segunda-feira, 11 de junho de 2007

Pensamento e Acção - II

A conversa entre o Joaquim e o Matias parece absurda, por várias razões - uma das quais é o Matias ser suficientemente alienado para duvidar da existência de pobreza. Mas a sua argumentação falaciosa é frequentemente usada.

Existem três aspectos fundamentais na sua argumentação que merecem ser discutidos:


a) O facto de Joaquim ter razão, ou não, quanto à existência de pobreza, não tem nada a ver com a sua atitude perante essa realidade.

b) O facto de Joaquim acreditar, ou não, na existência da pobreza, deve apenas ter a ver com o facto de ter razão em acreditar nisso, e nunca deverá ter a ver com as consequências pessoais que adviriam de tal crença.

c) Será questionável criticar Joaquim pelas suas omissões se, acreditando no mesmo que Joaquim, não se estivesse disposto a sacrificar muito mais que Joaquim (e mesmo neste caso a crítica não está necessariamente legitimada).


Ou seja:

a) Matias devia ter acreditado na existência da pobreza apenas baseado nos indícios e provas a esse respeito. A atitude de Joaquim é completamente irrelevante para aferir se existe pobrez ou não.

b) O facto de Joaquim acreditar em algo que, a ser verdade, possa fazer surgir deveres onde não existiam - quer ele os cumpra, quer não - passíveis de o prejudicar, é sinal que resistiu ao enviesamento cognitivo que nos faz ter maior tendência para acreditar que aquilo que é bom para nós, é bom para todos.

c) Caso Matias acreditasse no mesmo que Joaquim, estaria disposto a fazer muito mais? Se não, a sua legitimidade para criticar Joaquim pelas suas omissões é um tanto dúbia...

Pensamento e Acção - I

Matias: Olá, Joaquim!

Joaquim: Olá, Matias!

M: Não esperava ver-te aqui, num restaurante.

J: Que tem isso de estranho?

M: Não sei, deixa estar...

J: Diz lá! Agora fiquei curioso.

M: É que... Pensava que tu acreditavas que existe muita pobreza no mundo.

J: Sim... Existe, vários milhões...

M: E que existe muita fome, falta de cuidados básicos, etc. A pobreza é tanta que com meia dúzia de tostões se podem salvar vidas.

J: Sim, acredito nisso.

M: Não achas um bocado incoerente e hipócria estar a comer num restaurante?

J: Como assim?

M: Tu é que acreditas que o mundo é dessa forma... Não sou eu. Vou comer neste restaurante, mas eu acho que a pobreza não existe.

J: Hã????

M: Já to tinha dito. Tínhamos discutido, e tu deste-me imensos argumentos para me mostrar que existia pobreza, estatísticas, notícias, etc...

J: Nada disso te convenceu?

M: Não, a tua atitude sempre falou mais alto. Dizes que há tanta pobreza, mas depois vais comer ao restaurante como se nada fosse. Fazes uma vida normal, vais ao cinema, compras prendas pelo Natal, etc...
Mas se fosses coerente, saberias que a cada tostão que gastas em luxos e prazeres, poderias ter dado esse dinheiro, e estarias a salvar vidas. Em vez disso optas por ter sangue nas mãos como um assassino.

J: Mas tu também tens uma vida normal, com pequenos luxos e gastos desnecessários.

M: Sim, mas eu não acredito que existam pobres. Por isso, eu não estou a matar ninguém. Tu é que és incoerente. Acreditas na pobreza, e ainda assim ages como se nada fosse.

J: Calma, eu de vez em quando faço voluntariado aqui e ali. E às vezes também faço algumas poupanças para dar a associações na luta contra a pobreza.

M: Poupa-me! Quanto dinheiro (e tempo!) gastas com luxos, contigo, e com o teu bem estar, a comparar com esse?
Se calhar em vez de matares - por omissão - várias dezenas de pessoas, matas várias dezenas menos uma. A incoerência mantém-se. És um hipócrita. És incoerente.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Pensamento religioso: o sentido proibido como modo de funcionar

O verdadeiro símbolo do pensamento religioso é o sinal de sentido proibido. Porquê? Porque o que realmente caracteriza um pensamento genuinamente religioso é a paragem no desenvolvimento normal do raciocínio, o estacar perante uma conclusão incómoda, ou até o voltar para trás com medo daquilo que está à frente.

