quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

A consciência que objecta

O papa dos católicos romanos quer que os farmacêuticos aleguem «objecção de consciência» para não venderem a «pílula do dia seguinte». Duvido que os comerciantes do ramo dos medicamentos concordem em reduzir o âmbito do seu negócio, mas é divertido imaginar um mundo onde todos pudéssemos invocar «objecção de consciência» em cada aspecto da nossa vida profissional. Por exemplo: os médicos poderem recusar-se a fazer transfusões de sangue; os comerciantes poderem recusar vender fosse o que fosse a homossexuais, ou a mulheres com a cara destapada; os vendedores de calendários poderem recusar fornecê-los a casais que os utilizassem na sua estratégia contraceptiva; os professores poderem negar-se a ensinar a teoria da evolução; os produtores de vinho poderem recusar vender carrascão para ser usado nas missas católicas... Pensando melhor, o mundo da «objecção de consciência» de Ratzinger não parece divertido: parece assustador.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

o ópio do povo

a Pew Global Attitudes Project fez sair recentemente um estudo onde, entre outras coisas, analisa uma eventual correlação entre religião e o PIB per capita. o gráfico em questão não deixa de ser curioso:



a medição de "religiosidade" varia numa escala de 0 a 3 (sendo 3 o nível mais religioso), com a pontuação atribuida da seguinte forma: 1 ponto se os inquiridos consideram que "a fé em deus é necessária para a moralidade", 1 ponto se os inquiridos consideram que "a religião é importante nas suas vidas", e 1 ponto se os inquiridos consideram que "rezam pelo menos uma vez por dia". os resultados aí estão para observar sem mais: nas nações mais pobres a religião mantém-se central na vida dos povos, enquanto que perspectivas mais seculares são comuns nas nações mais ricas.

note-se contudo que a correlação diz respeito a nações e não a indivíduos, i.e., não podemos do gráfico concluir que existe correlação entre um indivíduo ser pobre e ser muito religioso, ou ser rico e ser pouco. mas parece-me que a tendência indicada perspectiva um futuro auspicioso para todos!

(Esquerda Republicana / Diário Ateísta)

terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Hipocrisias

  • «Gordon Brown vai receber em Downing Street o líder de um país que a Amnistia Internacional diz ser palco de violações diárias dos mais fundamentais direitos humanos. É o mesmo Brown que recusa participar na cimeira UE-África, marcada para Dezembro, em Lisboa, caso o líder do Zimbabwe, Robert Mugabe, compareça no encontro.» (Diário de Notícias)
A diferença é que Mugabe é o tiranete de um paupérrimo país africano, e Abdallah é o rei absoluto do Estado que produz 25% do petróleo mundial. Só isto.

Cheque-ensino

Estava a ver se encontrava a expressão que os neoliberais portugueses usaram para traduzir os ‘school vouchers’ dos neocons americanos. Ninguem na extrema-direita tem ideias novas: as coisas são arquitectadas aqui nos ‘think tanks’ da extrema-direita e traduzidas para os blogs neoliberais portugueses como se fossem receitas pensadas para o país.

Mas a verdade é que os ricos estão ricos demais e começaram a perder a cabeça há mais ou menos 20 anos. Tanto dinheiro deu-lhes uma vertigem e acabaram por perder a vergonha e o sentido da decência.

Agora, a pequena oligarquia que detém metade da riqueza do planeta – e que se reúne, à porta aberta, várias vezes por ano para combinar estratégias – quer roubar-nos tudo. A privatização da educação tem várias componentes.

Primeiro o desinvestimento no ensino público, para que os filhos dos pobres não possam competir com os dos ricos para os melhores empregos.

Segundo o controlo ideológico das escolas que se pretende que venham a produzir os quadros do futuro.

Terceiro o roubo dos impostos dos cidadãos através dos chamados cheque-ensino, que são um subsidio desavergonhado ao ensino privado.

O resto é conversa de blogues e ideologia de café... não está demonstrado que os privados façam melhor que os públicos em nenhum sector. Esta ideia é um axioma de fé, tão ridículo e improvável como a ideia do homem novo dos marxistas.

É o quê?

«No Blasfémias, o João Miranda escreveu:

«O ensino privado e o ensino público competem com armas desiguais. O ensino público tem os seus custos de funcionamento e de investimento pagos pelo Estado. O ensino privado tem que pagar os custos de investimento e de funcionamento com as receitas que consegue atrair. O ensino público tem preço zero para o cliente, o ensino privado cobra propinas ao cliente.
Tendo em conta a total desigualdade de armas, é notável que algumas escolas privadas consigam aparecer no topo dos rankings.»


A ideia é que o ensino privado é tão mais eficiente que mesmo sem o financiamento público consegue ter resultados melhores. E é verdade que o sector privado é mais eficiente. Mas importa ver em quê.

O sector privado é mais eficiente a dar dinheiro aos donos. É para isto que o sector privado serve. Todas as empresas privadas visam produzir um só produto: o lucro para os accionistas. O resto é acidental. A bolacha, o automóvel, a operação plástica ou a média de 13 no exame nacional são meros efeitos secundários do processo de gerar lucro.

A privatização é uma boa ideia quando o objectivo coincide com a maximização do lucro. Se o objectivo é educar os filhos dos ricos o ensino privado garante a qualidade de educação que optimiza o lucro. Quanto mais ricos os pais melhor será este efeito secundário da produção de dividendos, e temos a garantia que os dividendos serão gerados com eficiência. Se não, fecha-se a escola, monta-se um centro comercial e os miúdos que vão estudar para casa.

Mas se o objectivo é garantir que todos tenham acesso à educação a situação é diferente. O sector privado é notoriamente ineficiente a prestar serviços a quem não os pode pagar.»

Nota: aproveitando a política de ausência de direitos reservados ( ;) ), este texto é descaradamente copiado do blogue Que Treta!.

Petição contra a excisão

Apesar de esta petição não condenar a mutilação genital masculina (efeitos do «religiosamente correcto»?), vale a pena ser assinada:

segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

melhor máscara do halloween de 2007

e o prémio vai para:



(indecentemente roubado de roissy in dc)

(Esquerda Republicana / Diário Ateísta)

domingo, 28 de Outubro de 2007

Beatificai-os também

O Ratzinger e o Saraiva Martins andam a beatificar franquistas abatidos durante a guerra civil espanhola. Por mim, também podem beatificar estes:
E mais estes:
  • «[A guerra é] a Cruzada mais elevada que os séculos já viram (...) uma cruzada onde a intervenção divina a nosso favor é bem patente» (bispo de Pamplona);
  • «A guerra é cem vezes mais importante e sagrada do que o foi a Reconquista» (bispo de Segóvia);
  • «A guerra foi pedida pelo Sagrado Coração de Jesus que deu forças aos braços dos bravos soldados de Franco» (arcebispo de Valência);
  • «A igreja, apesar do seu espírito de paz (...) não podia ficar indiferente na luta (...) Não havia em Espanha nenhum outro meio para reconquistar a a justiça e a paz e os bens que dela derivam que não fosse o Movimento Nacional» (carta pastoral dos bispos espanhóis);
  • «[O General Franco] é o instrumento dos planos de Deus sobre a Terra» (cardeal Goma)
  • «[A guerra é] uma luta entre a Espanha e a anti-Espanha, a religião e o ateísmo, a civilização cristã e a barbárie» (cardeal Goma);
  • «Judeus e maçãos envenaram a alma nacional com ideias absurdas» (cardeal Goma);
  • «Ninguém pode negar que o 'deus ex machina' de esta guerra foi o próprio Deus, a sua religião, os seus foros, a sua lei, a sua existência e a sua influência atávica na nossa história» (carta pastoral dos bispos espanhóis);
  • «Os galantes mouros (...) embora tenham retalhado o meu corpo apenas ontem, merecem hoje a gratidão da minha alma, pois estão a combater pela Espanha contra os espanhóis... Quero dizer os maus espanhóis... Estão a dar a sua vida em defesa da sagrada religião espanhola, como prova a sua presença no campo de batalha, escoltando o Caudillo e amontoando santos medalhões e corações sagrados nos seus albornozes» (General Millan Astray, fundador da Legião Estrangeira);
  • «Para milhões de espanhóis (...) o cristianismo e o fascismo misturaram-se e é impossível odiarem um sem odiarem o outro» (François Mauriac, em carta ao cunhado de Franco);
  • «[A guerra é] um teste de força entre o comunismo judeu e a nossa tradicional civilização ocidental» (Hilaire Belloc);
  • «Elevando a nossa alma a Deus, congratulamo-nos com Vossa Excelência pela vitória tão desejada da Espanha católica. Formulamos os nosso votos de que o vosso querido país, uma vez obtida a paz, retome com vigor acrescido as suas antigas tradições cristãs que lhe grangearam tanta grandeza. É animado por estes sentimentos que dirigimos a Vossa Excelência e a todo o nobre povo espanhol a Nossa benção apostólica» (Pio 12, papa da ICAR, em mensagem dirigida a Franco na véspera da conquista de Madrid).

