quinta-feira, 16 de abril de 2015

Significado de «populismo»

No meu dicionário político, «populismo» é prometer algo que é universalmente desejado mas inalcançável (e portanto não anda muito longe de «demagogia»). Por exemplo: prometer acabar com os homicídios e as violações. Todos os cidadãos o querem, não houve na história humana nenhuma sociedade que o conseguisse. E se houvesse alguma iniciativa legislativa garantidamente 100% eficaz, com certeza já alguém a teria proposto. Com a corrupção passa-se o mesmo se nos restringirmos ao sentido exacto e legal desse crime. O problema é que o uso indiscriminado (e popular) do termo «corrupção» para exprimir nojo pelos políticos ou por quem tem dinheiro baralha frequentemente a discussão.

13 comentários :

  1. Já tinha visto este argumento, numa discussão contigo sobre este assunto. Nem parece teu.

    Prometer "diminuir o crime", tal como "diminuir a desigualdade" ou "diminuir a pobreza infantil" ou "diminuir a precariedade" não são objectivos inatingíveis. "Diminuir a corrupção" também não.
    Portanto o "combate à corrupção" é como o "combate ao desemprego" ou o "combate à precariedade".

    E de facto, muita gente à direita chama "populista" ao "combate à austeridade" (e a N outros combates e bandeiras da esquerda): quando não há argumentos para apresentar face a um valor/princípio/proposta que é popular usa-se o termo "populista" para fugir ao debate de ideias.

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    1. É possível uma sociedade humana sem desemprego, sem pobreza infantil, sem precariedade. Não é possível uma sociedade humana sem crime, e isto é válido quer para o homicídio quer para a corrupção. Pretender diminuir radicalmente a corrupção não é muito diferente de pretender diminuir drasticamente os homicídios.

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    2. «É possível uma sociedade humana sem desemprego, sem pobreza infantil, sem precariedade.»

      Não sei bem como imaginas uma sociedade sem desemprego. Existe o chamado "desemprego friccional" que existe pelo mero facto dos processos de candidatura e selecção das empresas demorarem o seu tempo, já sem falar no próprio processo de procura por parte dos potenciais empregados. Mesmo com muito mais postos de trabalho do0 que candidatos haveria desemprego.
      Acreditar que é razoável querer lutar contra o desemprego porque é possível acabar com ele é absurdo. Por essa lógica absurda, nunca mais poderá falar em luta contra o desemprego.

      Já eu, acho que faz sentido querer lutar contra problemas que possam ser atenuados, mesmo que não completamente erradicados no espaço de uma legislatura (como aliás é o caso da pobreza e infantil e precariedade, se formos realistas). Por isso acho razoável querer-se lutar contra o desemprego.

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    3. Uma sociedade sem desemprego é aquela em que só não trabalha quem não quer. E isso é possível.

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    4. Não é possível pela razão acima explicada: chama-se desemprego friccional. Desde que tu decides que queres trabalhar até encontrares o emprego onde queres trabalhar, e desde que te candidatas a esse emprego até que és aceite demora tempo. E mesmo num cenário com muito mais postos de trabalho disponíveis do que trabalhadores para os ocupar, o facto destes tempos não serem nulos implica que algum desemprego existe.

      Isto para já não falar numa outra questão, que até valeu o prémio nóbel ao Joseph Stiglitz e a muitos outros que estudaram o mesmo efeito: os "salários de eficiência". Significa que como a produtividade das pessoas aumenta com o salário, no global da economia deverá sempre existir uma fatia de desempregados, sem nada que possa ser feito para o evitar (a menos que deixes de funcionar em economia de mercado).
      Mas mesmo que não acredites neste efeito, que já valeu vários prémios Nobel, tens sempre o anterior, que é bastante simples.

      Desemprego existirá sempre.

