 1821; que em 1846 ainda se perseguiram protestantes na Madeira; e que as minorias religiosas só começaram a sair da clandestinidade em 1911, com a República.
Rendo no entanto a minha homenagem a César das Neves, que tentou explicar que a verdadeira clivagem se nota nas questões de família, e é entre laicistas e clericais (sendo estes muçulmanos ou católicos), ao contrário do que pensam Bonifácio e Barreto, que me pareceram excessivamente obcecados com a sua «guerra civilizacional». E quero destacar a intervenção de um jovem católico que se mostrou pronto para ser terrorista (e consequentemente matar milhares de pessoas) se o proibissem de usar um penduricalho que trazia ao peito. Esse jovem mostrou a quem quiser ver qual é raiz de acontecimentos como o 11 de Setembro: a imunidade ética que a religião confere aos crentes.
(Publicado simultaneamente no Diário Ateísta.)

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Serviço público?

Hoje à noite, no RTP 1, o programa popularmente conhecido como «Prós e Prós» vai debater «O choque das religiões/Do islão ao ocidente/A decadência dos valores/A essência da Europa». Os «artistas convidados» serão um cardeal da ICAR (o Saraiva), um talibã católico (o inefável César das Neves) e dois neoconservadores (António Barreto e Fátima Bonifácio).
Ocorrem-me dois comentários. Primeiro: os cardeais só vão à RTP bem protegidos por fiéis (aquando do programa de propaganda ao Congresso Internacional para a Nova Evangelização, Policarpo fez-se acompanhar pelos católicos leigos António Pinto Leite e Maria José Nogueira Pinto...). Segundo: face a painéis destes na televisão pública, só quem sofre do mais puro facciosismo poderá acreditar honestamente no mito do «domínio mediático da esquerda».

domingo, 9 de abril de 2006

Revista de blogues (9/4/2006)

  1. «Serão as condições-fronteira e as restrições blasfemas?», n´o Avesso do Avesso: «A escolha de constrangimentos e de condições fronteira na economia corresponde ao que em linguagem corriqueira se chama "política" (para não dizer "ideologia"). A solução dele (que se traduz na total ausência de "política") não é a única e nem resulta de nenhuma previsão da "teoria económica", como ele quer fazer crer.»
  2. «Aviso aos navegantes», no Armadilha para ursos conformistas: «Quando há um ano, os cardeais escolheram um pastor alemão para cão-guia da Igreja Católica, eu percebi que estava a mais. Não pela escolha em si mesma, mas pela forma acrítica e entusiastica com que a escolha foi acolhida por grande número de católicos.»
  3. «A ICAR e o desenvolvimento», no Oeste Bravio: «Não sei se já escrevi aqui que um dos meus tetravós, presbiteriano, teve de fugir da Madeira onde a Igreja Católica organizou um pogrom em 1846, através dum jornal chamado “O Imparcial”. Queimaram-se casas, prenderam-se pessoas, uma senhora foi condenada à morte por apostasia, etc.».

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Revista de blogues (6/4/2006)

  1. «A Intolerância Cor-de-rosa» no Random Precision: «Fui ontem convidado para participar num debate no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, subordinado ao tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo (...) Poderia a discussão ter sido (...) mais interessante e esclarecedora, não fora uma outra interveniente ter declinado o convite por se recusar terminantemente a participar num debate... em que eu estivesse. Trata-se de uma deputada, eleita pelo Partido Socialista».
  2. «Neoliberalismo de esquerda no governo socialista», no Armadilha para ursos conformistas: «No dia 3-04-06, um senhor que se chama José conde Rodrigues, secretário de estado adjunto e da justiça, licenciado em direito e, acrescento eu, em neo-liberalismo oferece uma entrevista ao DN onde exclama várias coisas».
  3. «Portas - um erro histórico», no Ponte Europa: «Não se pode exigir a Paulo Portas o discernimento que lhe faltou no entusiasmo com que apoiou a invasão do Iraque; a sensatez que não teve ao atribuir à senhora de Fátima a decisão de afastar de Portugal a maré negra do naufrágio do Préstige (...) Para Portas, talvez a Constituição autoritária de 1933 tivesse colocado Portugal na vanguarda dos mais civilizados países da Europa».

