quarta-feira, 15 de abril de 2015

A corrupção é um problema importante

A corrupção será um problema especialmente grave em Portugal, a comparar com outros países desenvolvidos? Talvez seja.
Os dados relativos à "percepção da corrupção" por parte dos portugueses colocam Portugal em posição de destaque face aos outros países da OCDE, mas existem vários casos onde a percepção dos portugueses está muito deslocada da realidade. No entanto, existem outros dados que parecem confirmar esta percepção, desde inquéritos a investidores que investem fora do seu país, ou outros inquéritos relativos à percepção externa do país, passando por índices relativos às práticas empresariais. Infelizmente, no entanto, é impossível ter dados mais objectivos sobre um fenómeno tão difícil de definir como «a corrupção».
Existem estudos que demonstram que Portugal tem níveis reduzidos de «pequena corrupção» (de acordo com os inquéritos, o número de pessoas que pagaram um suborno na sua relação com os poderes públicos é muito baixo) pelo que a existir um problema seria sempre com a «grande corrupção» (ao nível das altas esferas). A reduzida taxa de acusações e condenações (exemplo)  tanto pode ser interpretada como um sinal da impunidade prevalecente e disfuncionalidade do nosso sistema de Justiça, como da relativa menor prevalência deste tipo de crime. Por muito risível que esta segunda interpretação pareça (como certamente me parece) a verdade é que neste domínio não existem provas inequívocas de que Portugal esteja numa situação mais grave que outros países desenvolvidos. Existem indícios fortes, e já não é pouco.

Mas mesmo que a situação de Portugal não fosse atípica a comparar com a de outros países desenvolvidos, ela não deixaria de ser grave. Uma ameaça séria à Democracia é promiscuidade entre poder político e poder económico, e Portugal tem-na em abundância. É normal que essa promiscuidade seja campo fértil para a corrupção, e indícios não faltam.
Na verdade, dificilmente a importância da luta contra a corrupção para o desenvolvimento pode ser sobrestimada.
E - reforço - o desenvolvimento económico e social não é a única vítima da corrupção, a preservação de um ambiente justo e livre, essenciais para a saúde da Democracia, estão também em causa. Luís de Sousa alerta:

«Os dados falam por si. Embora a democracia não esteja em risco de desconsolidação, a sua legitimidade tem sido seriamente questionada. Os níveis de insatisfação ascendem a dois terços da população e o apoio à democracia enquanto sistema de governo capaz de solucionar os problemas dos cidadãos e proporcionar-lhes qualidade de vida desceu de 81% em 1999 para apenas 56% em 2011.»

Nesse sentido, parece-me muito mais razoável ver este problema como prioritário, do que considerar «populista» quem assim pensa. Com todo o respeito pelo Ricardo Alves, aquilo que escreveu no texto anterior revela, a meu ver, uma condescendência perigosa, e uma alienação face a riscos reais (quase que lembra a nossa outra eterna polémica a respeito do aquecimento global).

Confesso que evito o termo populista, por não gostar da conotação negativa associada à popularidade de uma ideia. É verdade que existem inúmeras ideias «populares» e erradas, mas o insulto «populista» escusa-se a explicar o erro de uma ideia, como se a sua popularidade fosse evidência suficiente do seu erro. Se isso é grave do ponto de vista intelectual num debate puro de ideias, mais grave ainda é no contexto da discussão política numa Democracia que se quer saudável.

Por outro lado, não é verdade que os partidos existentes pouco possam fazer. Pelo contrário, é notável o pouco que têm feito. A este respeito, quando os portugueses se confrontam com os partidos com representação parlamentar, encontram três partidos que criaram em conjunto o actual problema, e são os menos interessados em resolvê-lo; e dois partidos que, devido às suas convicções marxistas, consideram que medidas eficazes na luta contra «a batota» só vão fortalecer as regras de um jogo ele próprio corrupto - o capitalismo.
Claro que existe um défice de representação, mas há muito a fazer para resolvê-lo.