E não se esqueçam do bispo de Málaga:
[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

sábado, 27 de Outubro de 2007

todos iguais. ponto.

nunca é tarde para prestar as devidas homenagens à teresa, à helena e ao luís por estarem a fazer História. para ler e ver. as alegações finais para o tribunal constitucional podem ser lidas aqui. é com pessoas assim que todos andamos em frente.

pinker doesn't let it linger...

«[...] What makes an idea "dangerous"? One factor is an imaginable train of events in which acceptance of the idea could lead to an outcome that only recently has been recognized as harmful. In religious societies, the fear is that that if people ever stopped believing in the literal truth of the Bible they would also stop believing in the authority of its moral commandments. That is, if today people dismiss the part about God creating the earth in six days, tomorrow they'll dismiss the part about "Thou shalt not kill." In progressive circles, the fear is that if people ever were to acknowledge any differences between races, sexes, or individuals, they would feel justified in discrimination or oppression. Other dangerous ideas set off fears that people will neglect or abuse their children, become indifferent to the environment, devalue human life, accept violence, and prematurely resign themselves to social problems that could be solved with sufficient commitment and optimism.

All these outcomes, needless to say, would be deplorable. But none of them actually follows from the supposedly dangerous idea. Even if it turns out, for instance, that groups of people are different in their averages, the overlap is certainly so great that it would be irrational and unfair to discriminate against individuals on that basis. Likewise, even if it turns out that parents don't have the power to shape their children's personalities, it would be wrong on grounds of simple human decency to abuse or neglect one's children. And if currently popular ideas about how to improve the environment are shown to be ineffective, it only highlights the need to know what would be effective [...]

Should we treat some ideas as dangerous? Let's exclude outright lies, deceptive propaganda, incendiary conspiracy theories from malevolent crackpots, and technological recipes for wanton destruction. Consider only ideas about the truth of empirical claims or the effectiveness of policies that, if they turned out to be true, would require a significant rethinking of our moral sensibilities. And consider ideas that, if they turn out to be false, could lead to harm if people believed them to be true. In either case, we don't know whether they are true or false a priori, so only by examining and debating them can we find out [...]»


("Preface to Dangerous Ideas", Steven Pinker, Edge 214)

sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Amor cristão

O vice presidente Cheney dorme uma soneca durante a reunião sobre os fogos na Califórnia. :o)

Uma educação cristã

Os que defendem que o cristianismo é um farol moral deviam ler aqui a biografia do fundador e único dono da empresa Blackwater, e depois ver o que acontece quando se privatiza a tropa aqui.

Neoliberalismo: o milagre argentino

A ler o livro de Naomi Klein: para relembrar a política que os Chicago Boys de Milton Friedman receitaram aos chilenos, aos argentinos e aos uruguaios. O testemunho de Rodolfo Walsh.

O que é que a religião tem de bom?

Ensino Público/Privado e seus "Rankings"

Embora isso não se suceda no que diz respeito às universidades e politécnicos, muitas pessoas (e muitos pais) acreditam que o ensino privado é muito superior ao ensino público.
Notícias como esta acentuam essa noção. Muitos imaginarão que os resultados obtidos nos exames nacionais nas escolas privadas e públicas são muito diferentes.

Isso não é verdade.
A média de todos os exames realizados por alunos do ensino público é de 10,05.
A média de todos os exames realizados por alunos do ensino privado é de 10,75.
Um diferencial de 0.7 numa escala de 0 a 20.

O leitor pode chegar aos mesmos resultados por si. Eis como calculei este valor:

1) O JN disponibolizou os resultados do ranking em excel

2) Na célula H5 colocar: =(IF(D5="PUB";1;0))*F5
Arrastar a célula por forma a abranger toda a coluna.

3) Na célula I5 colocar: =(IF(D5="PUB";0;1))*F5
Arrastar a célula por forma a abranger toda a coluna.

4) Na célula J5 colocar: =H5*G5
Arrastar a célula por forma a abranger toda a coluna.

5) Na célula K5 colocar: =I5*G5
Arrastar a célula por forma a abranger toda a coluna.

6) Na célula H613 colocar: =SUM(H5:H612)
Na célula I613 colocar: =SUM(I5:I612)
Na célula J613 colocar: =SUM(J5:J612)
Na célula K613 colocar: =SUM(K5:K612)

7) Na célula J614 colocar: =J613/H613
Na célula K614 colocar: =K613/I613

E aí estão os resultados.
Para mim foram surpreendentes.

quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

quem é manhoso, quem é?

«Bagão Félix, o pior ministro das Finanças desde a ditadura de Pimenta de Castro, sem rival na incoerência, mediocridade e erros do Orçamento de Estado (OE) que elaborou antes de ter sido despedido com Santana Lopes, atreve-se a qualificar o OE para 2008 como um «orçamento manhoso».

O mais reaccionário e impiedoso de todos os ministros que comprometeram a honra e a credibilidade dos Governos de Durão Barroso e Santana Lopes apresenta-se agora como especialista da matéria onde falhou clamorosamente.

Só lhe falta falar de «boys», ele que demitiu por fax, de uma só vez, todos os dezoito directores e igual número de subdirectores da Segurança Social cuja ilegalidade obriga, agora, ao pagamento de pesadas indemnizações, na sequência de decisão judicial.

Bagão Félix, o mais zeloso acólito de Paulo Portas, na pressa de colocar correligionários na Segurança Social, nem reparou que demitiu alguns que se mantiveram durante os seis anos de Guterres, herdados do Governo de Cavaco.

As críticas de Bagão, vindo de quem vêm, são auspiciosas para o OE.»


(Carlos Esperança no Ponte Europa 24.Outubro.2007)

ideias perigosas, ou respostas difíceis?

«[...] Do women, on average, have a different profile of aptitudes and emotions than men? Were the events in the Bible fictitious — not just the miracles, but those involving kings and empires? Has the state of the environment improved in the last fifty years? Do most victims of sexual abuse suffer no lifelong damage? Did Native Americans engage in genocide and despoil the landscape? Do men have an innate tendency to rape? Did the crime rate go down in the 1990s because two decades earlier poor women aborted children who would have been prone to violence? Are suicide terrorists well educated, mentally healthy, and morally driven? Are Ashkenazi Jews, on average, smarter than gentiles because their ancestors were selected for the shrewdness needed in money lending? Would the incidence of rape go down if prostitution were legalized? Do African American men have higher levels of testosterone, on average, than white men? Is morality just a product of the evolution of our brains, with no inherent reality? Would society be better off if heroin and cocaine were legalized? Is homosexuality the symptom of an infectious disease? Would it be consistent with our moral principles to give parents the option of euthanizing newborns with birth defects that would consign them to a life of pain and disability? Do parents have any effect on the character or intelligence of their children? Have religions killed a greater proportion of people than Nazism? Would damage from terrorism be reduced if the police could torture suspects in special circumstances? Would Africa have a better chance of rising out of poverty if it hosted more polluting industries or accepted Europe's nuclear waste? Is the average intelligence of Western nations declining because duller people are having more children than smarter people? Would unwanted children be better off if there were a market in adoption rights, with babies going to the highest bidder? Would lives be saved if we instituted a free market in organs for transplantation? Should people have the right to clone themselves, or enhance the genetic traits of their children?

Perhaps you can feel your blood pressure rise as you read these questions. Perhaps you are appalled that people can so much as think such things. Perhaps you think less of me for bringing them up. These are dangerous ideas — ideas that are denounced not because they are self-evidently false, nor because they advocate harmful action, but because they are thought to corrode the prevailing moral order.

By "dangerous ideas" I don't have in mind harmful technologies, like those behind weapons of mass destruction, or evil ideologies, like those of racist, fascist, or other fanatical cults. I have in mind statements of fact or policy that are defended with evidence and argument by serious scientists and thinkers but which are felt to challenge the collective decency of an age. The ideas in the first paragraph, and the moral panic that each one of them has incited during the past quarter century, are examples. Writers who have raised ideas like these have been vilified, censored, fired, threatened, and in some cases physically assaulted [...]»