terça-feira, 4 de abril de 2006

As democracias também torturam

Archive pictures of German prisoners held by the British following the second world war
Comunistas alemães torturados pela democracia britânica (1946).
O jornal britânico The Guardian publicou ontem um relatório sobre a tortura de cidadãos alemães suspeitos de serem comunistas. Os factos tiveram lugar em centros de detenção britânicos na Alemanha e em Londres, entre 1945 e 1948. O «tratamento» incluía a tortura do sono, a privação de alimentos, a exposição ao frio e as agressões físicas. Pelo menos dois comunistas morreram de fome e outro foi espancado até à morte, tendo estado detidos, no total, 372 homens e 44 mulheres. Eram civis, e geralmente foram detidos na zona alemã sob controlo britânico. O único oficial britânico castigado foi demitido do exército e convidado a juntar-se ao MI5.
Por muito que nos custe aceitá-lo, não há povos impecavelmente civilizados, nem sistemas políticos que possam garantir a protecção de todos os indivíduos sob a sua jurisdição contra a violência de Estado. A democracia britânica foi responsável pelas mortes de católicos em Belfast, nomeadamente no Domingo Sangrento de 1972, sem que um único soldado tivesse sido punido. A República francesa sujara as mãos de sangue em 17 de Outubro de 1961, quando muitas dezenas de argelinos foram massacrados nas ruas de Paris. Já nos anos 80, a democracia espanhola demorou a reagir aos assassinatos selectivos de militantes da ETA, uma estória que ainda hoje não é totalmente clara. No século 21, temos Guantánamo e Abu Ghraib para nos recordar a barbárie de que somos capazes, e que os Estados de Direito não querem ou não conseguem impedir.
Embora a natureza humana não esteja, como é evidente, prestes a alterar-se, há que reconhecer que a vergonha do Governo do Reino Unido perante este caso dos primórdios da Guerra Fria acalenta a esperança de que a única mudança possível esteja a acontecer, ainda que lentamente: o respeito público pela dignidade humana estende-se agora a cada vez mais grupos raciais e ideológicos, mesmo quando em privado se continua a torturar.

Opus Dei

O blogue Geosapiens tem um artigo muito interessante sobre o Opus Dei, onde se explora o papel desta organização católica na recomposição das elites reacionárias da América Latina. O interesse pela «Santa Máfia» aumentou na medida em que esta seita se prepara para lançar um candidato à presidência do Brasil, o Governador de São Paulo Geraldo Alckmin.
Felizmente, existem cada vez mais saites de denúncia da Obra fundada por Josemaria Escrivá: Opus Dei Awareness Network (a associação de apoio às vítimas do OD), Opus Libros (em Castelhano) e, em Português do Brasil, Opus Livre. Os depoimentos dos ex-membros são particularmente importantes para compreender o funcionamento interno desta organização autoritária e totalitária, onde tudo é controlado, desde a vida sexual e os livros que se lêem, até às relações sociais que se estabelecem.
Como aperitivo, leia-se o trecho seguinte, sobre o autor do livro «Memórias sexuais no Opus Dei»:
  • «Antonio Carlos Brolezzi, 41 anos, de Santo André, viveu dez anos como numerário do Opus Dei (...) No período passado lá, ele afirma ter se mortificado por pensar em sexo - o celibato é exigido para os numerários e numerárias -, ter feito uso, como todos os integrantes devem fazer, do cilício (uma coleira com pinos de metal colocada na perna duas horas por dia), da disciplina (autoflagelação com chicote de nós, uma vez por semana, ou mais) e de ter de vestir para dormir, por poucos dias, um macacão antimasturbação. "Eles nos seduzem e fazem acreditar que aquele mundo é maravilhoso e que nossa vocação é virar santo. Com isso, tiram tudo da gente: o salário, a família, a alma". (...) "Se quiser entrar para a seita, pois considero o Opus Dei uma seita, pelo seu fanatismo, que entre sabendo o que acontece lá. É meu dever como educador".»
  • «Deixei absolutamente tudo. (...) Eles ficam com tudo. No final, você é um nada, está completamente destruído. Mas isso tudo é feito devagar, sem que a pessoa e a família percebam. (...) Tem de se confessar com o sacerdote e com o diretor do centro (...) o diretor pode fazer você usar mais as disciplinas, mais dias por semana e não apenas um, como o exigido. Eu usava quase todos os dias.
    DIÁRIO - Como assim, entregar salário para eles?
    BROLEZZI -
    (...) sequer recebia o salário. Minhas contas bancárias, senhas, cartões eram administrados diretamente pelos diretores do centro.
    DIÁRIO - O sr. nunca pôde comprar uma roupa que você quisesse?
    BROLEZZI - Nunca. Toda vez que o numerário quer comprar uma cueca, por exemplo, tem de ir acompanhado de um outro numerário, que vai pagar com o dinheiro que o secretário do centro libera para compra de cuecas

