Algo vai muito mal com a política de ciência em Portugal. A face mais visível do problema é a redução drástica na concessão de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento por parte da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), apesar de não ter existido uma diminuição equivalente da sua dotação orçamental.
Mas o que se passa verdadeiramente por detrás disto?
Em primeiro lugar, há um problema de revanchismo. O Governo actual e a FCT decidiram desmantelar o trabalho antes feito, sob a tutela do ministro Mariano Gago. Note-se que esse trabalho, embora não isento de problemas, permitiu a criação, pela primeira vez na nossa história, de uma verdadeira comunidade científica, com um bom número de doutorados e investigadores pós-doutorados. Mas a política actual quer acabar com isso porque os seus responsáveis consideram que todo o financiamento deve ir para "investigadores excepcionais" e não para a comunidade científica que temos (e podemos ter). Trata-se de um erro de palmatória já que, sem a massa crítica dos investigadores, nem os excepcionais conseguirão vingar.
Em segundo lugar, há um problema de incompetência técnica. A FCT decidiu mudar todos os procedimentos concursais para atribuição de bolsas e financiamento de projectos. Mas, indo contra as regras mais elementares de qualquer manual de políticas públicas, não acautelou a consolidação dos novos procedimentos nem o seu background tecnológico. A consequência de tudo isto tem sido um perfeito caos: atrasos sucessivos, incumprimento dos prazos, incongruências na avaliação de candidaturas, falta de transparência, etc. Presume-se que o dinheiro que deveria ter chegado à ciência terá em parte ficado perdido em todos estes processos.