Muitas pessoas pensam que aquilo que caracteriza o pensamento religioso é dar respostas erradas para algumas das interrogações realmente interessantes do universo. Mas o que caracteriza o pensamento religioso é o assassinar cada uma dessas perguntas com uma proibição. Enquanto o pensamento científico consiste exactamente em aceitar rever as nossas ideias de forma a adaptá-las à realidade verificável ou ao que for logicamente plausível, a religião é o exacto contrário: não rever; não verificar; não aprofundar; não questionar.

Deveríamos definir religião, em sentido lato, como qualquer modo de pensar em que todas as contradições e perguntas interessantes são bloqueadas com um sinal de proibido. Exemplo: «Cristo ressuscitou». O mais relevante seria saber como, mas o pensamento religioso não explica como. Diz que é «dogma» ou «mistério», e passa à frente ignorando tudo o que importaria realmente saber. A origem do universo? Foi «Deus». Enquanto nome que se dá arbitrariamente ao que se quiser, funciona superficialmente. Mas o problema é que explicar algo respondendo «Deus» não é uma resposta. É uma paragem forçada na marcha do raciocínio.

A religião alimenta-se tanto da ignorância sobre as respostas correctas, como do medo das consequências de colocar perguntas ou de dar respostas imprevistas. A proibição reconforta: é mais fácil parar do que andar, resolver a angústia da morte com uma esperança falsa, não estudar e não corrigir as próprias ideias, não mudar de ideias.

Esqueçam as cruzes (com ou sem «Cristo»), os crescentes e as menorás. No fundo, «Deus» é um grandessíssimo sinal de sentido proibido.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

A Europa do futuro?

  • «"Há hoje elementos suficientes para afirmar que existiram centros secretos de detenção, geridos pela CIA, na Europa, entre 2003 e 2005, nomeadamente na Polónia e na Roménia", escreve o senador suíço e investigador especial do Conselho da Europa, Dick Marty, no seu segundo relatório sobre as actividades ilegais da CIA na Europa, apresentado hoje.» (Notícia do Público, via Arrastão.)

Como será que iremos encarar isto (ou isto) daqui a dez ou vinte anos? Como desvios temporários? Casos isolados? Ou como o início de algo sistemático e portanto bastante mais sinistro?

Ao Ministério da Saúde...

  • «1. O Ministério da Saúde não deveria conceder às administrações hospitalares uma amplitude excessiva no âmbito da capacidade de regulamentação local da assistência religiosa e espiritual, de forma a não transigir, nem com a multiplicidade e disparidade de regimes, nem com arbitrariedades locais.
    2. O princípio estruturante da regulação de qualquer tipo de assistência espiritual e religiosa nos hospitais públicos deveria assentar unicamente na manifestação de uma vontade de receber esse tipo de apoio livremente expressa pelo utente ou, em caso de incapacidade, por quem legalmente se lhe possa substituir na prática desse acto. Concretamente, em condição de internamento numa unidade hospitalar, todos os utentes deveriam ser informados da possibilidade de solicitar amparo espiritual por parte da sua confissão religiosa, sendo que essa assistência só poderia ser prestada a quem expressamente a solicitasse e que seria frontalmente vedado oferecer auxílio religioso a utentes que o não tivessem previamente solicitado. Apenas seguindo este princípio se consegue articular o respeito pelas normas constitucionais que regulam a privacidade individual em matéria religiosa, a liberdade de consciência e de religião, bem como a norma da separação entre o Estado e as igrejas (§3, §1 e §4 do artigo 41º da Constituição da República Portuguesa).
    3. Porque a assistência religiosa constitui um «serviço» directamente prestado pelas confissões religiosas aos seus crentes e não ao Estado, não faz qualquer sentido que seja o Estado a remunerar os ministros do culto que prestam essa assistência espiritual, ainda que o façam em hospitais públicos.
  • (...) A terminar, gostaríamos ainda de assinalar ao Senhor Ministro da Saúde que, atendendo à previsível introdução, a curto prazo, de alterações profundas no modo como passarão a ser assegurados muitos dos cuidados públicos de saúde, designadamente, através do estabelecimento de parcerias público-privadas – onde instituições católicas, como sejam as Misericórdias e muitas IPSS, poderão vir a assumir expressão relevante –, será evidentemente necessário assegurar, atempadamente, que os «cadernos de encargos» que irão vincular essas entidades parceiras do Ministério da Saúde na dispensa de cuidados públicos de saúde especifiquem, de forma muito clara e taxativa, os termos da concretização do normativo constitucional da laicidade do Estado no quadro daquelas prestações de serviços.»