Por fim, é verdade que muito do eleitorado que prioriza a corrupção está despolitizado. Este eleitorado é parte daquele que se tem afastado cada vez mais da vida política. Em grande medida corresponde a uma grande fatia das pessoas que fez os 18 anos nos anos 80 ou depois, e que portanto nunca chegou sequer a estar envolvido.
Esse alheamento é pouco saudável, e é alimentado quer pela condescendência com que são tantas vezes encarados por outros mais envolvidos, quer pela demagogia dos Marinhos e Pintos deste mundo que puxam pelo seu entusiasmo para depois os desiludirem com propostas vazias, e desrespeito pelas suas promessas impossíveis.

Parece evidente que preservar a Democracia passa por combater o afastamento de uma fatia cada vez maior do eleitorado. Mas para as forças progressistas, o combate a esse afastamento pode ser muito profícuo.
A partir do momento que se respeita a importância dada à questão da corrupção, é fácil verificar a relação estreita entre corrupção e desigualdade, com vias causais de parte a parte (corrupção causa desigualdade, desigualdade causa corrupção).




Se a isto juntarmos a prevalência da noção de que as actuais desigualdades são excessivas, parece claro que alguma humildade e disposição para trazer os menos politizados para a política além de ser essencial para preservar o regime democrático e todas as suas liberdades, também pode fortalecer as forças progressistas.

26 comentários :

  1. 1) A percepção não é sempre a realidade. Como admites, «existem estudos que demonstram que Portugal tem níveis reduzidos de "pequena corrupção"». E não há provas inequívocas de que haja «grande corrupção» generalizada em PT (se houvesse, apresentarias provas).

    2) É estatisticamente inevitável que num país pequeno (e com uma elite desproporcionadamente pequena) haja mais «promiscuidade» do que num país grande. Note-se que «promiscuidade» não é corrupção. É as pessoas terem vida fora da política.

    3) Para afirmar taxativamente que a corrupção prejudica gravemente o «desenvolvimento económico e social» será necessário ter números sólidos sobre a dimensão da corrupção. Não os vejo.

    4) «Condescendente» no sentido de «minimizar»? Bom, então peçam ao Paulo Morais que prove que o pedido de ajuda à tróica foi provocado pela «corrupção» (que é o que ele praticamnete chegou a dizer). Eu não estou convencido de que a subida das taxas de juro sejam devidas à «corrupção» grande ou pequena, e não acredito que tenha tido um impacto mortal no nosso desenvolvimento.

    5) Eu acho que o combate à corrupção compete à polícia e aos tribunais, não à política. Não vejo nenhuma medida revolucionária neste aspecto a ser avançada por ninguém.

    6) As pessoas que estão «desgostadas» da política serão mobilizáveis pelo «combate à corrupção»? Todas ou só algumas? Poucas ou muitas? Em todas as eleições ou só uma vez (depois vão dizer que o M&P tb dizia o mesmo e que as enganou...)? (Pergunto porque não sei as respostas, e porque acho que um grupo tão grande quanto um terço do eleitorado é muito pouco homogéneo.)

    João Vasco: eu não acho que seja importante, e sem números não me vão convencer.

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  2. 1) «Existem indícios fortes, e já não é pouco.»
    Aliás, escrevi várias linhas descrevendo uma série de indícios.

    2) «É estatisticamente inevitável que num país pequeno (e com uma elite desproporcionadamente pequena) haja mais «promiscuidade» do que num país grande.»
    Não vejo razão para a relação que estabeleces, e pelo contrário vejo vários exemplos do contrário. A Suécia é um país pequeno com menos promiscuidade a esse nível que Portugal, e os EUA são um país muito grande onde esse problema é muito mais grave. Na verdade, entre os países desenvolvidos, os EUA são tanto aquele que tem maior dimensão, como aquele onde esse problema é mais grave.

