quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A consciência que objecta

O papa dos católicos romanos quer que os farmacêuticos aleguem «objecção de consciência» para não venderem a «pílula do dia seguinte». Duvido que os comerciantes do ramo dos medicamentos concordem em reduzir o âmbito do seu negócio, mas é divertido imaginar um mundo onde todos pudéssemos invocar «objecção de consciência» em cada aspecto da nossa vida profissional. Por exemplo: os médicos poderem recusar-se a fazer transfusões de sangue; os comerciantes poderem recusar vender fosse o que fosse a homossexuais, ou a mulheres com a cara destapada; os vendedores de calendários poderem recusar fornecê-los a casais que os utilizassem na sua estratégia contraceptiva; os professores poderem negar-se a ensinar a teoria da evolução; os produtores de vinho poderem recusar vender carrascão para ser usado nas missas católicas... Pensando melhor, o mundo da «objecção de consciência» de Ratzinger não parece divertido: parece assustador.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Hipocrisias

  • «Gordon Brown vai receber em Downing Street o líder de um país que a Amnistia Internacional diz ser palco de violações diárias dos mais fundamentais direitos humanos. É o mesmo Brown que recusa participar na cimeira UE-África, marcada para Dezembro, em Lisboa, caso o líder do Zimbabwe, Robert Mugabe, compareça no encontro.» (Diário de Notícias)
A diferença é que Mugabe é o tiranete de um paupérrimo país africano, e Abdallah é o rei absoluto do Estado que produz 25% do petróleo mundial. Só isto.

Cheque-ensino

Estava a ver se encontrava a expressão que os neoliberais portugueses usaram para traduzir os ‘school vouchers’ dos neocons americanos. Ninguem na extrema-direita tem ideias novas: as coisas são arquitectadas aqui nos ‘think tanks’ da extrema-direita e traduzidas para os blogs neoliberais portugueses como se fossem receitas pensadas para o país.

Mas a verdade é que os ricos estão ricos demais e começaram a perder a cabeça há mais ou menos 20 anos. Tanto dinheiro deu-lhes uma vertigem e acabaram por perder a vergonha e o sentido da decência.

Agora, a pequena oligarquia que detém metade da riqueza do planeta – e que se reúne, à porta aberta, várias vezes por ano para combinar estratégias – quer roubar-nos tudo. A privatização da educação tem várias componentes.

Primeiro o desinvestimento no ensino público, para que os filhos dos pobres não possam competir com os dos ricos para os melhores empregos.

Segundo o controlo ideológico das escolas que se pretende que venham a produzir os quadros do futuro.

Terceiro o roubo dos impostos dos cidadãos através dos chamados cheque-ensino, que são um subsidio desavergonhado ao ensino privado.

O resto é conversa de blogues e ideologia de café... não está demonstrado que os privados façam melhor que os públicos em nenhum sector. Esta ideia é um axioma de fé, tão ridículo e improvável como a ideia do homem novo dos marxistas.

É o quê?

«No Blasfémias, o João Miranda escreveu:

«O ensino privado e o ensino público competem com armas desiguais. O ensino público tem os seus custos de funcionamento e de investimento pagos pelo Estado. O ensino privado tem que pagar os custos de investimento e de funcionamento com as receitas que consegue atrair. O ensino público tem preço zero para o cliente, o ensino privado cobra propinas ao cliente.
Tendo em conta a total desigualdade de armas, é notável que algumas escolas privadas consigam aparecer no topo dos rankings.»


A ideia é que o ensino privado é tão mais eficiente que mesmo sem o financiamento público consegue ter resultados melhores. E é verdade que o sector privado é mais eficiente. Mas importa ver em quê.

O sector privado é mais eficiente a dar dinheiro aos donos. É para isto que o sector privado serve. Todas as empresas privadas visam produzir um só produto: o lucro para os accionistas. O resto é acidental. A bolacha, o automóvel, a operação plástica ou a média de 13 no exame nacional são meros efeitos secundários do processo de gerar lucro.