("Preface to Dangerous Ideas", Steven Pinker, Edge 214)

segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

be afraid... be very afraid...

diz que é uma espécie de corrupção



ora para quem tem, a coisa é mais fácil; basta ir ao BCP:

«[...] Jorge Jardim Gonçalves pôs um ponto final à relação comercial do filho, Filipe Gonçalves, com o Banco Comercial Português (BCP), pagando 10 milhões de euros que este devia ao banco [...]»

(PÚBLICO.PT 22.10.2007)

a minha questão é: mas ninguém prende esta gente??

Boas novas vindas da Polónia

Tusk vence eleições.
A Polónia já se livrou de um dos gémeos severamente castigado nas urnas pela sua política vergonhosa.

domingo, 21 de Outubro de 2007

a lendária tolerância suíça

«[...] A União Democrática do Centro (UDC) venceu este acto eleitoral com quase 29 por cento dos votos, mais dois pontos que em 2003, um resultado que Yvan Perrin, vice-presidente desta formação política, lembrou ser o «melhor resultado de um partido desde 1919».

A campanha da UDC ficou marcada pela denúncia dos criminosos estrangeiros e pela imagem de uma ovelha negra a ser expulsa por um ovelha branca do território nacional.

Esta campanha chegou mesmo a provocar algumas cenas de violência, raramente vistas na Suíça, durante um comício da UDC na capital Berna [...]»


(TSF 21 de Outubro 07)

sábado, 20 de Outubro de 2007

Teresa de Ávila

  • «(...) Neste estado, agradou ao Senhor dar-me a visão que aqui descrevo. Vi um anjo perto de mim, do meu lado esquerdo; não era grande, mas sim pequeno e muito belo; o seu rosto afogueado parecia indicar que pertencia à mais alta hierarquia, aquela dos espíritos incendiados pelo amor. Vi nas suas mãos um longo dardo de ouro com uma ponta de ferro na extremidade da qual ardia um pouco de fogo. Às vezes, parecia-me que ele me trespassava o coração com esse dardo, até me chegar às entranhas. Quando o retirava, parecia-me que as levava consigo, e ficava em chamas, totalmente inflamada de um grande amor por Deus. Era tão grande a dor, que me fazia dar gemidos, mas ao mesmo tempo era tão excessiva a suavidade que me punha essa enorme dor, que não queria que terminasse, e a alma não se podia contentar com nada menos do que Deus. Este sofrimento não é corporal, mas sim espiritual, e no entanto o corpo participa, e não participa pouco.»
A prosa que se lê mais acima, caras leitoras e caros leitores, é da autoria de Teresa de Ávila, uma pobre rapariga espanhola que foi freira durante mais de meio século, no século 16. Entrou para a vida de convento aos dezasseis anos e, como se pode depreender do texto exposto, sentia-se sexualmente frustrada de uma forma terrível. Os católicos consideram-na «santa», mas deveriam realmente meditar nas vidas ardentes que se estragaram em tantos conventos e seminários, e das quais esta mulher é um mero exemplo.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

pedro nunes is... above the law!

«[...] Com base num parecer da Procuradoria-Geral da República, o Ministério da Saúde (MS) concluiu que a Ordem dos Médicos vai ter que alterar o seu Código Deontológico em relação ao aborto por desrespeitar a lei actual que despenalizou a interrupção voluntária da gravidez por opção da mulher até às dez semanas. O bastonário da Ordem dos Médicos (OM) qualifica o acto do ministro da saúde de "inútil, arrogante e prepotente". [...]»

(PÚBLICO.PT 18.10.2007)

a lendária tolerância católica

«No one expects the Spanish Inquisition!

Na sequência da exposição da obra artística de JAM Montoya denominada Beata Ludovica Albertoni, recebi os seguintes comentários:

«Senhor Bruno Resende,

Saiba que estou a preparar-me para intentar contra si um processo pela prática de crime contra sentimentos religiosos, nos termos e para os efeitos dos artigos 251º. e seguintes do Código Penal.

Isto para que experimente na pele o sabor da lei.
Já tenho pareceres em mão e, em breve, sofrerá as consequências de agir como um criminoso.

Prepare-se para uma acusação protagonizada por bons advogados.
Talvez perceba, assim, que a lei existe e você não está acima dela.

Cumprimentos
António Laboreiro de Villa-Lobos»

# um artigo de Bruno Miguel Resende, publicado às 23:02»


(Diário Ateísta)

Rui Tavares está na casa

«Deixem-me pôr as cartas na mesa: não sei nada sobre alterações climáticas. Isto não é invulgar: há quem diga que ninguém sabe nada e que Al Gore se limita a inventar. Eu nem isso sei. E também posso dizer, embora isto não tenha qualquer valor, que a minha tendência inicial era para desvalorizar o problema.

As minhas conclusões tenho de tirá-las a partir do debate público. E aí sou forçado a dizer que a posição dos cépticos é cada vez mais frágil e contraditória. Muitos deles começaram por dizer: "não há alterações climáticas". Depois, passaram para: "há alterações, mas não são provocadas pelo Homem". Bjørn Lomborg, grande rival público de Al Gore, admite agora que as alterações climáticas são reais e provocadas pelos humanos mas que não vale a pena perder com elas dinheiro que seria mais bem gasto no combate à malária (alguém sugere que se vá roubar dinheiro à luta contra a malária ou será que não há dinheiro disponível, por exemplo, nos gastos militares?).

Também há quem diga que enquanto não houver certezas não vale a pena combater as alterações climáticas, como quem se recusasse a comprar um seguro contra incêndios enquanto não tiver garantias de que a casa vai pegar fogo. Há outros argumentos: que Al Gore é chato, que é pedante, que até lê livros e escreve livros. Ouvimos tudo isso em 2000, quando os seus adversários tentavam pressioná-lo a que reconhecesse a sua "derrota" nas presidenciais; hoje é tão absurdo que já não faz qualquer efeito. Em desespero de causa chegam a citar a sentença de um juiz britânico que identifica "nove erros" no documentário de Gore omitindo a parte onde diz que o filme está "substancialmente correcto".

Apesar disso tudo, eu gostaria que tivessem razão. Seria preferível que noventa por cento dos cientistas não estivesse do lado de Gore. Seria melhor para o planeta. Seria melhor para nós. Simplesmente, não vejo os adversários de Al Gore ganhar este debate. Vejo-os enterrarem-se cada vez mais.»


Artigo completo em Pobre e Mal Agradecido

quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

more from freeman

«[...] [T]he mystery of the wet Sahara. This is a mystery that has always fascinated me. At many places in the Sahara desert that are now dry and unpopulated, we find rock-paintings showing people with herds of animals. The paintings are abundant, and some of them are of high artistic quality, comparable with the more famous cave-paintings in France and Spain. The Sahara paintings are more recent than the cave-paintings. They come in a variety of styles and were probably painted over a period of several thousand years. The latest of them show Egyptian influences and may be contemporaneous with early Egyptian tomb paintings. Henri Lhote’s book, “The Search for the Tassili Frescoes”, [Lhote, 1958], is illustrated with reproductions of fifty of the paintings. The best of the herd paintings date from roughly six thousand years ago. They are strong evidence that the Sahara at that time was wet. There was enough rain to support herds of cows and giraffes, which must have grazed on grass and trees. There were also some hippopotamuses and elephants. The Sahara then must have been like the Serengeti today.

At the same time, roughly six thousand years ago, there were deciduous forests in Northern Europe where the trees are now conifers, proving that the climate in the far north was milder than it is today. There were also trees standing in mountain valleys in Switzerland that are now filled with famous glaciers. The glaciers that are now shrinking were much smaller six thousand years ago than they are today. Six thousand years ago seems to have been the warmest and wettest period of the interglacial era that began twelve thousand years ago when the last Ice Age ended. I would like to ask two questions. First, if the increase of carbon dioxide in the atmosphere is allowed to continue, shall we arrive at a climate similar to the climate of six thousand years ago when the Sahara was wet? Second, if we could choose between the climate of today with a dry Sahara and the climate of six thousand years ago with a wet Sahara, should we prefer the climate of today? [I] answer yes to the first question and no to the second. [I] say that the warm climate of six thousand years ago with the wet Sahara is to be preferred, and that increasing carbon dioxide in the atmosphere may help to bring it back. I am not saying that this [...] is true. I am only saying that it will not do us any harm to think about it.

