quinta-feira, 19 de maio de 2016

A propósito das propinas de Tiago Brandão Rodrigues

A propósito do recente boato posto a circular sobre o ministro da educação, achei por bem contar a minha história. Fiz o meu doutoramento nos EUA, e também eu beneficiei de uma bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. No meu caso foi uma bolsa no estrangeiro (o meu doutoramento não era misto). Ainda assim, não é óbvio à partida o montante de propinas que um estudante tem que pagar. Consoante se é "research assistant" ou "teaching assistant", o valor da propina a pagar podia variar, e ser mesmo significativamente mais reduzido que a propina "standard". Quem toma essa decisão de baixar ou não a propina é o departamento onde o aluno está inserido: não é possível saber esse valor à partida (só o máximo). Quando se é aceite para o doutoramento recebe-se uma carta da universidade, com informação padronizada, para todos os alunos. As despesas previstas são indicadas, e nomeadamente o valor padrão das propinas. Na altura, ainda antes de partir, eu nem sabia da possibilidade de vir a pagar menos, pelo que indiquei esse valor padrão à FCT, que me adiantou o montante correspondente. O compromisso era o que teria que apresentar o recibo correspondente, e nessa altura seria feito algum acerto necessário. O prazo para apresentar os recibos seria um ano: o final do ano letivo, na mesma altura em que tinha que apresentar um relatório e a renovação da bolsa era analisada. Antes disso, não tinha obrigação nenhuma. O valor que eu efetivamente paguei de propinas (no princípio de cada semestre), foi substancialmente inferior ao que tinha indicado. No final do ano, entreguei o recibo à FCT, que não pôs problema nenhum. Nem sequer exigiu que eu devolvesse logo o montante que me tinha sido disponibilizado em excesso: esse montante foi-me deduzido do valor do subsídio dos meses seguintes. Simples. Era assim que funcionava a FCT na altura em que eu e o ministro da educação fizemos doutoramento (com poucos anos de diferença). A história do ministro, pelo que me apercebo, no essencial pouco difere da minha. Querer ver nela uma "burla", acho que nem um leitor do "Correio da Manhã" acredita. Algo como uma "burla" teria de envolver, no mínimo, declarações e recibos falsificados, algo que não tem nada a ver com o que é contado. Não devolver imediatamente o dinheiro recebido em excesso vai ser comparado com a atitude de Passos Coelho, que também não pagou "logo" a sua dívida à Segurança Social, mas como expliquei neste caso era este o procedimento esperado pela própria FCT, que em geral não exigia que os seus bolseiros a contactassem mais do que uma vez por ano. Este triste boato vem confirmar que os lóbis dos colégios privados, que este ministro tem vindo a afrontar, não olham a meios para atingir os seus fins. Confirma também a parcialidade da imprensa portuguesa, que neste caso concreto combina com a incompetência. Não custava nada à "Sábado" ter falado com a FCT, ter-se informado sobre os seus procedimentos e ter ouvido a versão do ministro, antes de ter lançado este boato. Infelizmente, quer uma coisa quer a outra já eram bem conhecidas. O que para mim é novidade e não deixou de me surpreender foi existir um professor universitário que se prestou a este papel e que tentou cobrir de lama o nome do aluno que viria a perder. Deve custar-lhe muito perder o aluno e vê-lo ganhar, graças ao seu mérito, um lugar de professor na Universidade de Cambridge. Que triste figura.

4 comentários :

  1. Já agora, mesmo que tivesse havido fraude, esta teria sido bem mais pequena do que outras fraudes que noutros tempos eram usuais, quando havia assistentes universitários que iam para o estrangeiro doutorar-se usufruindo de uma bolsa, mas que simultâneamente continuavam a receber o seu salário de assistente cá em Portugal.

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  2. Luís, mas recebiam as bolsas por inteiro? Deveria ser fácil controlar estas situações - a lista do pessoal docente nas universidades deveria ser pública (hoje em dia é).

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    1. Provavelmente no meu post exprimi-me mal. Não seriam bolsas concedidas por instituições portuguesas mas sim concedidas por instituições estrangeiras. Os portugueses iam para os EUA com uma bolsa qualquer (da universidade americana ou da Fulbright ou lá do que fosse) mas continuavam a ganhar o seu salário português. Era uma situação que estava no limite da legalidade.
      Fizeram-se muitas fortunas dessa forma. Pessoas que quando voltavam do seu doutoramento compravam casa e carro em Portugal, graças ao salário duplo de que tinham usufruído.
      Se o Filipe Moura quiser fazer uma investigaçãozinha sobre o assunto, possivelmente entrevistando alguns dos atuais professores com 60 anos de idade, certamente descobrirá coisas bem giras.

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    2. Não ponho em causa que tenham existido situações desse género, mas não havia controlo presencial na Universidade em PT (aulas e etc)?

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