(Ler a carta completa da Associação República e Laicidade.)

Revista de blogues (8/6/2007)

  1. «Mas a melhor cena foi quando ali perto de Heiligendam antes de mais uma cena de porrada entre os globalizados antiglobalização e a polícia, um dos manifestantes sacou de um trompete e tocou impecavelmente e com muito soul e feeling a…. Internacional. O tipo tocava bem embora eu tenha pensado na altura que foi um pouco de mau gosto tocar a internacional num local que pertenceu à antiga Alemanha de Leste. (...) Tenho a dizer-vos que já estou um pouco farto de tudo isto. Ontem aliás fui à praia para passar tempo, praia que é aqui mesmo em frente do centro de imprensa. Quando voltei duas horas depois estava toda a malta na galhofa em frente a um écran gigante a ver o George e o Vlad (é assim que os amigos tratam o Putin) a dizerem que se amam. (...) Vocês devem ter notado que eu disse que a malta estava em frente a um écran. Isto em grande parte funciona assim. A malta no centro de imprensa vê as notícias no écran da televisão (como vocês) e depois escreve as notícias sobre as coisas que vocês já viram em directo. (...) Ah! Já me esquecia que ontem fui a uma conferência de imprensa de activistas de causas africanas. Fiquei a saber que o aquecimento global é que causa cheias em Moçambique. Segundo um dos gajos que falou na conferência de imprensa (um nigeriano com uma impecável pronuncia britânica) os países da brancalhada deveriam pagar aos países africanos pelo aquecimento global. “E isso para além do dinheiro já prometido,” disse ele. Ninguém se riu o que eu achei estranho. A brancalhada continuou toda a escrever nos cadernos de notas, todos muito sérios. Eu estava à espera que o nigeriano dissesse:"estava só a gozar", mas não. Aparentemente estava a falar a sério. Quando eu lhe disse que cheias em Moçambique acontecem desde o tempo do antes da Outra Senhora, ele disse me que agora ocorrem com mais frequência e afectam mais pessoas. Ninguém se riu, vejam lá! (...) Até breve Do local da conferência dos oito governadores» («Da conferência dos Oito Governadores», no 2+2=5.)
  2. «Primeiro, o Ludwig defende que merece consideração ética todo aquele que sente, tendo como premissa um sistema nervoso baseado no córtex cerebral dos vertebrados. Ora, esse princípio parece-me tão válido como qualquer outro. Porque não basear-nos num princípio que exclui, por exemplo, as espécies não sociais, uma vez que as consequências da morte de um indivíduo se repercutiriam menos na vida dos outros da mesma espécie? Nesse caso, a formiga teria direito a muito mais consideração ética que um urso polar, por exemplo. Este princípio do sentir torna-se claramente mais duvidoso quando o Ludwig responde que o doente comatoso irreversível não merece qualquer consideração ética! Quero acreditar que o Ludwig após uma mais ponderada análise irá mudar de opinião. A humanidade é composta por um elevado número de factores, não apenas pela eficiência do seu sistema nervoso. (...) Em segundo lugar, o Ludwig defende que o erro é usar a tal regra de ouro de não fazer aos outros o que não queremos que nos façam e que, em vez dessa regra, o correcto é não lhes fazer aquilo que eles não gostam. Estou completamente de acordo até aqui. O problema é quando o Ludwig se acha no direito de saber o que os outros gostam ou deixam de gostar.» («Ética com estética», no Penso, logo sou ateu.)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Governing Elite

Por Bill Hicks. Aqui. Vale a pena ouvir (1 minuto e 6 segundos). :-)

Os media e a “violência” dos “anarquistas”

Talvez por viver nos EUA num período particularmente infeliz da sua história – já se fala deste presidente como o pior de sempre: poluição, inflação, desemprego, concentração escandalosa da riqueza, aumento do número de pobres, atropelos à constituição, mentiras, invasões ilegais, tortura, incompetência, etc. – eu me tenha tornado tão cínico.

