sexta-feira, 9 de novembro de 2012

«Portugal não é um país de Merkel»

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um desafio à Chanceler Merkel

Sou subscritor da carta «Um desafio à Chanceler Merkel» reproduzida mais abaixo. Quem a quiser assinar deve fazê-lo até sexta-feira às 11 horas, aqui.
  • «Exmª Srª Chanceler Merkel,

    Escrevemos-lhe em antecipação à sua visita oficial a Portugal no próximo dia 12 de Novembro. No programa dessa visita há uma oportunidade perdida: a Srª Chanceler vai falar com quem já concorda com as suas políticas. E mais ninguém.

    Julgamos poder afirmar que a maioria dos portugueses discorda das suas políticas e poderia ter consigo uma conversa honesta e para si instrutiva acerca do que se está a passar no nosso País e na Europa.

    Uma das primeiras coisas que lhe poderíamos explicar é como Portugal perdeu, só no último ano, 22 mil milhões de euros em depósitos bancários — mais do que aquilo que agora é obrigado a cortar em despesas sociais. Mas há mais: em transferências de capitais, Portugal perdeu pelo menos 70 mil milhões de euros desde o início da crise. Se este número faz lembrar alguma coisa é porque ele é praticamente igual ao montante do resgate ao nosso país. O que isto significa é que a insolvência de Portugal é, em primeiro lugar, o resultado das insuficiências das lideranças europeias e de gravíssimos defeitos na construção da moeda única.

    Portugal tinha à partida problemas e insuficiências. Os cidadãos portugueses sabem disso melhor do que ninguém. É por isso que lhe podemos dizer: as políticas atuais agravam os nossos problemas e impedem-nos de os resolver. Quanto mais prolongadas estas medidas de austeridade forem, mais irreversíveis serão os seus efeitos negativos. É por saberem isso, por verem isso no seu quotidiano, que os portugueses estão angustiados e indignados. Talvez no seu breve percurso por Portugal possa ver que muitos de nós pusemos panos negros nas nossas janelas. A razão é muito simples: estamos de luto.

    Estamos de luto pelo nosso País. A Srª Chanceler virá entregar a cem jovens portugueses bolsas de estudo na Alemanha. Deveria saber a Srª Chanceler que os portugueses vêem como uma tragédia que a nossa juventude, a geração mais formada da nossa história, em que tanto investimos e de que tanto orgulho temos, esteja a abandonar em massa o nosso país por causa das políticas que a Srª Chanceler foi impondo. Esta sua ação é vista como mais um incentivo para a fuga de cérebros, de que tanto precisamos para a reconstrução do nosso país. A maioria dos portugueses não entende como é possível que não se procure criar condições para que os milhares de jovens licenciados que fogem de Portugal todos os anos queiram voltar para ficar. Tal como também se vive aqui como uma provocação a Srª Chanceler vir acompanhada de empresários alemães, com o propósito de fazerem negócios proveitosos para o seu país, mas desastrosos para o nosso que vê todos os dias nas notícias o seu património a ser privatizado para lucro de todos menos do povo português.

    E estamos de luto também pela Europa. O grau de distanciamento e recriminação entre os povos e os países da União é estarrecedor, tendo em conta a trágica história do nosso continente. Desafiamo-la a reconhecer, Srª Chanceler, que cometeu um grave erro ao ter recorrido a generalizações enganadoras sobre os povos do Sul da Europa — ao mesmo tempo que condenamos as expressões de sentimento anti-alemão que mancham o discurso público, onde quer que apareçam. As nossas nações europeias, todas elas históricas, são diversas entre si mas iguais em dignidade. Todas devem ser respeitadas e todas têm um papel a desempenhar na União.

    Cara Srª Chanceler, esta loucura deve parar. A Europa volta a estar dividida ao meio, não por uma cortina de ferro, mas por uma cortina de incompreensão, de inflexibilidade e de irrazoabilidade. Estamos disponíveis, enquanto seus concidadãos europeus, a abrir um verdadeiro debate transparente e participado sobre a saída desta crise e o nosso futuro comum, para que possamos fazer na nossa Europa uma União mais democrática, mais responsável, mais fraterna — e com mais futuro.

    Mude o programa da sua visita a Portugal. Fale com quem não concorda consigo. Use esta visita como um momento de aprendizagem. Use a aprendizagem para mudar de rumo.