The biosphere is the most complicated of all the things we humans have to deal with. The science of planetary ecology is still young and undeveloped. It is not surprising that honest and well-informed experts can disagree about facts. But beyond the disagreement about facts, there is another deeper disagreement about values. The disagreement about values may be described in an over-simplified way as a disagreement between naturalists and humanists. Naturalists believe that nature knows best. For them the highest value is to respect the natural order of things. Any gross human disruption of the natural environment is evil. Excessive burning of fossil fuels is evil. Changing nature’s desert, either the Sahara desert or the ocean desert, into a managed ecosystem where giraffes or tunafish may flourish, is likewise evil. Nature knows best, and anything we do to improve upon Nature will only bring trouble.

The humanist ethic begins with the belief that humans are an essential part of nature. Through human minds the biosphere has acquired the capacity to steer its own evolution, and now we are in charge. Humans have the right and the duty to reconstruct nature so that humans and biosphere can both survive and prosper. For humanists, the highest value is harmonious coexistence between humans and nature. The greatest evils are poverty, underdevelopment, unemployment, disease and hunger, all the conditions that deprive people of opportunities and limit their freedoms. The humanist ethic accepts an increase of carbon dioxide in the atmosphere as a small price to pay, if world-wide industrial development can alleviate the miseries of the poorer half of humanity. The humanist ethic accepts our responsibility to guide the evolution of the planet.

The sharpest conflict between naturalist and humanist ethics arises in the regulation of genetic engineering. The naturalist ethic condemns genetically modified food-crops and all other genetic engineering projects that might upset the natural ecology. The humanist ethic looks forward to a time not far distant, when genetically engineered food-crops and energy-crops will bring wealth to poor people in tropical countries, and incidentally give us tools to control the growth of carbon dioxide in the atmosphere [...]»


(HERETICAL THOUGHTS ABOUT SCIENCE AND SOCIETY by Freeman Dyson, Edge 219)

segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Eu e o aquecimento global - II

Existe um conceito curioso em economia, que é o conceito de externalidade. Vou falar sobre externalidades negativas.

O indivíduo A vende um produto ao indivíduo B. O produto vale 10 moedas para A, e 20 moedas para B, e foi vendido a 15 moedas. A ganhou 5 moedas, B ganhou 5 moedas, estão todos felizes. Mas vamos supor que esta venda teve um impacto negativo para um terceiro indivíduo, deveria tal troca ser permitida? Depende.

Se o ganho de A e B fosse maior que o dano feito ao terceiro indivíduo, eles deveriam fazer a troca, pagando a este indivíduo o suficiente para lhe compensar os danos. Assim haveria ganhos sem perdas.
Se o ganho fosse menor, então A e B já não teriam vontade de fazer a troca, pois teriam sempre de pagar mais do que aquilo que poderiam ganhar.

Na prática as coisas não são tão bonitas, mas ainda assim posso dar um exemplo. A gasolina: para o condutor vale X, para o vendedor vale Y. Mas o escape do automóvel lança gases nefastos para o ambiente na cidade, prejudica a saúde, etc... A sociedade é prejudicada pelo facto do condutor queimar gasolina. Assim sendo, o estado cobra impostos mais altos na gasolina que nos outros produtos, beneficiando a sociedade prejudicada pelo fumo (pois tem mais meios de providenciar serviços do que aqueles que teria sem este imposto).
É por isto que o imposto sobre a gasolina é tão alto, e bem.

Mas notem: o imposto é cobrado em função daquilo que o estado português considera que a gasolina prejudica os portugueses. Aqui não está em jogo nada relacionado com o aquecimento global.


Vou deter-me sobre um ponto: eu disse que o imposto cobrado (devido à externalidade) deveria ser um valor correspondente a uma boa estimativa do dano causado. Se for um valor inferior, a sociedade é encorajada a fazer algumas trocas nos quais as perdas para a sociedade são maiores que os ganhos para os intervenientes. Se for um valor superior, a sociedade é encorajada a não fazer algumas trocas em que haveria ganhos e nenhumas perdas.

E quando há incerteza? Sabemos que existe 10% de probabilidade de causar 30 moedas de dano, e 90% de probabilidade de ser inócuo. Em primeira análise poderíamos dizer que o imposto mais adequado corresponderia ao "dano esperado", neste caso correspondente a 3 moedas. Mas é possível argumentar que o valor deveria ser superior, pois o "risco" também tem custos. Não vou tratar esta questão em pormenor, mas espero ter deixado claro que o valor associado ao imposto relativo à externalidade nunca deverá ser inferior ao "dano esperado".

Se a teoria "dominante" estiver certa, a emissão de certos gases causa danos consideráveis: em vidas humanas, em desestabilização, em perda de biodiversidade, mas também em termos puramente económicos. Causa-os não ao país em que eles foram emitidos, não a essa sociedade, mas a todo o mundo.
Como a probabilidade da teoria "dominante" estar certa não é 0%, podemos facilmente entender que o "dano esperado" da emissão de certos gases não é nulo.

Por isso, parece claro que a coisa acertada a fazer seria a criação de um pequeno imposto mundial que reflectisse este dano mundial esperado. Parece claro que a ausência deste imposto é uma asneira que leva a que emitamos mais do que deveríamos tendo em conta a informação de que dispomos.

O protocolo de Quioto foi uma espécie de tentativa de estabelecer algo do tipo. Os países aderiam voluntariamente, estabeleciam limites e multas, o que acabava por criar uma espécie de custo à emissão marginal destes gases, que acabava por reverter a favor dos mais pobres. Obviamente a adesão deveria ser universal, pois de outra forma quem ficasse de fora seria beneficiado às custas dos "tolos" que aderissem, mas ainda assim foi com gosto que vi a UE a dar o bom exemplo neste campo.

Obviamente, estando o protocolo delineado como estava, os custos da emissão estariam longe de reflectir o "dano esperado", mas era um primeiro passo. Fora do protocolo a externalidade devido ao "dano esperado" é nula. Não estou certo que o aquecimento global é causado pelo homem, mas estou certo que, perante a informação que temos, ficar fora de Quioto é mau para o mundo.

Eu e o aquecimento global - I

Existe um debate a respeito do aquecimento global. No entanto, por falta de formação científica nessa área e falta de disponibilidade para suprir tão graves lacunas sinto-me incapaz de acompanhar o aspecto técnico deste debate para formar uma opinião devidamente sólida.

Mas como cidadão não posso abster-me desta questão tão importante. Quer um lado, quer outro esteja certo, os cidadãos não podem ficar indiferentes! Existem consequências políticas a tomar, e vivemos em democracia.

Para formar uma opinião, dada a minha incapacidade científica, terei de confiar nalguma fonte. Confiar na generalidade da comunidade científica não me parece disparatado.
É certo que a maioria dos cientistas já esteve errada em alturas passadas, e aconteceu que teorias pouco apoio inicial tenham acabado por demonstrar a sua validade. Este poderia ser um desses casos.
Mas creio que muitas ideias disparatadas foram propostas e rejeitadas pela maioria da comunidade científica. Dessas nunca ouvimos falar, mas não devem ter sido poucas... Assim sendo, para o cidadão sem acesso aos aspectos técnicos de uma polémica científica, confiar na opinião geral da comunidade de especialistas nesse campo é capaz de ser a coisa mais sensata a fazer.

Isto levar-me-ia a considerar séria a ameaça do aquecimento global provocado pelo homem. Mas existe uma outra razão que me leva a suspeitar que acreditar nisto é o mais sensato.

Existe uma polémica entre uma minoria de cientistas que contesta a teoria dominante - o homem tem estado a provocar aquecimento global devido às emissões de certos gases, e isso constitui uma ameaça séria para o futuro - e uma mioria que a promove. Mas esta minoria de cientistas não contesta apenas um ponto no encadeamento geral da teoria dominante. Costesta todos.

Vejamos: a teoria dominante diz que a) a temperatura tem aumentado ao longo do último século; b) uma das principais causas desse aumento é a emissão de certos gases por parte do homem c) as consequências de tal aumento serão devastadoras.

A minoria que objecta a isto não contesta um destes pontos. Contesta os três. Pensem nisto. É estranho. Várias vezes já vi as mesmas pessoas a defenderem que há um aumento de temperatura, que é causado pelo Sol (e usam as medições de temperatura para o mostrar), para poucos meses depois dizerem que há medições erradas, e que a temperatura não está a aumentar. Vejo dizer que o aquecimento não é grave (mesmo no artigo anterior que inspirou este...), ou porque promove o turismo, ou porque as temperaturas vão ficar mais amenas, ou por isto ou por aquilo.