Mas acho que basta dar uma vista de olhos pelo site Media Matters” para se ter uma ideia sobre o que são os media hoje: uma máquina de propaganda das empresas que mandam no mundo.

Há muito que os políticos deixaram de contar. As pessoas sabem que o Belmiro manda muito mais que o Sócrates e não são as lamúrias ocasionais dos políticos que nos vão convencer a levá-los a sério. (ver, por exemplo o artigo de 1992 "Jihad vs. McWorld").

As polícias? Trabalham para os ministros, que trabalham para quem lhes paga as eleições e as férias, e lhes emprega os filhos e as noras: as empresas.

Neste contexto não compreendo que as pessoas embarquem na história da conspiração nihilista para destruir a ordem democrática, cada vez que os representantes dos 0,1% mais ricos do planeta se reunem para conspirar a sério contra nós, planear como é que nos vão roubar as pensões de reforma, a educação dos nossos filhos, o ambiente e a paz.

Claro que há-de haver sempre idiotas que aproveitam para vandalizar paredes e partir uma montra ou duas, mas idiotas há em todos os movimentos, políticos e apolíticos.

A história dos “anarquistas” é uma invenção. Como a história dos bébés no chão das enfermarias, no Koweit, ou a história das WMDs no Iraque, ou a história do salvamento da menina Jessica Lynch, ou da morte heróica do cabo Pat Tillman no Afeganistão, ou a crise da segurança social numa Europa 5 vezes mais rica do que era no tempo em a segurança social foi criada...

Acreditar que os 0.1% mais ricos do mundo não estão organizados para defender o que possuem com os meios que têm é quase infantil.

Em 2005 escrevi isto no meu blog sobre o memorando de Lewis Powell (1970):

Há muitos anos – nos anos 80 – ouvi Gore Vidal referir pela primeira vez este memorando e as consequências que ele trouxe para a ordem económica e política mundial.

Perante a revolta geral contra o capitalismo selvagem da Guerra Fria e os crimes perpetrados pelo governo americano em defesa dos interesses das grandes empresas na América Latina, a guerra do Vietnam, etc., a direita percebeu que a guerra ideológica podia estar perdida. Lewis Powell escreveu isto em 1970:

“The most disquieting voices joining the chorus of criticism come from perfectly respectable elements of society: from the college campus, the pulpit, the media, the intellectual and literary journals, the arts and sciences, and from politicians.”

Perante esta situação de descrédito geral da direita e do sistema capitalista o Juiz do Supremo Lewis Powell avançou propostas muito concretas no célebre memorando:

“Business pays hundreds of millions of dollars to the media for advertisements. Most of this supports specific products; much of it supports institutional image making; and some fraction of it does support the system. But the latter has been more or less tangential, and rarely part of a sustained, major effort to inform and enlighten the American people.”

ou

“Under our constitutional system, especially with an activist-minded Supreme Court, the judiciary may be the most important instrument for social, economic and political change.”

Vale a pena ler. E vale a pena ler o balanço feito 35 anos depois por George Lakoff da Universidade de Berkeley.

A resposta da direita foi incrivelmente eficaz: criaram-se fundações para financiar posições específicas para professores de direita nas melhores universidades, para financiar “think tanks” e especialistas de marketing, para financiar campanhas publicitárias, editoras, rádios, jornais e televisões. Pouco a pouco, utilizando técnicas de propaganda milenárias (repetição, “framing”, etc.), a direita foi acusando os campus universitários, as editoras, os jornalistas e os políticos de simpatias esquerdistas inaceitáveis e conquistando posições, uma após outra. Enquanto que o número de professores universitários de esquerda se mantem firme fora das escolas de economia e gestão, o número de jornalistas com cursos superiores diminuiu constantemete desde os anos setenta até hoje. Hoje seria impensável um escândalo como o de Watergate. Em vez disso, entre 1996 e 2000, assistimos ao escândalo inaudito da perseguição dos media ao presidente Clinton.