    (Continua)

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    1. João Vasco,

      1) A falha pode ser minha, mas não encontrei esses «indícios fortes» de «alta corrupção». A frase está no final de um parágrafo, nos seguintes abordas a questão por outro ângulo (como o da «promiscuidade», que tecnicamente não é corrupção).

      2) Talvez tenhas razão neste ponto, mas não conheço o suficiente da Suécia para rebater.

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    2. 1) Índicios fortes: dada a correlação entre desigualdade e corrupção (mais do estabelecida empiricamente), esta primeira é um indicador da segunda. Portugal é dos países mais desiguais da OCDE.
      Por outro lado, «existem outros dados que parecem confirmar esta percepção, desde inquéritos a investidores que investem fora do seu país, ou outros inquéritos relativos à percepção externa do país, passando por índices relativos às práticas empresariais. »
      E sim, é verdade que promiscuidade não é corrupção, mas, tal como a desigualdade, está muito relacionada, e funciona como indicador. Não te dá uma prova inequívoca, mas dá-te um indício muito forte.

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    3. Como sabes, correlação não é causalidade e nem sempre a percepção é a realidade.

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    4. Correlação não é causalidade, mas

      a) Estão estabelecidas (por quem estuda o assunto) relações causais entre relação e desigualdade e desigualdade e corrupção.

      b) Mesmo que não existisse qualquer relação causal, uma correlação forte é suficiente para que uma dessas variáveis seja um proxy da outra.
      Ou seja, mesmo sem relação causal, esta correlação continuaria a permitir encontrar na desigualdade um bom indicador da corrupção.

      E sobre os «inquéritos a investidores que investem fora do seu país, ou outros inquéritos relativos à percepção externa do país, passando por índices relativos às práticas empresariais», se percepção fosse realidade eu não estaria a falar de indícios fortes, mas sim de provas inequívocas.

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    5. De acordo duplamente: nem tens provas inequívocas, nem «correlação» anda muito longe de «indícios». Mas basear a acção política em indícios é sempre arriscado.

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  3. 3)
    «But even if a US$1 trillion estimate of the global size
    of bribery worldwide seems very large, it does not, in and
    of itself, give us much of a guide to the actual cost of corruption.
    Theoretically, it could be argued that all these
    bribes just grease the wheels of commerce, and no productive
    value added is lost to the economy.Therefore, to
    get a closer idea of the costs of corruption and poor governance,
    it is important to relate governance indicators
    with outcome variables, such as incomes or infant mortality,
    for instance.
    Thanks to the advances in empirical measurement, a
    number of researchers have examined the impact of governance
    on development.The research generally shows
    that countries can derive a very large development dividend,
    as we have called it, from better governance. Indeed, there
    is now a growing consensus among both academics and
    policymakers that good governance provides the fundamental
    basis for economic development. Academic
    research has focused on the effects of institutional quality
    on growth in the very long run, noting that there is a
    strong causal impact of institutional quality on per capita
    incomes worldwide.These estimates of the development
    dividend of good governance suggest that a realistic onestandard-
    deviation improvement in governance would
    raise incomes in the long run by about two- to threefold.
    Such improvement in governance by one standard
    deviation is feasible, since it is only a fraction of the difference
    between the worst and best performers, and would
    correspond, for instance, to an improvement in the current
    ratings of voice and accountability from the lowest levels
    of Myanmar to that of Kazakhstan, or Kazakhstan to
    Georgia, or Georgia to Botswana. For improvements in
    rule of law, a one standard deviation difference would constitute
    the improvement from the level of Somalia to those
    of Laos, from Laos to Lebanon, Lebanon to Italy, or Italy
    to Canada; for control of corruption it is the improvement
    from the lowest levels of Equatorial Guinea to those of
    Cuba, Honduras, or Uganda, from Uganda to Lithuania or
    Mauritius, from Mauritius to Portugal, or from Portugal to
    the stellar standards of Finland, Iceland, or New Zealand.
    We also find that even over much shorter periods, such as
    the past 10 years, countries with better institutional quality
    have grown faster. And in our research, we have also found
    that good governance not only matters significantly for
    higher incomes per capita, but also for substantially reducing
    infant mortality and illiteracy.
    Governance also matters significantly for a country’s
    competitiveness. For this year’s GCR, we performed a
    simple exercise, relating the recently released Governance
    Indicators (measuring country’s ratings for the 2004 period),
    with the updated Growth Competitiveness Index
    (GCI) for 2005, which is featured in this Report (Part 1). It
    should be noted that the data used to compute the GCI
    this year (drawn in large measure from this year’s Survey)
    did not feature in any of the calculations for the
    Governance Indicators, which utilized earlier data. Against
    such a background, it is noteworthy that the correlation
    between governance (measured through the Governance
    Indicators) and competitiveness (through the GCI) is
    extremely high.As we observe in Figure 1, for the case of
    one of the Governance Indicators, namely corruption
    control, the correlation is 0.9, i.e. an extremely tight fit.
    Obviously such a close correlation is highly significant statistically,
    and remains so after controls for income levels are
    included in econometric specifications which explain the
    country’s competitiveness. On average, an improvement in
    control of corruption by only one standard deviation
    (which is realistic) is associated with a jump in the GCI
    for a country by almost 30 rank positions. Even after controlling
    for the income level of the country, improvement
    in corruption control can produce a very large jump in
    the competitiveness of a country, between 15 and 20 rank
    positions.

