quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Quanto mais poupas mais te endividas, ou Como a austeridade falhou redondamente

Guardian sobre os últimos dados do Eurostat:

Over the last year, the highest increases in the GDP/debt ratios were recorded in Greece (+24.1 percentage points), Ireland (+18.3%), Spain (+15.25%), Portugal (+14.9%) and Cyprus (+12.6%).

Recorde-se que o objectivo número 1 da austeridade orçamental era reduzir a dívida pública. Os resultados estão à vista. São exactamente os 5 países sob um programa de assistência financeira, os 5 que mais austeridade impuseram, que viram a situação agravar-se mais. Prova mais clara do falhanço não poderia haver.

É a prova do falhanço da macroeconomia à moda dona-de-casa, o que funciona num orçamento familiar funciona num país, da qual muita direita e muitos empresários tanto gostam. A diferença é que quando uma família poupa nos gastos em casa, o café da família não deixa de ter clientes. Num momento de contração quando todo o país quer poupar ao mesmo tempo, o café vai à falência.

10 comentários :

  1. Diga-se que sem políticas de austeridade, provavelmente a dívida teria aumentado mais ainda (mesmo medida em percentagem do PIB, não apenas em valor absoluto). Os multiplicadores são altos, mas não ao ponto de menos austeridade ser menos endividamento.

    Simplesmente, ter-se-ia saído da crise com muito menos desemprego, com um PIB muito superior, com muito menos falências e menos destruição da capacidade produtiva, menos suicídios, menos destruição dos serviços públicos (e esta é a verdadeira razão pela qual esta gente prefere esta via...).

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    1. O contrafactual é de facto difícil de encontrar - e não basta o multiplicador "certo" para o PIB. Não te esqueças que também temos visto o défice, ou seja o aumento de dívida de um ano para o outro, a aumentar com mais austeridade (se bem que isto é difícil de medir). Menos austeridade tem um efeito positivo directo no denominador, e um positivo indirecto no numerador.
      Achas então que é uma coincidência aparecerem estes 5 no topo?

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    2. Não acho uma coincidência que os 5 estejam no topo. Mas se a solução seria défices ainda maiores, para que o PIB não diminuísse, isso iria aumentar tanto o numerador como o denominador. Mas para aumentar de tal forma que nos primeiros 2 anos o quociente fosse menor que o actual, isso implicaria um PIB mesmo muito sensível ao gasto público (de forma a aumentar o suficiente para contrabalançar o aumento do défice), e isso exigiria um multiplicador um bocado fora daquilo que é o debate sobre a sua dimensão (se a memória não me falha, à volta de 4.5 ou assim).

      Nota que nada disso obsta ao segundo parágrafo. As novas estimativas do multiplicador dão completa razão a quem defende que a austeridade foi uma má estratégia. Mas não má a ESSE ponto (da dívida ser ainda maior do que seria, logo nos 2 primeiros anos).

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    3. E quem te disse que o défice, pelo aumento das receitas fiscais decorrentes da falta de austeridade (incluindo coisas como menos subsídios de desemprego, mais consumo privado logo mais IVA para o Estado) näo diminuiria?
      A economia näo é ciência exacta (e se calhar, nem ciência), e há muita coisa contra-intuitiva.
      http://www.inacreditavel.pt/?p=20069

      Uma coisa é certa: quem näo implementou a austeridade tem conseguido manter défices baixos, por via de näo desperdiçar dinheiro. Com efeito, olha para os nórdicos, para quem o normal é ter... superavites orçamentais. E quem näo implementou a austeridade selvagem tem-se mantido à tona, bem melhor que os "famosos 5".

      Já entendeste em que o objectivo da austeridade näo é balancear as contas públicas. O descalabro orçamental (que afinal é bem maior pós-austeridade) foi a desculpa encontrada para implementar a austeridade cujo objectivo é, como dizes, a destruição dos serviços públicos e entrega de toda a economia aos baröes privados.

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    4. Eu não me dei ao trabalho de fazer as contas, mas há que o tenha feito:

      http://theportugueseeconomy.blogspot.pt/2013/07/the-biggest-challenge.html

      um aumento da poupança no consumo público, leva neste momento a um aumento do endividamento (em termos de % do PIB)

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    5. Desculpa, mas as contas não estão feitas.

      Tens o cenário a) do tal corte, em que a dívida aumenta devido à diminuição do Pib e à diminuição da receita, o que resulta num aumento da dívida pública medida em proporção do pib - mas falta o cenário b) em que o tal corte não existe, e a dívida aumenta pelo simples acumular de um défice superior.
      Não estão feitas as contas que mostrem que o aumento em a) (7%) é superior ao aumento em b).
      E nota que isso refere-se a um corte adicional, e não aos cortes que foram feitos no passado.

      É estranho eu estar a ter esta discussão contigo, visto que concordo completamente no essencial do que dizes: os dados mostram que quem alegava que a austeridade praticada era excessiva tinham razão - os multiplicadores durante uma crise eram muito mais altos do que aqueles que foram usados para justificar esta política.
      O que significa que o impacto desta austeridade no pib foi muito maior do que se pensava, e mais ainda no desemprego (já sem mencionar questões estruturantes, como a educação) e por arrasto, a pior opção para o país no longo prazo.
      Ou seja: um aumento da dívida (mesmo medida em proporção do pib) no curto prazo neste contexto seria um preço pequeno a pagar por um país mais rico (e com maiores possibilidades de a pagar mais tarde) e desenvolvido no longo prazo.

      Não só concordo que nesse sentido a austeridade foi má, como creio que isso deve ser dito e demonstrado com contas muitas vezes. É pena que estas conclusões estejam tão divorciadas da percepção pública desta questão.

      Mas considerar que nem sequer existiria tal preço a pagar, que a austeridade leva a mais dívida (medida em proporção do pib) de curto prazo não exige os multiplicadores de 2 de que referência que aqui apresentaste refere (tinha lido 1.8), mas sim multiplicadores de quase 4 (3.6 se a memória não me falha).

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  2. Um aumento de GDP/debt seria optimo, mas duvido que tenha acontecido com ou sem austeridade, será que queria dizer debt/GDP ratio?

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  3. João Vasco, Quanto ao primeiro parágrafo estou 100% de acordo contigo, quanto ao segundo, nem vou comentar, mas verifico que a irracionalidade pode atacar onde menos se espera.

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  4. «mas verifico que a irracionalidade pode atacar onde menos se espera.»

    Esse não é um comentário muito construtivo.

    Mais bizarro ainda se torna quando nem sequer apresentei uma posição muito original: uma parte muito significativa dos economistas (a maior parte?) tem precisamente a perspectiva que apresentei, e o desenrolar da crise foi dando sucessivamente razão às previsões de quem assim pensava, enquanto foi desmentindo as previsões dos outros (subjacentes às previsões de Gaspar, por exemplo).

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