Repito, é estranho. Se o que movesse este movimento fosse a procura da verdade, seria bizarro ver que a esmagadora maioria dos cientistas se tinha enganado nestes 3 pontos, e não num deles.
Mas não seria estranho se grande parte desta contestação tivesse contornos semelhantes ao movimento criacionista (não de forma tão flagrante, obviamente): fosse um movimento mais político do que científico.
Se o objectivo fosse impedir quaisquer limitações à emissão de certos gases, mais do que descobrir a verdade, então seria vital lançar a desconfiança sobre a teoria dominante, mais do que descobrir as suas falhas. Atacar-se-ia a teoria dominante em todas as frentes, para criar um clima de dúvida, mais do que nos seus aspectos mais dúbios ou menos comprovados.
Claro que há desconfiança científica genúina, mas o eco mediático que dela é feita parece ser grosseiramente exagerado. Parece que o que importa é que os políticos não se lembrem de limitar as emissões, seja convencendo as pessoas que o aquecimento global não é mau, seja convencendo que o culpado é o Sol e que não há nada a fazer, seja convencendo que ele nem sequer existe.

Mas no fim de tudo, posso estar totalmente enganado, e a teoria do efeito de estufa é mesmo uma fraude que está a ser corajosamente denunciada.
Não sei se sim, nem se não, por isso que é que eu devo achar que deveria ser feito?

dyson is in da house

«[...] The main subject of this piece is the problem of climate change. This is a contentious subject, involving politics and economics as well as science. The science is inextricably mixed up with politics. Everyone agrees that the climate is changing, but there are violently diverging opinions about the causes of change, about the consequences of change, and about possible remedies. I am promoting a heretical opinion [...]

[It] says that all the fuss about global warming is grossly exaggerated. Here I am opposing the holy brotherhood of climate model experts and the crowd of deluded citizens who believe the numbers predicted by the computer models. Of course, they say, I have no degree in meteorology and I am therefore not qualified to speak. But I have studied the climate models and I know what they can do. The models solve the equations of fluid dynamics, and they do a very good job of describing the fluid motions of the atmosphere and the oceans. They do a very poor job of describing the clouds, the dust, the chemistry and the biology of fields and farms and forests. They do not begin to describe the real world that we live in. The real world is muddy and messy and full of things that we do not yet understand. It is much easier for a scientist to sit in an air-conditioned building and run computer models, than to put on winter clothes and measure what is really happening outside in the swamps and the clouds. That is why the climate model experts end up believing their own models.

There is no doubt that parts of the world are getting warmer, but the warming is not global. I am not saying that the warming does not cause problems. Obviously it does. Obviously we should be trying to understand it better. I am saying that the problems are grossly exaggerated. They take away money and attention from other problems that are more urgent and more important, such as poverty and infectious disease and public education and public health, and the preservation of living creatures on land and in the oceans, not to mention easy problems such as the timely construction of adequate dikes around the city of New Orleans. [...]

Everyone agrees that the increasing abundance of carbon dioxide in the atmosphere has two important consequences, first a change in the physics of radiation transport in the atmosphere, and second a change in the biology of plants on the ground and in the ocean. Opinions differ on the relative importance of the physical and biological effects, and on whether the effects, either separately or together, are beneficial or harmful. The physical effects are seen in changes of rainfall, cloudiness, wind-strength and temperature, which are customarily lumped together in the misleading phrase “global warming”. In humid air, the effect of carbon dioxide on radiation transport is unimportant because the transport of thermal radiation is already blocked by the much larger greenhouse effect of water vapor. The effect of carbon dioxide is important where the air is dry, and air is usually dry only where it is cold. Hot desert air may feel dry but often contains a lot of water vapor. The warming effect of carbon dioxide is strongest where air is cold and dry, mainly in the arctic rather than in the tropics, mainly in mountainous regions rather than in lowlands, mainly in winter rather than in summer, and mainly at night rather than in daytime. The warming is real, but it is mostly making cold places warmer rather than making hot places hotter. To represent this local warming by a global average is misleading.

The fundamental reason why carbon dioxide in the atmosphere is critically important to biology is that there is so little of it. A field of corn growing in full sunlight in the middle of the day uses up all the carbon dioxide within a meter of the ground in about five minutes. If the air were not constantly stirred by convection currents and winds, the corn would stop growing. About a tenth of all the carbon dioxide in the atmosphere is converted into biomass every summer and given back to the atmosphere every fall. That is why the effects of fossil-fuel burning cannot be separated from the effects of plant growth and decay. There are five reservoirs of carbon that are biologically accessible on a short time-scale, not counting the carbonate rocks and the deep ocean which are only accessible on a time-scale of thousands of years. The five accessible reservoirs are the atmosphere, the land plants, the topsoil in which land plants grow, the surface layer of the ocean in which ocean plants grow, and our proved reserves of fossil fuels. The atmosphere is the smallest reservoir and the fossil fuels are the largest, but all five reservoirs are of comparable size. They all interact strongly with one another. To understand any of them, it is necessary to understand all of them. [...]

Another environmental danger that is even more poorly understood is the possible coming of a new ice-age. A new ice-age would mean the burial of half of North America and half of Europe under massive ice-sheets. We know that there is a natural cycle that has been operating for the last eight hundred thousand years. The length of the cycle is a hundred thousand years. In each hundred-thousand year period, there is an ice-age that lasts about ninety thousand years and a warm interglacial period that lasts about ten thousand years. We are at present in a warm period that began twelve thousand years ago, so the onset of the next ice-age is overdue. If human activities were not disturbing the climate, a new ice-age might already have begun. We do not know how to answer the most important question: do our human activities in general, and our burning of fossil fuels in particular, make the onset of the next ice-age more likely or less likely? [...]»


(HERETICAL THOUGHTS ABOUT SCIENCE AND SOCIETY by Freeman Dyson, Edge 219)

domingo, 14 de Outubro de 2007

Solidariedade com o catolicismo silenciado!

Confesso (!) que não posso, em consciência, concordar com o Ricardo Carvalho, o Bruno Resende e o Ricardo Silvestre. Eu acho que o Tarcisio Bertone tem razão: existe realmente uma tentativa para silenciar o catolicismo. E vou prová-lo.
Em primeiro lugar, considerem o caso do canal estatal RTP 1: no Sábado, dia 13 de Outubro, apenas 7h15m em 21 horas e 30 minutos de emissão foram preenchidas por programas exclusivamente sobre Fátima; na programação de domingo, o canal do Estado dedicou somente oito horas e meia em vinte e uma a Fátima, o que significa que 60% da emissão não foi monopolizada pelo fatimismo!
Em segundo lugar, constate-se que os jornalistas abordam Fátima de uma maneira crítica, eu diria mesmo obscenamente científica. Um caso particularmente grave é Fátima Campos Ferreira, que é notada por ostentar as suas convicções anti-religiosas e por fazer perguntas difíceis e embaraçosas aos cardeais. Outro, é Marcelo Rebelo de Sousa, um conhecido anticlerical que no seu tempo de antena de Domingo à noite não perde uma ocasião de criticar Fátima e os católicos.
Um terceiro sinal do silenciamento do catolicismo é o facto de o congresso do PSD ter sido marcado para este mesmo fim de semana, o que me leva a suspeitar de que o PSD faz parte de uma tenebrosa conspiração ateísta para silenciar o catolicismo, que conseguiu não apenas que os telejornais começassem com reportagens laranjas e não com homilias de tipos vestidos de branco, mas também que dedicassem meros quinze minutos ao culto fatimista.
Portanto, só me resta dizer aos católicos que a parte afectiva do meu cérebro está solidária com eles, e que chora indignada por serem tão horrendamente silenciados. Coitadinhos!
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

perigo: criacionista em lugar de destaque na política nacional

«[...] Mota Amaral, ex-Presidente da Assembleia da República, é o “número um” da lista do líder do PSD, Luís Filipe Menezes, ao Conselho Nacional do partido [...]»

(PÚBLICO.PT 13.10.2007)

(ver aqui para quem tem dúvidas)

catalina não pestaneja... mas engana?