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    1. Não conheço a origem do texto e portanto é difícil compreendê-lo correctamente, mas parece-me que a preocupação é mais com a «governança» do que com a corrupção.

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    2. A origem do texto: http://siteresources.worldbank.org/INTWBIGOVANTCOR/Resources/2-1_Governance_and_Corruption_Kaufmann.pdf

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  4. [...]
    The impact of poor governance and corruption is not
    limited to the corporate sector. In many countries, corruption
    represents a “regressive tax” on the household sector
    as well: as compared with higher-income groups,
    lower-income families pay a disproportionate share of
    their incomes in bribes to have access to public services,
    and end up with less access to such services because of
    corruption. Related, there is also the finding of research
    that corruption increases income inequality.»

    (Continua)

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    1. Como tu próprio reconheces no post, os subornos no acesso aos serviços públicos decresceram nas últimas décadas em PT: «Portugal tem níveis reduzidos de «pequena corrupção» (de acordo com os inquéritos, o número de pessoas que pagaram um suborno na sua relação com os poderes públicos é muito baixo)».

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    2. Mas o mecanismo descrito no parágrafo não se limita á pequena corrupção.

      A negociata dos submarinos, que levou a condenações na Alemanha e na Grécia, mas em Portugal nem por isso, certamente não conduziu a uma diminuição das desigualdades, bem pelo contrário. Favoreceu os mais ricos e influentes.
      Podes dizer que isso é apenas um exemplo, mas a pesquisa mais sistemática tem originado a mesma conclusão: «Related, there is also the finding of research
      that corruption increases income inequality».

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    3. João Vasco,
      o caso dos submarinos é bom para te explicar um dos meus problemas com o discurso anti-corrupção: acho pior o negócio em si (uma despesa enorme inútil) do que ter havido corrupção. O que eu quero criticar politicamente é ter-se gastado aquele dinheiro naquela aquisição. Ter ido 5% ou 10% em luvas acho secundário.

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    4. Se só importassem os recursos perdidos, talvez a diferença entre o benefício de ter um submarino e o prejuízo de ter pago um preço adequado (vamos supor, 10% inferior) seja maior que o pretenso valor das luvas, se bem que se trata de um prejuízo que, mesmo maior, é menos inequívoco.