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    5. De certa forma, existe uma maneira muito simples de não haver desemprego (se essa maneira é boa ideia é outra história) - o Estado (ou algo parecido) garantir postos de trabalho (mesmo que mal pagos e/ou pouco interessantes) a quem não consiga ou não queira arranjar trabalho no sector privado.

      https://en.wikipedia.org/wiki/Job_guarantee

      Note-se que, num sistema desses e com a definição de "sociedade sem desemprego" do Ricardo, mesmo com desemprego fricional poderia-se dizer que era uma sociedade sem desemprego - os desempregados fricionais só o eram porque não quiseram estar no "emprego mínimo garantido" do Estado.

      O salário de eficiência também não impede esse sistema - na verdade, em termos da mecânica dos incentivos, a dinâmica "bom emprego" vs. "emprego mínimos garantidos" funcionaria tal e qual como a dinâmica emprego vs.desemprego (os modelos matemáticos elaborados para estudar os salários de eficiência nem precisariam de ser alterados).

      Claro que poderemos questionar se um sistema desses continuaria a ser "funcionar em economia de mercado", mas penso que sim (não é menos economia de mercado do que muitas outras coisas)

      [Já agora, uma crítica que se pode fazer - e por vezes é feita - a essa proposta: a de que pouco mais é do que dar um spin positivo e "de esquerda" à velha conversa do "ponham os desempregados e o pessoal do RSI a limpar as matas!"]

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    6. Miguel Madeira,

      Seja.
      Mas isso tem uma conclusão muito curiosa: de acordo com a lógica absurda de que é demagógico um partido alegar que quer lutar contra um problema que não se pode erradicar totalmente, passa a ser particularmente demagógico um partido alegar que quer lutar contra o desemprego sem fazer uma proposta como essa que o erradique.

      Como o Ricardo Alves é dirigente de um partido que se apresenta como querendo lutar contra o desemprego, mas não apresenta essa proposta (fala-se em aumentar o número de funcionários públicos, mas creio que não passa pela cabeça de ninguém fazê-lo até que o desemprego chegue aos 0%) só podemos concluir que se trata de um partido populista e demagógico. O que até é chato, visto que sou membro desse partido.

      A outra opção é rejeitar a lógica ridícula de acordo com o qual só faz sentido batermos-nos por problemas hipoteticamente erradicáveis, e concluir que é perfeitamente razoável priorizar problemas que podem ser atenuados, mesmo que não completamente erradicados.

      Na verdade, até me surpreende que alguém defenda uma tese tão absurda, e depois insista nessa tese.

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    7. Há medidas bastante exactas do desemprego. Não há medidas exactas da corrupção. Mesmo os pretensos «especialistas» no assunto ficam-se pela «percepção» e pelos «indícios».

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  2. Isto para já não falar na insistência completamente absurda na definição que apresentas de corrupção. Já te apresentei vários argumentos, nunca apresentaste qualquer resposta satisfatória. Insistes que é assim porque é assim.

    Felizmente, isso é uma completa inconsistência da tua parte, porque em quase todos os assuntos tens uma visão menos "legalista", o que faz com que concordemos bastante em quase tudo. Na verdade, tendes a ser mais radical que eu na perspectiva legalista, por exemplo quando recusas que o Vaticano seja um estado.
    Mas quando toca à corrupção, tudo muda, e adoptas o extremo oposto, ignorando completamente quem estuda o tema. Até disseste que te estavas a marimbar para a perspectiva dos académicos. Depois condenas o "populismo"...

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    1. Não fui eu quem inventou aquela definição de corrupção. Foi o Ministério da Justiça. Que chamem também «corrupção» ao facto de um tipo que tem uma quota de sociedade de advogados ser deputado, desculpa, mas é uma extensão inaceitável do termo. Também não acho corrupção os deputados ganharem o que ganham, ou não terem um «período de nojo».

      Quanto aos académicos: eu pedi-te os artigos científicos onde está essa redefinição da corrupção.

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    2. Por acaso não tinhas pedido. Eu tinha-te falado nos livros que li sobre o assunto, não em artigos, e foi sobre os livros que me perguntaste (e eu respondi).

      Mas dá-se o caso feliz de até conhecer uma pessoa que investiga na área.
      Vou pedir-lhe essas referências e depois dou-te.

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