«[...] Catalina Pestana foi Directora do Colégio Santa Catarina da Casa Pia durante 12 anos, entre 1975 e 1987. Era Directora do dito Colégio quando pela primeira vez, nos anos 80, surgiram na imprensa (no defunto “Tal e Qual”) e foram denunciados às autoridades de então os indicios de esquemas de exploração sexual de crianças entregues aos cuidados do Estado na Casa Pia. Mas a Directora Catalina então nada via, nada sabia, provavelmente nem sequer lia jornais [...]

Quando voltou à Casa Pia em 2002, nomeada Provedora pelo Ministro Bagão Félix, de nada ainda D. Catalina suspeitaria. E, decerto, por isso então nada viu, e nada piou logo! Foi preciso a jornalista Felicia Cabrita começar a inquirir, a escarafunchar e a publicar mais denuncias na imprensa, “expertamente” comentadas nas TVs pelo ex-agente da PJ Moita Flores, para de repente se fazer luz na pia Provedora. E a luz aparentemente nunca mais parou de jorrar, alimentada pela projecção mediática do caso [...]

Com meninas, nunca pareceu preocupar-se a Senhora Provedora. De meninas da Casa Pia, exploradas, abusadas, desviadas, transviadas, nunca se viu que falasse, cuidasse ou piasse D. Catalina, apesar de durante 12 anos haver sido responsável por um Colégio que as acolhia. Será que não houve mesmo nunca meninas abusadas e descuradas na Casa Pia? Ou não contam por serem meninas? [...]

[E] quando é que uma investigação realmente séria começa por apurar as responsabilidades - pelo menos profissionais - de uma tal Dra. Catalina Pestana que dirigiu um Colégio da Casa Pia sem nunca piar e dar por nada, e anos mais tarde voltou Provedora e continuou a nada dar por nada, e a não piar, a anjinha... até que lhe apareceram Santa Felícia e seu sócio, São Moita Flores, a alumiar-lhe o espírito e a apontar-lhe o caminho da cruzada? [...]»


(Ana Gomes no Causa Nossa, 11.10.2007)

sábado, 13 de Outubro de 2007

chamem a polícia!!!

imaginemos que um skinhead italiano vem a portugal falar para um grupo numeroso de neo-fascistas. imaginemos ainda que, nessa sua intervenção, o skinhead italiano apela vigorosamente, ao vivo e a cores, à rebelião dos portugueses neo-fascistas em favor do racismo e da xenofobia, em clara e indiscutível violação da constituição nacional. não seria por demais evidente que a polícia deveria intervir imediatamente, instaurando um processo-crime ao skinhead italiano, e eventualmente levando-o a julgamento? e não ficaríamos todos chocados se nada acontecesse? pois então:

«Secretário de Estado do Vaticano apela à "rebelião" dos cristãos face ao laicismo

13.10.2007 - 12h29 Lusa (PÚBLICO.PT)

O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, apelou hoje à "rebelião" dos cristãos face aos "senhores destes tempos" que exigem o silêncio dos cristãos "invocando imperativos de uma sociedade aberta" [...]

[O] Cardeal Bertone afirmou que essa rebelião se justifica "face aos pretensos senhores destes tempos (acham-se no mundo da cultura e da arte, da economia e da política, da ciência e da informação) que exigem e estão prontos a comprar, se não mesmo a impor, o silêncio dos cristãos invocando imperativos de uma sociedade aberta" [...]»


como pode este homem apelar à violação da constituição nacional, perante o presidente da república, o presidente da assembleia da república, e o ministro da presidência, e nada acontecer?

por favor, alguém chame a polícia!

e já agora uma pergunta aos nossos leitores cristãos e laicistas: o que pertendem fazer amanhã, domingo?, apoiar indirectamente o apelo ao terrorismo feito pelo senhor bertone, indo a uma igreja, ou fazer greve e não aparecer em igreja alguma até que seja demitido o "secretário de estado" em questão?

[Esquerda Republicana / Diário Ateísta]

quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

obscurantismo em órbita

«[...] O primeiro astronauta da Malásia descola hoje para o espaço, a partir do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Na viagem, de onze dias, aproveitará para dar a festa de Eid, que assinala o fim do jejum no Ramadão [...]

Os jornais locais destacam, especialmente, o facto de Sheikh ir rezar no espaço, um procedimento que vem nas normas determinadas pelo Governo da Malásia para os astronautas islâmicos. [...]»


(PUBLICO.PT 10.10.2007)

addendum: ouvi na BBC que quando rezar não tem que estar virado para meca, e que pode respeitar o fuso horário da malásia para saber a hora da palhaçada.

[Esquerda Republicana / Diário Ateísta]

esperemos que não seja o último

«[...] A justiça da Argentina condenou ontem a prisão perpétua o sacerdote católico Christian Von Wernich, o primeiro religioso condenado por crimes contra a humanidade durante a última ditadura militar (1976-1983).

O ex-capelão da polícia da Província de Buenos Aires, 68 anos, foi condenado com a pena máxima prevista pelas leis locais por ter participado em sete homicídios qualificados, 31 casos de tortura e 42 privações ilegais de liberdade [...]»


(PUBLICO.PT 10.10.2007)

[Esquerda Republicana / Diário Ateísta]

Laicidade e hospitais (10/10/2007)

  1. «Há muito tempo que não existia uma campanha política assim - a da Igreja Católica e seus apoiantes contra a reforma do regime de assistência religiosa nos hospitais -, baseada na desinformação ostensiva, no alarme infundado e na ameaça despropositada. (...) Subitamente, os cidadãos foram alertados para um nefando projecto governamental que, no mínimo, vinha dificultar e, no máximo, vinha extinguir a assistência religiosa. (...) Afinal, o projecto governamental não contém nenhum dos alegados aspectos. Extingue para o futuro o regime das capelanias, mas mantém as que existem até que vaguem, ao mesmo tempo que o novo regime assegura o pagamento dos serviços de assistência em si mesmos. Também não exige uma solicitação pessoal dos próprios doentes, antes permite explicitamente que o pedido seja feito por familiares ou amigos próximos, para além de que a assistência pode ser prestada por iniciativa dos próprios ministros do culto, sem solicitação específica dos doentes (ou de outrem), sempre que estes tenham indicado, querendo, a sua religião para efeitos de assistência religiosa. E tampouco limita a assistência ao horário das visitas; pelo contrário, estabelece explicitamente que ela pode ocorrer em qualquer altura em que seja solicitada, preferencialmente fora das horas das visitas.» (Vital Moreira)
  2. «A Constituição, a Concordata e a Lei da Liberdade Religiosa concordam todas nos seguintes princípios: – A assistência religiosa nos hospitais deve ser solicitada pelo paciente; – O Estado não é obrigado a pagar a assistência religiosa; Aparentemente, o Governo dispõe-se a respeitar o primeiro princípio e (como é hábito) esquecer que o segundo existe. E isto é uma polémica? Para os bispos, dá jeito que seja: o primeiro a declarar uma “polémica” ocupa território. (...) A “polémica” teve o efeito involuntário de chamar a atenção para isto: mais de cem capelães são pagos nos hospitais com o dinheiro de todos os contribuintes e com acesso irrestrito a todos os doentes, católicos ou não. Para mais, escandalizam-se ao descobrir que a Constituição não lhes dá o privilégio de tratar todo o cidadão como católico à partida. Agora que já fizeram a festa e lançaram os foguetes, eu teria algum cuidado: as canas ainda não caíram todas.» (Rui Tavares)

terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Mota Amaral e o Pai Natal

A notícia do voto criacionista de Mota Amaral meteu-me medo. Muito medo. Se fosse só o voto dele tinha imensa graça. Não foi ele que uma vez, sem qualquer razão, desatou a fazer comentários sobre o "69" em plena sessão do parlamento nacional? O voto dele meteu-me medo porque houve mais 24 idiotas que votaram contra a resolução em questão. Um texto que a única coisa que pede é que não se misture alhos com bugalhos, crendices com factos demonstrados, superstições com grandezas mensuráveis, caturrices tontas com a Gravidade, a Física, a Química, a Astronomia, a Matemática, a Biologia e a Paleontologia.

E 25 idiotas, numa demonstração eloquente duma estupidez criminosa e implausível, votaram contra.

Ficamos a saber que o parlamento europeu – uma organização aliás ignóbil, onde se decreta o nosso futuro à roda solta, sem qualquer escrutínio – tem pelo menos 25 analfabetos perigosos, que rejeitam os fundamentos mais básicos da ciência.