      Mas é evidente que não importa apenas o valor total dos recursos à disposição, mas também a justiça na distribuição. Entre queimar dinheiro e atribuí-lo em favores que escapam ao controlo democrático há diferenças muito importantes.
      Diferenças económicas (o agravamento das desigualdades, a diminuição das oportunidades, a distorção dos incentivos, etc.) e, pior ainda, uma traição muito séria à confiança dos eleitores.

      Como eleitor é muito diferente saber que um político perdeu X de dinheiro porque cometeu um erro genuíno, ou porque colocou o lucro pessoal à frente do interesse público.
      Em qualquer relação, a honestidade tem muita importância. E isso é verdade para a relação entre os eleitores e os seus representantes. A corrupção é a violação mais grave e inequívoca dessa honestidade, e a maior agressão que se pode fazer a essa relação. Deve causar calafrios a qualquer democrata.

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    5. O homicídio causa-se mais calafrios do que a corrupção, mas aqui estamos a discutir sensibilidades pessoais.

      Quanto aos submarinos, comprá-los foi uma opção legítima mas errada. E esse prejuízo é muito maior do que o das «luvas».

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    6. «Quanto aos submarinos, comprá-los foi uma opção legítima mas errada. E esse prejuízo é muito maior do que o das «luvas».»

      Ok, ignoraste tudo o que escrevi, e voltaste a repetir o mesmo que tinhas dito acima.
      Não fiquei persuadido.


      «O homicídio causa-se mais calafrios do que a corrupção, mas aqui estamos a discutir sensibilidades pessoais.»
      Ok, e se calhar o extermínio da humanidade causa-me mais calafrios que a tortura. Mais do que sensibilidades pessoais, entrámos no campo do disparate.

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    7. O discurso político sobre a corrupção, regra geral, é um disparate.

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    8. Estás preocupado com «valores imateriais»: o facto de a corrupção ser uma injustiça. Ok. A mim preocupa-me mais uma desigualdade com origem legal.

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  5. 4) Eu sou da opinião que a causa da crise que aflige Portugal foi a crise do subprime em primeiro lugar, a forma desastrosa/alucinada/extremista como a UE (em particular os países da zona euro) reagiu à crise Grega.
    Posto que estas foram as causas da crise, é evidente que a corrupção deixou Portugal numa situação menos preparada. Isto não é a opinião do Paulo Morais ou Marinho Pinto é a opinião de todas as forças políticas (partidárias e não partidárias) que se têm centrado na luta pela reestruturação. Se leres o relatório da IAC - a associação menos extremista daquelas que propõem uma reestruturação - isso está lá escrito com todas as letras. Considerar que a corrupção colocou Portugal numa situação de maior fragilidade face à crise internacional não é uma posição "não ideológica", mas sim a posição de todos aqueles que têm estudado a necessidade de renegociar a dívida.

    5) E se, "hipoteticamente", os tribunais e a polícia não estivessem a funcionar como deviam? E se "hipoteticamente", o negócio dos submarinos tivesse resultado em condenações na Alemanha e Grécia, mas em Portugal tivesse sido obstruído por cortes no orçamento para perícias e situações afins?
    Parece-me também inconsistente defender duas posições opostas:
    a) Não se deve mudar a lei no sentido de combater a promiscuidade entre a política e os negócios. Se alguém "abusa" dessa possibilidade, os eleitores estarão conscientes e informados e farão uma penalização política desse facto, isso cabe aos cidadãos e não aos Tribunais.
    b) Quem denuncia casos de aparente conflito de interesses e promiscuidade entre a política e os negócios como bandeira de discurso político é um "moralista" demagógico. Ou bem que têm propostas para mudar a lei, ou bem que apresentam provas inequívocas de incumprimento da lei. Esta é uma questão que cabe aos Tribunais e não aos cidadãos.

