E agora é divertido ver os portugueses almejar outra vez uma ditadura, um ditador paternal que os proteja e lhes diga o que é melhor para eles. Um pai que os ampare e que puna implacavelmente os que rejeitam o seu amor paternal (como diz Deus: sofrimento eterno para os que duvidarem do Meu amor infinito!).
Acredito que o salazarismo tem duas raízes fundamentais: o medo da liberdade, da confusão e da criatividade (relacionado com a falta de auto-estima dos oprimidos), e a inveja dos vizinhos.
O medo: Portugal tem vivido sob regimes políticos opressivos há quase 500 anos e é natural que os portugueses lidem mal com as responsabilidades e a iniciativa, o pensamento crítico e a independência de espírito.
Quando os americanos disseram ao rei George III que apertavam o cinto mas só se fosse à volta do pescoço dele e da escumalha de ladrões e de inúteis que entulhava a Casa dos Lordes, os portugueses andavam a escrever coisas sobre Deus e o rei e a autoridade e o clero, a tentarem recuperar das constipações que apanharam quando o Marquês de Pombal abriu a janela e deixou entrar um bocadinho do ar fresco do iluminismo nesta sacristia miserável que (ainda) é Portugal.
Desde sempre que este país puniu os mais espertos e os mais ambiciosos (em Portugal a ambição é um crime: chama-se arrivismo), os que gostavam de melhorar a vida à custa do trabalho próprio. Não é bom ser-se muito esperto em Portugal. Vale mais ter amigos poderosos.
Por isso, quando há um problema os portugueses olham para cima! “Eles” haviam de fazer aqui uma estrada, “eles” haviam de prender esta malandragem toda (os gadelhudos!), “eles”, “eles”, “eles”.
Nunca se fala em “nós” como parte da solução.
A segunda razão é a inveja miserável dos infelizes. Os búlgaros contam uma anedota que explica bem o peso da opressão: o Inferno é um sítio cheio de caldeirões com óleo a ferver e demónios com forquilhas, que empurram as almas que querem sair. Menos no caldeirão da Bulgária, que não precisa de demónios porque cada vez que um búlgaro tenta sair os outros puxam-no para baixo.
A coisa melhor que o salazarismo tem para nos oferecer é que deixa ser preciso ser-se invejoso: nas ditaduras passam a ser todos miseráveis.