domingo, 29 de maio de 2016

Uma campanha sem escrúpulos

A campanha pelo financiamento público do ensino privado conduzida pela Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo tem sido fértil em práticas e declarações que se podem qualificar como, vá lá, pouco honestas. Reúno neste artigo três casos.
  1. Reunião com o Presidente da República, 25 de Maio. À saída, os representantes dos colégios passaram a impressão de que o Presidente lhes teria manifestado apoio: «o Presidente mostrou-se apostado em encontrar "uma solução para o problema", prometendo "falar nisso ao primeiro-ministro, no seu encontro semanal"». Poucas horas depois, o Presidente da República desmentiu-os: «não cabe ao Presidente fazer qualquer tipo de proposta nesta matéria, que se trata da área governativa». Mais: «não foi pedida autorização prévia a Marcelo para utilizar elementos da conversa que tiveram em privado (...) o documento "é da exclusiva responsabilidade do Movimento e da interpretação que quis fazer das palavras do Presidente da República"». É verdade que o actual Presidente tem pouca nenhuma experiência em cargos executivos e poderia ser mais cuidadoso, mas houve evidentemente distorção e abuso dos colégios na maneira como transmitiram o que teria sido dito pelo Chefe de Estado. E órgãos de comunicação social que o reproduziram acriticamente.
  2. Relatório do Tribunal de Contas, 27 de Maio. As primeiras notícias anunciavam (em manchete) que «Relatório técnico do Tribunal de Contas dá razão aos colégios na guerra contra o ministério», em particular que «contratos (...) não dependem da existência de oferta pública». Passam mais umas horas e o próprio Tribunal de Contas desmente os colégios privados: «o TdC "não se pronunciou nem tinha que se pronunciar sobre as questões contratuais que neste momento estão em discussão pelas partes envolvidas"». (Ver o Anexo 1, mais abaixo.) Mais uma vez, uma singular capacidade de fazer passar uma mensagem falsa para os media.
  3. Como se diz em inglês: último mas não menor (antes pelo contrário), há a instrumentalização de crianças e encarregados de educação, com a entrega de cartas escritas por crianças, em alguns casos aparentemente sob coação ou pelo menos sob pressão: «M. considera que tanto os alunos como os pais estão a ser “manipulados”. No primeiro caso, quando lhes deram indicações para copiar um texto do quadro, para enviar ao primeiro-ministro e ao Presidente da República, em vez de lhes ter sido pedido para escreverem sobre o colégio de uma “forma livre”. No caso dos encarregados de educação, quando foram convocados para uma reunião na altura em que foi constituído o Núcleo de Acção do CCMI para lhes comunicar o que tinham decidido, e não para lhes pedir opinião». (Ver o Anexo 2, mais abaixo, para um exemplo de uma carta.)
Em resumo: não me recordo de uma luta política conduzida com tanta falta de escrúpulos. Má educação.

Anexo 1: comunicado do Tribunal de Contas.
Anexo 2: carta de um aluno.

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