    Com os nossos cordiais cumprimentos,»

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A grande desilusão


Não escrevo por mim, escrevo pelos meus colegas e amigos (cientistas, divulgadores, estudantes, etc.) que tinham grandes expectativas neste Ministro da Educação e Ciência. A sua aura de bom divulgador sempre gerou alguma empatia no meio científico. Fui testemunha direta dessa empatia quando lhe atribuímos o título de sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Astronomia. No entanto, os indícios da desilusão estavam lá desde o início, quando aceitou participar num ministério de fusão da educação com a ciência, em que a justificação da fusão era de um economicismo puramente populista, e quando aceitou participar num governo cujo primeiro-ministro apresenta um curriculum estranho, muito mais dedicado à Jota do que aos estudos, um primeiro-ministro sem qualquer noção da importância da ciência no desenvolvimento das sociedades modernas. A que se agrava o facto de estarmos a falar do autor de "O Eduquês em Discurso Directo", livro onde são desenvolvidas ideias altamente moralistas do ensino. 
Cedo se percebeu que a componente dedicada à ciência iria ficar mais a cargo da FCT, do que de um ministério saturado com o trabalho relativo ao ensino secundário. Depois começaram os primeiros problemas de financiamento de bolseiros e universidades. A seguir veio o caso Relvas, tratado com muita condescendência e profunda lentidão. Supunham os meus colegas e amigos que o mesmo autor de "O Eduquês em Discurso Directo" atuasse com firmeza ou, pelo menos, coerentemente fizesse um ultimato ao primeiro-ministro: ou ele ou Relvas. Mas não, as conclusões da inspeção à Lusófona deixam margem para tudo, até para Relvas e outros cábulas poderem repetir as cadeiras que fizeram de uma forma ilegal. Pior, até agora Relvas não teve qualquer tipo de sanção.
Nas últimas semanas, as melhores universidades do país, todas públicas, estão a entrar em colapso adotando medidas terceiro-mundistas para não fechar portas, medidas essas que comprometem seriamente a investigação aí realizada, e que é a melhor investigação que se pratica no país.
A desilusão dos meus colegas e amigos é agora profunda, agora que se tornou evidente que a ciência está a ser progressivamente eliminada por um bando de cábulas e chicos espertos bem nas barbas do ministro e autor de "O Eduquês em Discurso Directo".

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A «crise» da natalidade tem meio século

Os políticos, muitas vezes, crêem-se omnipotentes (ou tentam-nos convencer de que o são). Estou tão habituado que ao ouvir falar dos «alertas» (sic) do Presidente sobre o «inverno da natalidade», ou de medidas avulsas (mas talvez valorosas) dos autarcas, só sorrio. Porque a queda da natalidade é uma tendência com já meio século de duração: o último alto pico de nados vivos em Portugal foi em 1962 (220 mil); desde aí, tem sido o que se vê do lado direito do gráfico (em 2011, baixámos até aos 97 mil). Note-se bem: há 50 anos havia guerra colonial, ditadura e o palerma de Santa Comba Dão. Depois, houve uma revolução, acabou a guerra, morreu o Cerejeira, instaurou-se a democracia, vieram os «retornados», entrou-se na CEE, passámos de país de emigrantes a país de imigrantes e, finalmente, chegámos à crise do euro. Não deve ter havido primeiro ministro (na ditadura, na revolução ou na democracia) que não tenha prometido «apoiar a natalidade». Foram dezanove e, sinceros ou não, com boas ou más ideias, pouco puderam fazer para inverter a tendência de algo que resulta de um somatório de dezenas de milhar de decisões individuais nada fáceis e muito íntimas.

Todavia, a natalidade não é completamente indiferente à política: do lado esquerdo do gráfico vêem-se bem os dois anos da pneumónica e os anos em que a segunda guerra mundial realmente afectou Portugal (porém, acontecimentos bem para lá do controlo dos políticos nacionais). E, por outro lado, o pico do ano 2000 (que tem o seu lado cómico) não seria possível sem a (relativa) prosperidade da viragem do século. Se realmente os nascimentos este ano caírem para os 90 mil ou para os 80 mil (!), será um sinal (mais um) da crise económica. Mas também «apenas» o agravamento de uma tendência que é de muito longo prazo.

Já ganhou!

CR7 apoia Barack Obama.

sábado, 3 de novembro de 2012

Mesmo a sério e sem wishful thinking: isto pode realmente ser o princípio do fim do jardinismo

Jardim reeleito no PSD-Madeira... com 51% dos votos (e o apoio da máquina de propaganda do governo regional). Talvez Jardim nunca venha a ser derrotado, mas demonstrou-se que o jardinismo é derrotável.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ruptura

Há momentos em que é necessário oferecer o peito às balas. Um parlamento democrático que antecipa uma votação para evitar que coincida no tempo com uma manifestação é pior do que cobarde: é um parlamento que assume que teme o povo que se manifesta nas ruas, que abdica de diminuir a lendária «distância entre eleitores e eleitos» e que insulta o significado da própria democracia representativa. Há momentos em que é necessário aceitar mais do que a crítica ritualizada das formalidades parlamentares, e aguentar que a rua lá fora grite o contrário do que se está votar. E hoje não houve coragem para tanto.

O espectáculo de deputados em fuga da assembleia da República após uma votação apressada é um mau prenúncio para a democracia. Houve uma ruptura. Desceu-se um degrau. Espero que tenha sido apenas a actual maioria que o tenha descido, e não o próprio regime.