A minha ideia dominante sobre as eleições europeias que se aproximam tem sido o como lamento que ainda não seja desta vez que vamos poder votar para uma assembleia constituinte Europeia e (finalmente) dar um enorme passo em frente na construção de uma Europa unida e democrática. Contudo, há outra questão preocupante que se passa com o presente acto eleitoral. Provavelmente não tenho nada de muito novo para dizer, mas não consigo deixar de achar estranho o possível resultado das eleições europeias do próximo domingo.
Comecemos pelo lado nacional: em termos efectivos existem 3 partidos em quem podemos votar, e não os habituais 5. Com PSD e CDS integrados no PPE (Partido Popular Europeu), PS no PSE (Partido Socialista Europeu) e BE e CDU no GUE/NGL (Grupo de Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde) as escolhas são bem menores do que a maior parte das pessoas parecem querer ver.
Neste contexto, parece-me algo aberrante que um eleitor tradicional de centro direita, votante do PSD, e a quem nunca lhe passasse pela cabeça votar num partido como o CDS, possa agora seguir votando PSD como se nada fosse. Que possa ignorar que, ao nível das europeias, é
exactamente a mesma coisa votar PSD ou CDS pois está apenas a votar no PPE. O argumento de estar a votar num deputado em particular pelo seu bom desempenho anterior, e não no partido, não cola por completo (e isto sem lembrar que o cabeça de lista do PSD é um ex-militante do CDS): no caso PSD/CDS há um único candidato "repetente", a quem nem sequer tem sido dado qualquer destaque mediático (ao contrário aliás do que se passa no caso do BE/CDU, onde me parece fácil distinguir as actuações passadas da Ilda Figueiredo e do Miguel Portas enquanto deputados europeus). Mas mesmo que aceitemos esse ponto, ainda resta um pior: o voto no PPE, que de "social democrata" não tem absolutamente
nada!
Passemos então mais ao lado Europeu da questão: em quem votamos quando votamos PPE? Neste sentido, o PSE elaborou um documento interessante, que podemos encontrar
aqui, e que agradeço ao
O Valor das Ideias pelo link. Votar PPE é votar em Berlusconi, um corrupto condenado judicialmente. Votar PPE é votar em Epping ou Hortefeux, conhecidos xenófobos. Votar PPE é votar em Oreja, um aparente apoiante de Franco. Votar PPE é ainda votar Griffin, um negacionista do holocausto (não sei como qualificar esta sua frase:
"I have reached the conclusion that the 'extermination' tale is a mixture of Allied wartime propaganda, extremely profitable lie, and latter witch-hysteria"), ou em muitas outras pessoas do mesmo calibre que podem ser encontradas no documento indicado em cima. Votar PPE é apoiar a vinda de todas estas personagens para o parlamento europeu e fortalecer o seu poder!
E no entanto... em Espanha o "franquista" segue no
topo das sondagens, e por essa Europa fora as sondagens indicam-nos que o novo parlamento será algo deste género:

O PPE, apesar de baixar na sua votação, mantém-se como a maior força do parlamento europeu. A discussão mais detalhada pode ser encontrada
aqui, mas o que me espanta --- o que, para mim, é um mistério --- é como pode ser possível que se espere um novo parlamento onde o centro-direita tenha 42% dos deputados e o centro-esquerda 40%, sendo no seu total o parlamento europeu mais centrado à direita do que à esquerda... E a razão pela qual isto é um mistério tem a ver com o último ano, em que o neo-liberalismo se mostrou pelo desastre que realmente é, e onde por todo o mundo se pediu e concretizou uma mudança além-atlântico, com a vitória de Obama e a derrota do Partido Republicano nos Estados Unidos.
De facto, se quisermos ser algo simplistas, ignorando a natureza bi-partidária norte-americana
versus a natureza multi-partidária europeia, podemos nos questionar como é possível que o PPE (análogo do Partido Republicano) possa ganhar as eleições contra o PSE (análogo do Partido Democrata) neste cenário de falência do neo-liberalismo (sim, eu sei que estou a simplificar a coisa, mas
deep down a analogia é válida). E ainda mais me espanta tal coisa, quando --- voltando a Portugal --- muitos dos potenciais eleitores do PSD nunca na vida votariam no Partido Republicano, em Bush ou em McCain... Serão cegos ou serão surdos?? Não conseguem ver o PSD por aquilo que é a nível europeu?
Com este cenário a compor-se, parece que apenas a Europa não vai conseguir apagar o rosto do passado (nunca é demais lembrar que uma nódoa é sempre uma nódoa, e não é por ser portuguesa que devemos entrar no provincianismo extremo de a defender, muito pelo contrário!):

Isto, apesar desse mesmo rosto ser de longe o
menos preferido para se manter à frente da comissão, como podemos ver
aqui... Não sei se isto é triste, decadente, ou patético...
Perante isto, e no cenário nacional, apenas posso fazer um
muito forte apelo ao voto ou no PSE ou no GUE/NGL, por forma a tentar ajudar à derrota do PPE, e a tentar mudar de uma vez por todas o caminho em que a Europa se encontra! Já todos deviamos saber onde nos leva esta estrada neo-liberal, e não me parece que tenha trazido nada de bom para os povos da Europa. Como diziam do outro lado do atlântico, e que me parece que podemos ainda dizer deste lado:
Change? Yes, We Can!Vamos todos participar nesta última semana com a força e o querer da mudança por forma a re-organizar as forças dominantes no Parlamento Europeu!