O que o voto de Mota Amaral representa é a vontade de deixar uma porta aberta aos católicos mais sinistros (os que se flagelam aos dias de semana), aos evangélicos mais ignorantes, aos judeus mais alucinados e aos muçulmanos mais arredados do século XXI, para que eles possam tentar ensinar aos nossos filhos que os dinossauros se extinguiram porque não cabiam na porta da Arca de Noé.

A partir daqui o que mais é que se pode esperar destes desgraçados? Caças às bruxas?

segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

gordon brown grabs to power

«[...] Afinal, não haverá eleições no Reino Unido este Outono. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, adiantou ontem à BBC que, a ser julgado nas urnas pelo seu desempenho em momentos de crise, prefere ter tempo para mostrar ao país o resultado das suas políticas na área da saúde, habitação e educação. [...]

"Durante o Verão, tivemos de enfrentar crises como a febre aftosa, o terrorismo, as cheias e a crise financeira. Quero ter oportunidade de mostrar às pessoas como as políticas no terreno farão a diferença", afirmou ontem à BBC. [...]»


(PUBLICO.PT -- 07.10.2007)

ficam as perguntas: vai passar a ser norma em inglaterra que qualquer candidato a primeiro-ministro possa gozar de dois anos à frente do país, antes de ir a eleições, por forma a que todos possam ver "o que vale" antes de decidirem pelo seu voto? e isto vai implicar exactamente quantos anos de "testes" pelos diversos candidatos até que realmente hajam eleições? ou quando for a data destas teremos que voltar ao princípio, por já ter passado tanto tempo desde que o primeiro candidato pode "mostrar o que vale"? e essa prática vai alastrar-se ao resto da união europeia, ou apenas a países com sérios problemas em entender a palavra "democracia"?

mota amaral mete nojo...

...ao votar, junto do conselho europeu, a favor do ensino das cretinices creacionistas nas aulas de ciência. com este acto, além de provar a sua total ignorância sobre o que é ciência e mostrar que está em linha com ideais de teocracias fascistas, levanta ainda a dúvida: como raio um homem assim conseguiu ocupar os lugares de destaque que ocupou na república portuguesa? fica aqui o registro, para que este lamentável erro não se repita. fica também o meu voto para que mota amaral seja para sempre banido da vida política (republicana!) nacional.

o link que não deixa dúvidas: aqui.

domingo, 7 de Outubro de 2007

Socialismo e Liberalismo - III

Os liberais de esquerda acham que os da direita não são "verdadeiros liberais" e os liberais de direita acham que os de esquerda não são "verdadeiros liberais".

O argumento dos segundos é o seguinte: numa sociedade tendencialmente liberal, o papel do estado deverá ser cada vez menor, pelo que terá cada vez menor necessidade de sustento, e assim, a violação das liberdade individuais que contitui a cobrança de impostos coerciva terá um impacto cada vez menor. Mais liberalismo implica menos "ataques" à propriedade privada, e consequentemente maior protecção da mesma.

O argumento dos mais liberais de esquerda é o seguinte: é o estado que actualmente protege a propriedade privada, e fá-lo coagindo os indivíduos a não furtar. Se o estado vai limitar menos as liberdades individuais, a propriedade privada será menos protegida.

Acho que nenhum dos lados tem razão nesta discussão. Acho que ambos os lados são "verdadeiros" liberais se, fora destas questões da propriedade, defenderem realmente valores individualistas.
Deveria ser possível a pena de morte? É correcto impedir o consumo de drogas pesadas? E leves? A prostituição deve ser proibida? É legítimo controlar a entrada de emigrantes? A eutanásia deve ser proibida?

Se respondeu "sim" a estas perguntas todas, não invente desculpas: o leitor não é um liberal. Se tem pena, porque gosta da palavra "liberal, pois fá-lo sentir-se um pouco rebelde, mas não gosta nada da bandalheira em que a "ditadura da liberdade" resulta, auto-intitule-se "liberal à la Pedro Arroja" para causar menos confusão.

Socialismo e Liberalismo - II



Este esquema ilustra (na medida do possível) aquilo que me referia na mensagem anterior. A barra vertical refere-se à importância que é dada aos valores do individualismo. Pessoas que partilham de valores mais paternalistas tendem a preferir os regimes acima, e pessoas que partilham de valores mais individualistas tendem a gostar mais dos regimes de baixo.

A barra horizontal refere-se à importância que é dada à propriedade privada. À direita encontram-se as correntes de pensamento segundo as quais a propriedade privada deve ser protegida enquanto valor fundamental. Quanto mais à esquerda, menos valor é dado à defesa da propriedade privada.

Mais coisa menos coisa, o saco de dinheiro assinala valores similares aos de Milton Friedman. O boné militar com estrela comunista assinala os valores de Mao e Estaline. O A de "anarquia" assinala os valores de quase todos quantos se auto-intitulam anarquistas (mais restritos que todos aqueles compatíveis com a inexistência de estado/autoridade). O facho assinala os valores de grande parte dos regimes fascistas, incluindo o corporativismo do Estado Novo. No canto superior direito poderia estar um símbolo alusivo à ditadura de Pinochet. Alguém tem alguma sugestão de um símbolo adequado para isto?

Socialismo e Liberalismo - I

Apesar do que tem sido escrito repetidamente, o socialismo não é oposto ao liberalismo, nem sequer ao individualismo.

O individualismo é um conceito político moral e social que exprime a afirmação e liberdade do indivíduo frente a um grupo, qualquer que ele seja. Assim sendo, o individualismo é contrário de qualquer forma de totalitarismo, não importa se socialista, fascista, etc...

Existem doutrinas e sistemas de valores mais e menos individualistas. São liberais as doutrinas que prezam bastante o individualismo. São anarquistas as que o prezam ao ponto de considerar que o estado não deveria deter nenhum poder sob o indivíduo: não devia sequer existir.

O socialismo é compatível com isto e com o seu contrário. Isto porque o socialismo corresponde, no sentido restrito, a qualquer sistema de poder sem propriedade privada, e no sentido mais lato a um conjunto vasto de doutrinas para as quais a propriedade privada não é considerada um valor fundamental.

Assim sendo, podemos ter socialismo anarquista, que aliás é o que defendem quase todos aqueles que se dizem "anarquistas", e podemos ter socialismo totalitário, com os exemplos de Estaline e Mao a soarem óbvios. E toda uma gama intermédia que passa pelo socialismo democrático e republicano, e por muitos outros sistemas possíveis.

Laicidade e hospitais (7/10/2007)

  1. «O mais extraordinário na campanha de alguns dignitários católicos contra a revisão do regime da assistência religiosa nos hospitais (devidamente secundada por uma bateria de fiéis comentadores e editorialistas) foi o recurso a flagrantes falsificações sobre o projecto governamental. Assim, por exemplo, não é verdade que o pedido de assistência só possa ser feito directamente pelos próprios pacientes (pois também pode ser solicitada por familiar ou outra pessoa próxima, ou mesmo por iniciativa do ministro do culto da religião que o paciente tenha indicado como sua); nem é verdade que a assistência só possa ser feita nas horas das visitas (pelo contrário, pode ser prestada a qualquer hora, e preferivelmente fora das horas de visitas). E quanto à exigência de forma escrita, é evidente que ela pode ser feita num formulário entregue ao doente ou familiar à entrada no serviço.» (Vital Moreira)
  2. «O curioso é que, tendo-se finalmente acesso ao diploma - que, diga-se de passagem, embora não sendo um texto definitivo, deveria, em face da polémica, ter sido divulgado pelo Ministério da Saúde - a maior parte daquilo que foi dele dado como certo é falsa. Nem a assistência é restrita ao horário das visitas - pelo contrário - nem é certo que a sua solicitação possa ser apenas feita pelos pacientes a admissão: pode ser feita a todo o tempo do internamento e por familiares ou amigos, por escrito e com assinatura. Mais: a proposta mantém nos hospitais os capelães católicos com vínculo à função pública até que estes se reformem. Só não lhes permite que tenham acesso aos doentes que não lhes peçam assistência. Afinal, parece que havia uma campanha - e feia e insidiosa - mas jacobina, seja lá isso o que for, de certeza não foi.» (Fernanda Câncio)
Comentário: mentir, para os clericais, é uma segunda natureza.

The Shock Doctrine, de Naomi Klein

Quase toda a gente concede que teria sido impossível a Stalin ou a Mao manterem o poder e os regimes respectivos sem matarem milhões de pessoas, ou prenderem, torturarem e aterrorizarem centenas de milhares de cidadãos inocentes. Da mesma forma, toda a gente hoje aceita que nenhum império colonial poderia ter existido sem violência. A repressão brutal dos Kykuyu durante a revolta dos Mau Mau é o exemplo paradigmático do terrorismo de estado mais repugnante e mais brutal, num estado democrático, no século XX.