A privatização é uma boa ideia quando o objectivo coincide com a maximização do lucro. Se o objectivo é educar os filhos dos ricos o ensino privado garante a qualidade de educação que optimiza o lucro. Quanto mais ricos os pais melhor será este efeito secundário da produção de dividendos, e temos a garantia que os dividendos serão gerados com eficiência. Se não, fecha-se a escola, monta-se um centro comercial e os miúdos que vão estudar para casa.

Mas se o objectivo é garantir que todos tenham acesso à educação a situação é diferente. O sector privado é notoriamente ineficiente a prestar serviços a quem não os pode pagar.»

Nota: aproveitando a política de ausência de direitos reservados ( ;) ), este texto é descaradamente copiado do blogue Que Treta!.

Petição contra a excisão

Apesar de esta petição não condenar a mutilação genital masculina (efeitos do «religiosamente correcto»?), vale a pena ser assinada:

domingo, 28 de outubro de 2007

Beatificai-os também

O Ratzinger e o Saraiva Martins andam a beatificar franquistas abatidos durante a guerra civil espanhola. Por mim, também podem beatificar estes:
E mais estes:
  • «[A guerra é] a Cruzada mais elevada que os séculos já viram (...) uma cruzada onde a intervenção divina a nosso favor é bem patente» (bispo de Pamplona);
  • «A guerra é cem vezes mais importante e sagrada do que o foi a Reconquista» (bispo de Segóvia);
  • «A guerra foi pedida pelo Sagrado Coração de Jesus que deu forças aos braços dos bravos soldados de Franco» (arcebispo de Valência);
  • «A igreja, apesar do seu espírito de paz (...) não podia ficar indiferente na luta (...) Não havia em Espanha nenhum outro meio para reconquistar a a justiça e a paz e os bens que dela derivam que não fosse o Movimento Nacional» (carta pastoral dos bispos espanhóis);
  • «[O General Franco] é o instrumento dos planos de Deus sobre a Terra» (cardeal Goma)
  • «[A guerra é] uma luta entre a Espanha e a anti-Espanha, a religião e o ateísmo, a civilização cristã e a barbárie» (cardeal Goma);
  • «Judeus e maçãos envenaram a alma nacional com ideias absurdas» (cardeal Goma);
  • «Ninguém pode negar que o 'deus ex machina' de esta guerra foi o próprio Deus, a sua religião, os seus foros, a sua lei, a sua existência e a sua influência atávica na nossa história» (carta pastoral dos bispos espanhóis);
  • «Os galantes mouros (...) embora tenham retalhado o meu corpo apenas ontem, merecem hoje a gratidão da minha alma, pois estão a combater pela Espanha contra os espanhóis... Quero dizer os maus espanhóis... Estão a dar a sua vida em defesa da sagrada religião espanhola, como prova a sua presença no campo de batalha, escoltando o Caudillo e amontoando santos medalhões e corações sagrados nos seus albornozes» (General Millan Astray, fundador da Legião Estrangeira);
  • «Para milhões de espanhóis (...) o cristianismo e o fascismo misturaram-se e é impossível odiarem um sem odiarem o outro» (François Mauriac, em carta ao cunhado de Franco);
  • «[A guerra é] um teste de força entre o comunismo judeu e a nossa tradicional civilização ocidental» (Hilaire Belloc);
  • «Elevando a nossa alma a Deus, congratulamo-nos com Vossa Excelência pela vitória tão desejada da Espanha católica. Formulamos os nosso votos de que o vosso querido país, uma vez obtida a paz, retome com vigor acrescido as suas antigas tradições cristãs que lhe grangearam tanta grandeza. É animado por estes sentimentos que dirigimos a Vossa Excelência e a todo o nobre povo espanhol a Nossa benção apostólica» (Pio 12, papa da ICAR, em mensagem dirigida a Franco na véspera da conquista de Madrid).

E não se esqueçam do bispo de Málaga:
[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Amor cristão

O vice presidente Cheney dorme uma soneca durante a reunião sobre os fogos na Califórnia. :o)

Uma educação cristã

Os que defendem que o cristianismo é um farol moral deviam ler aqui a biografia do fundador e único dono da empresa Blackwater, e depois ver o que acontece quando se privatiza a tropa aqui.