    Não deixa de me surpreeender que defendas estes dois pontos de vista em simultâneo.


    6) As pessoas que estão «desgostadas» da política podem ser mobilizáveis por uma força política que interage com elas. E essa interacção passa também pelo "ouvir". Por dar valor ao que as preocupa.
    Desprezar essa preocupação certamente não ajuda a mobilizá-las.
    Agora, claro que faz sentido - seria até honesto - desprezar essa preocupação se, como acreditas, ela não faz sentido. Embora, mesmo aí, fosse melhor opção explicar o que te faz acreditar que esse problema não é grave, por oposição a caracterizar essa preocupação como "populista" e seguir em frente.

    Acontece que existem excelentes razões para acreditar que esta preocupação por parte das pessoas tem mesmo razão de ser.
    Daí ter procurado apresentá-las neste texto.

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    1. 4) Concordo. O problema principal é o sistema financeiro internacional, não a «corrupção». É por isso que os «populistas» são perigosos: porque criam uma manobra de diversão que prejudica quem quer atacar estes problemas.

      5) Se os tribunais estão a funcionar mal, que se faça alguma coisa para funcionarem melhor. Quem acha que a corrupção é um problema importante deve apresentar propostas concretas e exequíveis nessa matéria. Poderia ser esse o contributo dos «populistas», se não estivessem mais preocupados em explorar instintos primários.

      Eu sei, há quem sugira «períodos de nojo» radicais, em que no limite se impede pessoas de trabalhar por X anos porque passaram pelo governo/AR/autarquias. É uma proposta que criaria problemas ao (talvez) resolver (uma pequena parte) de outro. Porque implicaria: i) pagar a quem saiu da AR/governo/autarquias durante X anos (criar um privilégio); ii) criaria um incentivo para a profissionalização da política (que considero um problema mais grave do que a «promiscuidade»).

      Quanto aos pontos a) e b), eu sei que te surpreende mas não vejo contradição. a) Para actos pouco éticos há sanções morais e não legais; b) Para actos ilegais, há os tribunais.

      E quem quiser mudar a lei que o proponha. Só que conceitos tão vagos e carregados de moral como «promiscuidade», não sei que alterações seriam essas.

      6) Sim, acho que se deve explicar às pessoas que «corrupção» não é aquilo que alguns dizem. Por exemplo, ter tido ou vir a ter vida profissional fora da política não é corrupção. E escravizarem-nas com empréstimos não é corrupção, é o sistema bancário actual. Etc.

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  6. 4) É normal que concordes, pois só falaste do primeiro parágrafo em que apontei aquilo em que estávamos de acordo.
    Mas ignoraste o parágrafo seguinte. Também concordas com esse?

    5) A mim não me interessam as "sanções morais", porque eu não sou amigo dos visados. O que interessa são as "sanções políticas".
    Por exemplo, Joaquim Ferreira do Amaral negociou em nome do estado a concessão da Lusoponte. Depois foi contratado pela Lusoponte.

    Parece fácil de compreender que alguém veja aqui uma "porta giratória" muito preocupante que custa balúrdios ao erário público, e queira ilegalizar esta prática.
    Estes querem "meter mãos à obra" e têm uma proposta concreta para ileglizar este tipo de situações.

    Depois tu dizes "Ah e tal, não convém porque é impossível ilegalizar essas situações sem ilegalizar também uma série de outras muito menos questionáveis, e as consequências inadvertidas disso seriam muito graves.", eu posso considerar que isso é uma argumentação séria se também disser "como tal, a lei é uma ferramenta muito grosseira para lidar com este problema, cabe aos eleitores estarem informados e fazer as punições POLÍTICAS adequadas para quem "estica" o espaço de manobra que a lei dá".
    Se em vez disso a tua posição é "as más acções ficam com quem as pratica", que recebe "sanções morais", sinceramente isso parece-me a receita para a impunidade total, e um risco enorme sobre o regime democrático, completamente indefeso perante estas atitudes de abuso.