Mas a propaganda organizada dos proponentes do capitalismo selvagem, possível em virtude da concentração dos media nas mãos de uma minoria de multimilionários nos últimos 30 anos, permitiu que uma mentira grotesca e deliberada acabasse por ser aceite pela maioria dos cidadãos da Europa ocidental e dos EUA: a ideia de que o capitalismo selvagem é uma vitória da democracia e da liberdade de expressão. O fim da História dos neocons.

Este livro excelente é sobre a brutalidade dos proponents do capitalismo selvagem e sobre a quantidade de pessoas que morreram e morrem todos os dias às mãos dos nossos políticos mais simpáticos.

A autora resume o tema do livro nas páginas 18 e 19: “This book is a challenge to the central and most cherished claim in the official story – that the triumph of deregulated capitalism has been born of freedom, that the unfettered free markets go hand in hand with democracy. Instead, I will show that this fundamentalist form of capitalism has consistently been midwifed by the most brutal forms of coercion, inflicted on the collective body politic as well as on countless individual bodies. The history of the contemporary free market – better understood as the rise of corporatism – was written in shocks.”

Compreensívelmente, os grandes media têm evitado falar deste livro e os jornais e revistas que lhe fizeram recensões críticas, como de costume, preferiram atacar a autora com chavões e rótulos insultuosos (liberal, radical, etc.) do que contestar o conteúdo do livro.

Mas a verdade está aí, preto no branco. Como dizia Hannah Arendt, os piores criminosos não sujam necessáriamente as mãos: decretam a morte e a tortura de milhões de civis à porta fechada, em hotéis de cinco estrelas, entre dois coctails, nas cimeiras de Davos ou do grupo Bilderberg.

As cartas de Milton Friedman a Pinochet, as missas que o papa lhe rezou, o apoio incondicional de Thatcher ou da família real belga ao governo criminoso do general são exemplos públicos e banais desta realidade.

sábado, 6 de Outubro de 2007

«Medida anti-operária e antipopular»

Não percam este vídeo. Um discurso magnífico dum jovem que viria a ser um político de projecção internacional. Note-se a clareza, organização de ideias e lucidez do jovem.

sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Viva a República!


Mandou-me procurar?

Passe, cidadão!

quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

não temos cá disto!

eu sei que já é antigo, mas é sempre bom lembrar:

«[...] Researchers help define what makes a political conservative: [...] Four researchers who culled through 50 years of research literature about the psychology of conservatism report that at the core of political conservatism is the resistance to change and a tolerance for inequality, and that some of the common psychological factors linked to political conservatism include:

Fear and aggression
Dogmatism and intolerance of ambiguity
Uncertainty avoidance
Need for cognitive closure
Terror management

"From our perspective, these psychological factors are capable of contributing to the adoption of conservative ideological contents, either independently or in combination," the researchers wrote in an article, "Political Conservatism as Motivated Social Cognition," recently published in the American Psychological Association's Psychological Bulletin. [...]

The avoidance of uncertainty, for example, as well as the striving for certainty, are particularly tied to one key dimension of conservative thought - the resistance to change or hanging onto the status quo, they said. [...]

Concerns with fear and threat, likewise, can be linked to a second key dimension of conservatism - an endorsement of inequality, a view reflected in the Indian caste system, South African apartheid and the conservative, segregationist politics of the late Sen. Strom Thurmond (R-South S.C.). [...]

While most people resist change, Glaser said, liberals appear to have a higher tolerance for change than conservatives do. [...]

The researchers said that conservative ideologies, like virtually all belief systems, develop in part because they satisfy some psychological needs, but that "does not mean that conservatism is pathological or that conservative beliefs are necessarily false, irrational, or unprincipled." [...]

Conservatives don't feel the need to jump through complex, intellectual hoops in order to understand or justify some of their positions, he said. "They are more comfortable seeing and stating things in black and white in ways that would make liberals squirm," Glaser said.

He pointed as an example to a 2001 trip to Italy, where President George W. Bush was asked to explain himself. The Republican president told assembled world leaders, "I know what I believe and I believe what I believe is right." And in 2002, Bush told a British reporter, "Look, my job isn't to nuance."[...]»


(UC Berkeley Press Release, Kathleen Maclay, Media Relations, July 2003)

terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Duas pernas bom, quatro pernas mau?

A religião dos neoliberais faz da bondade das privatizaçoes um dogma de fé. Para os mais simples é uma boa solução: privadobom, público mau, e pronto, a universidade dá-lhes uma filosofia completa, um norte para se orientarem na vida e julgarem o mundo.

Os americanos resolveram privatizar o exército. Se calhar não viram o filme Robocop. :o) Ou se calhar viram e pensaram que eram mais espertos.

Enfim, parece que a coisa não está a correr lá muito bem. Hoje no HuffPo: http://www.huffingtonpost.com/huff-wires/20071001/blackwater-iraq/

Gostava de ouvir o Dr. Arroja explicar as razoes do mercado às famílias das vítimas.

Sem eles não teria havido República

António Maria da Silva, Luz de Almeida e Machado Santos: é à energia e ao dinamismo destes três homens que se deve a existência de uma organização que chegou a contar com cerca de 20 mil homens, entre civis e militares, e sem a qual a República não teria sido implantada.
À hora de jantar do dia 3 de Outubro, dá-se a última reunião (Rua da Esperança).

segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Naomi Klein

Acho que já escrevi aqui - ou no meu blog - que este livro deve ser imprescindível:

http://www.naomiklein.org/main

Pelo menos aqui está a fazer ondas e a gerar um debate que era capaz de ser benéfico aos portugueses, que são os europeus mais explorados da Europa dos 25. Mas se calhar o futuro do José Mourinho é capaz de interessar mais ao país...

Um crente pela laicidade

Há muito que sei que podem existir crentes pela laicidade. Leia-se, por exemplo, o Marco Oliveira, no Povo de Bahá:
  • «A ideia central – que me parece correcta – consiste em levar para os hospitais públicos e estabelecimentos militares a imparcialidade e neutralidade do Estado em matéria religiosa. Já era tempo! Neste debate, algumas vozes católicas mais conservadoras consideram estas medidas um ataque inaceitável à Igreja Católica. Mas a verdade é que nesta matéria a Igreja Católica ainda goza de benefícios únicos, que se traduzem numa situação de privilégio inaceitável num Estado que se pretende neutro em matéria religiosa.»
O Marco sublinha também que existem religiões sem clero (aí está um princípio muito saudável...), e coloca uma questão que tem andado arredada do debate:
  • «Quais serão as comunidades religiosas que poderão prestar assistência religiosa nestes estabelecimentos públicos? Todas? Apenas as radicadas? Apenas as que possuem estatuto de Pessoa Colectiva Religiosa?»
É uma pergunta que eu gostaria de ver respondida. Para situá-la: as «radicadas» são meia dúzia, e não incluem algumas das comunidades mais representativas (as testemunhas de jeová ou a IURD, por exemplo); as «reconhecidas» são um centena.

PPd/Psd

Acho difícil levar o Psd a sério.

Bem sei que reina a apatia geral e que as pessoas querem é bola e telenovelas da TVI, e que votam de qualquer maneira, sem pensar.

Mas eu ainda não me esqueci que Durão Barroso, depois de ter sido escolhido por uma maioria dos portugueses para governar o país e depois de ter prometido aos eleitores que ia fazer o seu melhor, abandonou-os a todos à primeira oferta de mais honras e mais dinheiro, e foi trabalhar para o lobby neocon europeu.

O Psd pede-nos agora atenção para as tricas internas e para as lutas intestinas da organização pelo poder, como se o dirigente eleito fosse alternativa ao P"S".

Sem fazer um único comentário do género: "Desta vez não vos estamos a mentir, queremos mesmo governar; isto não é só uma luta pelo poder e pelo vosso dinheiro; a vergonha Durão Barroso / Santana Lopes não volta a acontecer." Nada. Como se estivesse tudo normal.

Assim, julgo que nada nos garante que o Psd não seja uma organização de malfeitores, onde o que conta é o poder e o dinheiro.

Na eventualidade (catastrófica) de o PPD ganhar um dia as eleiçes, quem é que nos garante que Meneses não vai trabalhar na fundação do Blair e nos deixa o major Valentim Loureiro como Primeiro Ministro?