sábado, 1 de abril de 2006

«Elezioni e laicità» (Comunicado da UAAR)

«I cittadini e le cittadine italiane saranno chiamate a esprimere il proprio voto il 9 e 10 aprile prossimi. L’UAAR ha esaminato i programmi delle forze politiche che si sono candidate a dirigere il Paese, ne ha estrapolato i passaggi significativi da un punto di vista laico (o confessionale) e li pubblica ora in questa sezione.

(...)

La nostra è un’associazione apartitica e ritiene che i navigatori del suo sito, e più in generale gli atei e gli agnostici italiani, siano persone perfettamente in grado di decidere da sole cosa votare, senza alcuna indicazione di voto. Ovviamente, l’UAAR ritiene che un voto consapevole debba tenere in debito conto le tematiche legate alla laicità delle istituzioni. Ma è comunque ben conscia che un voto “razionale” debba prendere in considerazione anche altri argomenti. Proprio per questo motivo fornisce anche i link che permetteranno a tutti coloro che lo desiderano di approfondire i programmi di coalizioni e partiti direttamente sui loro siti.

(...)


LA CASA DELLE LIBERTÀ
(direita)

(...)

In sintesi: la difesa dei valori religiosi e dei principi morali, la difesa della famiglia e delle nostre radici [sono] il centro strategico del disegno della CDL tanto sul lato politico quanto sul lato economico, tanto in Italia quanto in Europa.

Nel capitolo 5, Cosa faremo in futuro, al primo punto del programma è collocata la famiglia, da intendersi come: comunità naturale fondata sul matrimonio tra uomo e donna, che si promette sarà il centro privilegiato del rapporto fiscale basato sul criterio del quoziente familiare (pag. 11).

È inoltre promesso il sostegno alle famiglie per un'effettiva libertà di scelta educativa tra scuola pubblica e scuola privata (pag. 11), cioè altri finanziamenti alla scuola privata confessionale, posta - nonostante il divieto costituzionale - sullo stesso piano di quella pubblica.


(...)


L’UNIONE (esquerda)
Pagina 9. Noi affermiamo la laicità dello Stato.

11. Modificheremo il quorum previsto dall’art. 138 della Costituzione elevando la maggioranza necessaria per l’approvazione, in seconda lettura, di leggi di revisione costituzionale [ciò potrebbe compromettere definitivamente l’abolizione dell’art. 7 (Patti lateranensi)].

(...)

72. L’Unione proporrà il riconoscimento giuridico di diritti, prerogative e facoltà alle persone che fanno parte delle unioni di fatto. Al fine di definire natura e qualità di un’unione di fatto, non è dirimente il genere dei conviventi né il loro orientamento sessuale.

(...)

227. È infatti nella scuola che si forma la cittadinanza. Qui tutti crescono insieme, qui si costruisce la Repubblica, qui si gettano le fondamenta di un’etica pubblica laica e condivisa, rispettosa delle scelte, delle fedi, delle convinzioni di ognuna e ognuno.

228. Porremo il dialogo interculturale e interreligioso come obiettivo fondamentale del sistema dell’istruzione.

(...)»

(A documentação da Unione degli Atei e degli Agnostici Razionalisti sobre os programas eleitorais dos partidos italianos pode ser lida na íntegra aqui.)