    Não sei se devo aceitar que a lei permita este tipo de situações, mas é evidente que - a permitir - terá de existir um eleitorado atento que denuncia e pune politicamente quem "estica" a lei ao máximo.

    Mas se no contexto de mudar a lei se diz que isto não é problema dos Tribunais mas dos eleitores, e no contexto do debate político e denúncia destas situações se diz que isto não é problema dos eleitores mas dos Tribunais, então a situação parece-me complemente inaceitável.
    Se não existe nenhum sistema que evite abusos, eles vão existir.
    E são um pouco mais graves que "as praxes".

    6) «Por exemplo, ter tido ou vir a ter vida profissional fora da política não é corrupção.»
    Isso é um espantalho. Ninguém alega isso. Os casos do Ferreira do Amaral ou Jorge Coelho são mais do que "ter vida profissional fora da política". E acho que compreendes perfeitamente a distinção.
    "E escravizarem-nas com empréstimos não é corrupção, é o sistema bancário actual."
    Sabe-se hoje que a bolha que culminou com a crise do subprime esteve associada a inúmeras práticas corruptas. O próprio departamento de justiça dos EUA explicou que não iria prosseguir com inúmeras queixas pelo impacto económico que elas teriam. Esta completa distorção de como deve funcionar o sistema judicial é eloquente na forma como demonstra a relação estreita entre a corrupção e a crise financeira.
    Podia agora concretizar com inúmera informação sobre este assunto em específico, mas é mesmo muita e o meu tempo é algo limitado. Quando tiver tempo escrevo um post sobre este assunto.

    Pelo caminho até sugiro que leias aquilo que o Rui Tavares tem escrito sobre a relação entre a fuga fiscal e escândalos como o LuxLeaks e a crise europeia em que nos encontramos.

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    1. 4) Os 5% ou 10% da corrupção pioram uma série de outros problemas. Mas não deixam de ser 5% ou 10% secundários face a problemas muito maiores.

      5) O que é que propões concretamente para resolver esse problema?

      6) "«Por exemplo, ter tido ou vir a ter vida profissional fora da política não é corrupção.»
      Isso é um espantalho. Ninguém alega isso."

      O Paulo Morais diz que o simples facto de haver deputados que simultaneamente são sócios de escritórios ou administradores de empresas é corrupção.

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    2. 4) Se a tua posição é "a corrupção é um problema grave mas não é o problema mais grave de todos", afinal estamos de acordo.
      Se a tua posição entra no domínio do "como não é o problema mais grave de todos não se devia perder tanto tempo com ela", lembra-me aqueles que por falta de argumentos contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo alegavam que se perdia demasiado tempo a discutir o assunto. Sempre sugeri que não o fizessem: se não obstassem a quem queria falar sobre esse assunto e resolver o problema, perdia-se muito menos tempo a discuti-lo.

      5) Ainda ontem/anteontem enviei ao André Barata umas 5 páginas com propostas várias. Mas enquanto não concordarmos no mais óbvio - que esta é uma questão importante que merece ser enfrentada - faz pouco sentido andar a discutir uma vasta lista de propostas.

      6) Ele não diz isso, mas faz a relação entre uma coisa e outra. E, de facto, estão relacionadas.
      E geralmente, quando ele faz a relação entre uma coisa e outra, fala sobre um conjunto de práticas, essas sim profundamente corruptas.

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    3. «quando ele faz a relação entre uma coisa e outra, fala sobre um conjunto de práticas, essas sim profundamente corruptas»

      Em que ficamos?

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    4. 4) Se calhar não fui absolutamente claro: a questão não é a corrupção ser ou não grave (ao contrário de ti, ignoro os montantes envolvidos). O facto é que não deve uma questão política. A menos, repito, que haja alguma forma de legislar de forma a diminui-la significativamente.

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